Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

13 de maio de 2017

FRANC-JARDINIERS EM LONDRES

Transcreve-se, do Blogue Pierres Vivantes, este artigo de opinião da autoria de Roger Dachez:


Um fim-de-semana em Londres forçou-me a abandonar a mesa onde escrevo dois livros que devem ser lançados no final do ano (O Verdadeiro Romance da Franco-Maçonaria - os 30 dias que fizeram a Maçonaria em ambos os lados do Canal da Mancha, e Uma Nova História da Franco-Maçonaria em França - um terceiro já está concluído e será lançado dentro de algumas semanas (História Ilustrada do Rito Escocês Rectificado) - uma actividade intensa que também explica o meu silêncio neste blog durante alguns meses, silêncio que vai cessar quando tudo estiver escrito!
Mesmo assim, decidir ir a Londres para ser recebido na Loja Jardins Suspensos da Babilónia nº 13, pertencente à Ordem dos Jardineiros de Inglaterra.
Então aqui estou eu como Franco-Jardineiro...
Não vim aqui para traçar a história, as fontes e destinos frustrados desta Ordem para maçónica, que muitos pensam ter desaparecido mas que, miraculosamente preservados na Austrália, retomou o poder e a força na Escócia há alguns anos e agora na Inglaterra - e, quem sabe, um dia, talvez, em França...
Apenas quero aproveitar esta oportunidade para reflectir um pouco sobre estas franco-maçonarias paralelas, as chamadas Friendly Societies que frequentemente caminham ao lado da própria Franco-Maçonaria, mas experimentando um destino diferente.

Uma Miríade de Fraternidades


O fenómeno das Friendly Societies foi notavelmente projectado para leitores franceses pelo meu amigo Jean-Pierre Bacot no seu livro As sociedades fraternais, Dervy de 2007, a que me faço referência, é claro.
Dos Silvicultores aos Druidas através dos Buffalows e Odd-Fellows, estas sociedades, cuja glória aconteceu no Séc. XIX, combinam dois aspectos principais: a preocupação fundamental de apoio mútuo, caridade activa e concreta, e uma organização hierárquica com um enquadramento simbólico e ritual de lojas, graus e ornamentos. Uma mistura improvável aos olhos dos franceses…

Os Jardineiros são um pouco diferentes. Como sociedade amigável, ela acaba por desaparecer, vítima do estado de bem-estar e das acções modernas de solidariedade e seguros. Mas a sua redescoberta inesperada permitiu que surgisse uma outra dimensão esquecida, puramente simbólica e ritual, mas também moral e espiritual, numa palavra: iniciática.

É assim que se apresentam os modernos Jardineiros, muitas vezes maçons - mas nem sempre - e cujo ritual, de aspecto bastante arcaico, tipicamente britânico na sua estrutura, permite uma releitura dos rituais maçónicos que, para eles, sofreram uma evolução mais complexa.
Há algo refrescante nestes Franco-Jardineiros, com três graus de Aprendiz - Adão, Eva e o Jardim do Éden - Companheiros - Noé celebrando o Todo-Poderoso através da construção de um altar depois do dilúvio - e Jardineiro Mestre - sob a égide do famoso Templo de Salomão, que é apresentado aqui na sua aparência vegetal...
Mas sobretudo, se os rituais são os mais simples, o papel da Instrução (em Inglês: Lecture) é bem mais importante do que na Franco-Maçonaria, ou seja, os discursos e ensinamentos têm menos sofisticação intelectual em favor de uma dimensão profundamente humana, fraterna e cordial. Tudo sob a égide do inevitável Grande Jardineiro do Universo, o Deus dos nossos pais, pedra angular fundamental de qualquer edifício do universo iniciático britânico – que é em si a origem da Franco-Maçonaria e de todas as Ordens que se desenvolveram sob o seu modelo o seu modelo.
Pode tomar-se esta Ordem dos Franco-Jardineiros como um dos muitos sistemas dos Graus Secundários - os Ingleses  dizem  Graus Laterais  em vez de Altos Graus- que compõem a maior parte do universo maçónico britânico. Maçons do outro lado do Canal da Mancha não consideram que o Grau de Mestre seja o fim de toda a Franco-Maçonaria: pelo contrário, para eles, é onde tudo começa, como o era em França no século XVIII. É a exploração dos inúmeros Graus - mais de 125 estão disponíveis no Reino Unido – que se aprofunda a complexidade do edifício maçónico. As Lojas dos primeiros três Graus são a base não o fim.

Os Jardineiros, mais uma vez, não são maçónicos no verdadeiro sentido do termo, mas o parentesco é impressionante e imenso. Começando com os três emblemas fundamentais que são o compasso, o esquadro e a faca de enxertos (Pruning Knife)! Os Ornamentos são familiares para um maçom e a cerimónia dos três graus da Ordem está de acordo com a estrutura dos Graus Laterais bem conhecidos no solo Inglês.
Quanto mais eu estudo a prática da Maçonaria, em todas as suas expressões, mais eu dou conta que não só, se deve conhecer a Franco-Maçonaria britânica, mas também se deve sair dela para ir ao encontro das Friendly Societies que, paradoxalmente, retêm a frescura nativa que a Maçonaria institucionalizada, após três séculos, perdeu em parte!

Não tive outro remédio senão participar no culto matinal de domingo na Igreja Anglicana em Londres, Grosvenor Chapel, para a Festa de São Jorge - onde muitos ingleses, entre eles certamente muito francos -maçons, celebram a homenagem, à vez, nacional, ritual e religiosa, sem se importaram com qualquer rotura, qualquer descontinuidade, e, claro, com qualquer incompatibilidade com a sua vida maçónica.
Ao fazer este percurso, sentimo-nos muito longe dos debates, por vezes angustiantes, que marcam a vida francesa Maçónica e ainda, não recuso dizê-lo, a sociedade francesa em geral.
Roger Dachez

Tradução da responsabilidade da Comissão Editorial do Blogue Salvador Allende

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