Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

17 de novembro de 2025

150 Anos do Convento de Lausanne que redefiniu o R:.E:.A:.A:.

 



Com a devida vénia e respectiva autorização do Blog «Comp&Esq» se transcreve  a seguinte e interessante reflexão:

150 ANOS DO CONVENTO DE LAUSANNE QUE REDEFINIU O R:.E:.A:.A:.


Autor:  Iván Herrera Michel

                   

 

(ao lado: Águia Bicéfala desenhada em Lausana em 1875


Neste ano de comemorações, enquanto o mundo maçónico recorda o 150º aniversário do Convento de Lausanne, é importante compreender que este não é simplesmente um aniversário, mas uma redescoberta do momento em que o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA) se examinou honestamente ao seu próprio espelho e decidiu questionar a sua identidade e o seu rumo. Pois, naquelas duas semanas de Setembro de 1875, as questões que ainda hoje debatemos foram discutidas com serenidade: se a fé e a razão podem coexistir sob o mesmo tecto, se a tradição pode ser renovada sem perder a sua essência e se a unidade pode existir sem uniformidade. Os eventos comemorativos de que ouço falar na Europa, na América e em África evocam uma semente viva que continua a dar frutos em cada jurisdição do REAA -  sejam elas femininas, mistas ou masculinas — onde o pensamento livre procura ser sustentado pela fraternidade e pelo respeito.

Durante dezasseis dias, naquele Setembro desse ano, na Suíça, reuniram-se onze Supremos Conselhos  sob a presidência do suíço Jules Besançon, cujo comportamento ponderado reflectia perfeitamente o tom exigido pelo encontro. No interior das paredes austeras do local escolhido, foram debatidos os fundamentos normativos e filosóficos do REAA,  com uma seriedade que hoje impressiona pelo seu rigor documental e estatura moral. Destas sessões emergiram decisões simultaneamente prudentes e valentes.

Ao mesmo tempo, foi uma atitude corajosa, pois foram revistas as chamadas Grandes Constituições de 1786, atribuídas a Frederico II da Prússia, e reconheceu-se, com consciência histórica, que a sua origem era mais lendária do que real, embora a sua autoridade jurídica tivesse sido consolidada pelo consenso de quase um século. Em vez de revogar o texto, este foi cuidadosamente revisto, os erros evidentes da época foram corrigidos e foi ratificado “na medida em que não entrasse em conflito” com os princípios aprovados em Lausanne. Este equilíbrio preservou a continuidade do Rito e ensinou a lição de que a tradição é melhor defendida quando é compreendida, e não quando é idolatrada.

O ponto que acendeu os debates foi o primeiro artigo da Declaração de Princípios, redigida por uma comissão presidida por Adolphe Crémieux e revista pelo Barão Tassin, que afirmava que “a Maçonaria proclama a existência de um Princípio Criador sob o nome de Grande Arquitecto do Universo”. Esta frase, que pretendia unir, acabou por criar uma divisão entre aqueles que a viam como a expressão mais elevada de espiritualidade e aqueles que acreditavam que abria as portas à ambiguidade filosófica. O delegado escocês, William T. S. Mitchell, considerou que o texto enfraquecia a noção de um Deus pessoal e abandonou a assembleia antes do seu encerramento, enquanto a Inglaterra optou por permanecer e assinar, interpretando a fórmula como preservando os elementos essenciais. Nesta divergência foi lançada a semente de três interpretações que ainda hoje dividem, enriquecem e definem a Maçonaria praticada no Rito Escocês Antigo e Aceite em todo o mundo.             

A partir de então, o Convento de Lausanne foi interpretado sob três perspectivas distintas, correspondentes aos três principais grupos históricos que hoje lideram os Supremos Conselhos mundiais e que, de alguma forma, continuam a dialogar apesar da distância histórica. A Jurisdição Sul dos Estados Unidos, herdeira de Albert Pike, entendeu Lausanne como um excesso de racionalismo e um risco de relativismo doutrinal, mantendo, por isso, firmemente a sua defesa do carácter teísta do Rito como sua espinha dorsal. 
Entretanto, o Supremo Conselho de França, guardião dos documentos originais e arquitecto de uma interpretação humanista, viu em Lausanne uma afirmação luminosa da liberdade de consciência e sustentou que a fórmula do "Princípio Criador" não era uma concessão ao deísmo, mas uma expressão de respeito pela diversidade espiritual. Por sua vez, o Supremo Conselho do Grande Oriente de França, com a sua abordagem secular e não dogmática, interpretou o mesmo texto como uma tentativa que não atingiu o cerne da questão. Celebrou a sua abertura, mas lamentou que não tivesse sido dado o passo definitivo para a completa emancipação de todas as referências teológicas. Estas três perspectivas formam o triângulo que ainda hoje sustenta o Rito Escocês Antigo e Aceite contemporâneo, porque nenhuma delas pode ser compreendida sem as outras.   

Com o tempo, as discussões no Convento tornaram-se uma bússola que ainda hoje orienta os debates actuais, e a prova mais clara disso é que nenhum Supremo Conselho — «regular», «tradicional» ou «liberal» — pode ser explicado hoje sem se referir directa ou indirectamente a Lausanne e às reflexões que dela emergiram. Alí, discutiu-se a relação entre história e mito, entre fé e razão, entre autonomia e confederação, e deste cadinho surgiu a consciência moderna do Rito Escocês Antigo e Aceite. Lausanne não proporcionou uniformidade; proporcionou método, e este método tem sido a pedra basilar das reformas, das dissidências e também das reconciliações que marcaram a história subsequente. O Rito Escocês Antigo e Aceite não pode ser compreendido sem este espelho suíço, porque foi aí que o Rito deixou de ser meramente um conjunto de Graus e se converteu numa ética de pensamento, um equilíbrio entre a tradição e a lucidez crítica.

Na realidade, a ressonância de Lausanne estendeu-se muito para além dos seus muros e actas, pois as ondas desse debate chegaram também às Américas e misturaram-se com o trabalho das nossas próprias Lojas, desde a Patagónia ao Rio Grande e às Caraíbas, onde o Rito aprendeu a exprimir-se com um sotaque americano sem renunciar às suas raízes da Europa Ocidental. Talvez seja por isso que os latino-americanos tendem a ler Lausanne não como um museu de fórmulas, mas como uma lição viva sobre como conciliar razão e emoção, tradição e mudança, espírito e cidadania. Estas ressonâncias, que ainda ressoam nas Lojas de todos os Orientes da região, recordam-nos que a universalidade da Maçonaria mede-se melhor pela sua capacidade de tradução do que pela sua pretensão de uniformidade.


Cento e cinquenta anos depois desse encontro, o que hoje comemoramos não é um acto administrativo do passado, mas uma lição de estilo. Lausanne ensinou que as divergências não destroem se forem tratadas com respeito, que a diversidade não fragmenta quando se baseia em princípios e que a Maçonaria só pode sobreviver quando souber pensar sem medo e acreditar sem imposição. Ao recordarmos os homens que assinaram a 22 de setembro de 1875, não os honramos por terem resolvido todos os dilemas, mas por os terem colocado com nobreza. A verdadeira homenagem não se celebra com discursos, mas com ações, e a melhor maneira de comemorar o Convento de Lausanne é replicar o seu método nos nossos dias: debater sem desdém, construir sem exclusão e procurar sem arrogância.

Ao terminarmos este ciclo comemorativo, observo que o espelho de Lausanne permanece, refletindo não uma imagem fixa, mas a imagem sempre mutável de quem somos e de quem ainda devemos ousar ser. Por vezes, creio que o maior legado de 1875 não foi a sua Declaração de Princípios, mas a atitude daqueles que se reuniram para debater sem medo, com a serenidade de quem sabe que a verdade não se conquista, mas cultiva-se. O Convento de Lausanne permanece aberto sempre que um maçon profere uma palavra para reflectir, não para impor os seus próprios pensamentos, e nesse acto discreto e luminoso reside a verdadeira homenagem àqueles que, há cento e cinquenta anos, tiveram a coragem de discutir o presente e o futuro do Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA) com a mesma dignidade com que outros se limitam a repetir o passado.

Porque uma Ordem que esquece a sua capacidade de discordar com decoro acaba por se converter na estrutura sem pensamento próprio que prometeu transformar.

 Iván Herrera Michel

(Blog «Pido la Palavra»  de 17.Out.2025)

(selecionado e traduzido  por: Salvador Allen:. M:.M:./ «Comp&Esq»)

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