APÓLOGO para APRENDIZES
PERSONAGENS: PORTA; JARRO; COPO DE UÍSQUE; BENGALIM; CACHIMBO; MAÇANETA; CABIDE DE CHAPÉUS; SUPORTE DE LEITURA E MAIS UMAS QUANTAS COISAS;
TEMA: IMBECILIDADE/ADORMECIMENTO
Para Umberto Eco deve-se pôr em cena o que se não pode ver. Assim, e como introdução, vou pedir desculpa aos eruditos capazes de colocar em objectos inanimados, um discurso moral. Vou ensaiar fazê-lo, não a bem da Ordem em geral nem desta Oficina em particular, mas apenas para comprometer e entreter os obreiros neste novo inicio do ano maçónico. Não o farei como os mercadores do oculto (do tipo Cagliostro) que manifestam o gosto pela imprecisão e pela credulidade indiscriminada usando um testemunho que se demonstra intraduzível, antes o farei em tom de brincadeira para cativar a reflexão de cada um. Assim:
A porta, gigante e majestosa estava toda trabalhada com repiques e rococós. Aparentava ser feita a partir da frondosa madeira das florestas do Maiombe na Cabinda ainda portuguesa.
O que poderá estar por detrás dela, perguntava a maçaneta reluzente e de tons dourados, colocada a meio do lado esquerdo? Provavelmente esconde cabeças, perdão, objectos pois isto é um apólogo, capazes de guardar os momentos maiores da virtude e de condenar o pior dos vícios.
Espera aí, - diz o cachimbo de porte garboso, altivo e também trabalhado finamente a partir de marfim-, as coisas podem hierarquizar vícios e virtudes, o mal e o bem ou caracterizar lugares de perdição e de salvação? Estou a ver que queres imitar as bestas que se julgam os reis da Criação apesar de terem uma rectidão moral menos filosoficamente justificada, mas dogmaticamente estabelecida por uma aliança à base da confiança num ser superior que nunca ninguém viu, cheirou ou palpou?
A maçaneta, coitada, pouco habituada a dialécticas exclamou: para aí! pois não entendo as tuas xico-espertices que me parecem, apenas, turvar o que já é suficientemente turvo. Querem ver que te dá jeito repetir as velhas querelas e tensões entre agnósticos e Crentes que o Grande Cisma de 1504 estabeleceu ad eternun entre ortodoxos e canónicos?



