Autor: Paulo Cesar T. Ribeiro (*)
Imagem ilustrativa gerada por IA
Tempora mutantur et nos in illis. Os tempos mudam, e nós mudamos com eles. É deste axioma antigo que parto, porque há reflexões que só amadurecem quando o homem já viveu o bastante para reconhecer, no espelho da Ordem, aquilo que a sociedade insiste em recusar aos seus mais velhos.
Há, no cerne da Maçonaria, um convite ao autoconhecimento e ao aprimoramento moral — um trabalho interior que deveria, por sua própria natureza, dissolver as barreiras que o preconceito ergue entre os homens. E, no entanto, é preciso coragem para admitir que nem sempre é isto o que se vê. A casa que se proclama Templo da Igualdade não está imune às sombras que projetam-se sobre o mundo profano. Ela é, como escrevi em outra parte, um microcosmos da sociedade humana: repercute, em suas paredes, os mesmos fenómenos que atravessam o tecido social mais amplo. E entre esses fenómenos há um que se instalou entre nós de maneira particularmente silenciosa — o etarismo, a discriminação por idade, a velhofobia que exclui, sem alarde, justamente aqueles que mais deram à Ordem.
Escrevo estas linhas como quem oferece uma modesta adição ao esforço de trazer à luz uma reflexão que reputo essencial e urgente. Não movido pela denúncia fácil, nem pelo tom militante que tanto empobrece o debate, mas pelo desejo de instigar meus irmãos a envolverem-se na pavimentação de um caminho — o da inclusão de todos os que aqui chegam ou aqui permanecem, em qualquer estação da vida, buscando conhecimento e dignidade.
Os Pedreiros Livres formam uma das mais antigas instituições do mundo, fundamentada nos valores de Fraternidade, Liberdade e Igualdade. Filosófica e progressista, incita ao autoconhecimento e à prática do altruísmo, guiada pela tolerância e pela justiça. Ora, numa sociedade em que as divisões se mostram cada vez mais prevalentes, o combate ao preconceito assume urgência global. A perpetuação de estigmas restringe o próprio potencial humano e acarreta consequências que ultrapassam em muito o âmbito de nossas Oficinas. Como defensores da verdade e da moralidade, nós, maçons, temos a responsabilidade de liderar pelo exemplo. Não se trata de uma cortesia — trata-se de uma obrigação ética.
Convém, porém, olhar de frente para as raízes históricas. Durante muito tempo, os Antigos e Aceitos foram alvo da desconfiança do mundo profano; à medida que crescia seu impacto social e político, multiplicavam-se as teorias conspiratórias e as inverdades que distorciam a percepção pública. O que talvez incomode mais é reconhecer que certos preconceitos foram nutridos também dentro de casa — por membros que, sem o perceber, perpetuavam estereótipos que corroíam as próprias normas que juraram guardar. A verdade histórica é que a Maçonaria nunca esteve inteiramente imune ao preconceito: houve tempos em que limitações severas, fundadas em religião, raça e gênero, chegaram a ser institucionalizadas, refletindo as normas sociais de sua época. Hoje o preconceito veste roupagens mais discretas. Mas discrição não é ausência. É aqui que desejo demorar-me, porque é aqui que a reflexão se torna, para mim, mais dolorosa e mais necessária.
O Silêncio dos sábios
Num ambiente que respira, ainda que involuntariamente, as tendências do mundo — onde a juventude se associa ao vigor e à inovação, e a idade avançada, à obsolescência —, subestima-se aquilo que os mais velhos oferecem: sabedoria, experiência, equilíbrio na hora de decidir. Exalta-se a modernização, a tecnologia, a renovação constante; e, sob o pretexto legítimo de renovar, exclui-se. Vista sob a perspectiva de um psicólogo — e é como psicólogo, tanto quanto como maçom, que escrevo —, essa dinâmica revela algo mais fundo do que um simples desapreço geracional: revela uma resistência à mudança que se projeta, paradoxalmente, sobre os que menos mudaram de compromisso. Tememos envelhecer, e por isso afastamos de nossa vista aqueles que nos anunciam que envelheceremos. Memento mori. Há, no etarismo, uma recusa mal resolvida da própria finitude.
A Pedra Angular renegada
Na simbólica de nossa Arte, a pedra rejeitada pelos construtores é justamente aquela que se torna a pedra angular. Que ironia amarga, então, que a Ordem cuja linguagem inteira se organiza em torno da pedra que edifica seja capaz de renegar suas próprias pedras angulares — os irmãos cujas décadas de vivência sustentam, ainda que invisivelmente, tudo o que somos. A marginalização do maçom idoso não fere apenas o indivíduo. Ela empobrece o conjunto. Sobre isto, permito-me insistir com as palavras que já registei: o esquecimento gradual e alarmante das valiosas contribuições dos maçons mais experientes, cujas vivências e conhecimentos profundos constituem ativos inestimáveis que engrandecem o patrimônio cultural e educacional da nossa Venerável Confraria.
Quando afastamos o obreiro veterano, não perdemos apenas uma presença afetuosa nas colunas. Perdemos um acervo. A transmissão dos valores essenciais, que se faz de geração a geração, sofre uma interrupção que a organização dificilmente percebe no momento em que ocorre — e amargamente lamenta depois, quando o vazio já se instalou. Esse esvaziamento do saber não compromete só a continuidade histórica; limita nossa própria capacidade de inovar, porque a inovação verdadeira nasce do diálogo entre a experiência e o frescor, não da amputação de uma das partes. E há ainda o custo humano, que como clínico não posso deixar de sublinhar: a marginalização produz isolamento e perda do senso de propósito, ferindo o bem-estar mental e emocional de homens que dedicaram a vida à Ordem e que, na estação em que mais precisariam do pertencimento, encontram a porta encostada.
O Templo da Igualdade
A igualdade maçónica não é um estado que se herda; é um acto que se pratica. E a tolerância — convém dizê-lo com clareza — não é passividade, mas um exercício consciente, deliberado e responsável. Quando a Irmandade acolhe genuinamente a diversidade etária, ela se torna aquilo que sempre prometeu ser: um microcosmo ideal, um antídoto ao sectarismo que grassa lá fora. Quando não o faz, desonra o próprio moral e fragiliza a eficácia de suas ações conjuntas em prol do bem maior. Não há meio-termo confortável aqui.Por isso, o que proponho não é um lamento, mas um trabalho — e um trabalho tem instrumentos. O primeiro é a autoavaliação sincera: que cada irmão examine, na intimidade de sua consciência, os próprios preconceitos, inclusive os que não sabe que carrega, pois são justamente esses os mais operantes. O segundo é a educação continuada: workshops, palestras e materiais de formação que desconstruam os estereótipos ligados ao envelhecimento e restituam à experiência dos veteranos o seu justo valor. O terceiro, e a este atribuo especial esperança, é a mentoria — a criação deliberada de espaços em que o saber acumulado dos mais antigos encontre a energia dos mais jovens, não em competição, mas em intercâmbio. É na mentoria que a pedra angular volta a ocupar seu lugar na construção, e a Loja readquire a plenitude de suas gerações.
Elevemos, pois, o padrão moral e ético que a Maçonaria representa para a humanidade. A transformação que peço não contraria a tradição — ao contrário, honra-a em seu sentido mais profundo, pois reverenciar o passado e construir o futuro não são movimentos opostos, mas o mesmo gesto realizado com maturidade.
Dictum et factum. Dito e feito: que estas palavras não se esgotem na leitura, mas se convertam em ações concretas, em cada Oficina, em cada coração que as acolher.
Paulo Cesar T. Ribeiro (*)
(*) - (selecionado do site «Maçonaria com Excelência» https://www.maconariacomexcelencia.com- 07.Agosto, por Salvador Allen:. M:.M:. / R:.L:. Salvador Allende).




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