Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

30 de outubro de 2026

O lado problemático do processo iniciático

 



O lado problemático do processo iniciático


 Autor:  Iván Herrera Michel

                

 

Digamos sem rodeios: nem toda a gente está emocionalmente preparada para se submeter a processos iniciáticos.

Há pessoas que chegam com feridas invisíveis, com necessidade de reconhecimento ou com fissuras psicológicas e que, ao encontrarem uma estrutura que lhes oferece degraus, títulos, graus e validações sucessivas, vêem algo ser desencadeado na sua saúde mental. Nem todas as personalidades reagem da mesma forma, mas, em temperamentos mais dependentes, mais carentes de aprovação ou com inseguranças por resolver, os ritos de passagem podem tornar-se algo mais delicado do que parece.              

À medida que o progresso se organiza em degraus visíveis, quase sem nos apercebermos, a identidade começa a girar em torno deles, e a pessoa aprende a ver-se de acordo com o lugar que ocupa. Em indivíduos com uma autoestima estável, este não passa de um estímulo circunstancial. No entanto, naqueles que já possuem uma autoestima frágil, aquilo que à partida deveria ser um indicador administrativo ou de avanço acaba por se tornar um dado emocional determinante. Se o avanço chega, há entusiasmo. Se sofre um atraso ou é simplesmente negado, se é adiado sem explicação clara ou deixado em suspenso através de promessas vagas, instala-se uma inquietação que, em certas personalidades, se pode tornar insistente, bem como uma frustração persistente capaz de corroer ainda mais, lentamente, a autoestima daqueles que são mais vulneráveis à aprovação externa.

28 de outubro de 2026

A tecnologia muda em semanas - As competências que importam duram décadas

 



A tecnologia muda em semanas. As competências que importam duram décadas

com a devida vénia e autorização do Blog «Compasso & Esquadro», se transcreve este artigo, que se nos afigurou importante para os dias que correm:


Autor:  Filipa Cunha


Não há nada de "soft" em saber fazer uma boa pergunta, avaliar uma fonte, colaborar com quem pensa de forma diferente ou aguentar a frustração de um projecto que não resulta à primeira. São as competências que ficam quando as ferramentas mudam.

Há quatro anos, a Inteligência Artificial generativa não estava nas salas de aula. Hoje, 85% dos jovens portugueses entre os 9 e os 17 anos já a usaram, segundo o relatório EU Kids Online 2026. No PISA 2025, quase metade dos alunos de 15 anos (48%) diz usá-la para estudar. A tecnologia costumava avançar em anos. Passou a avançar em meses, e já há quem meça o intervalo entre uma ferramenta e a seguinte em semanas.

O ritmo é o ponto de partida deste texto porque muda a pergunta. Se aquilo que ensinamos hoje a usar estiver obsoleto antes de o ano lectivo acabar, ensinar uma ferramenta é uma aposta perdida. É por isso que dizer que "a IA é a competência de que os jovens precisam" me parece enganador. A IA não é uma competência. É o material com que as competências vão ser exercidas, e um material que muda de forma todos os trimestres.

26 de outubro de 2026

De novo à Volta do Tempo, da Idade e da Maçonaria

 



De novo à Volta do Tempo, da Idade e da Maçonaria 
 

Com o devido agradecimento ao Blog «Compasso & Esquadro» se transcreve:

Considerámos útil recordar novamente alguns conceitos relacionados com os 3 temas acima, publicados inicialmente neste Blog em 12.Jul.2022,  já que poucas vezes são recordados e discutidos nas Sessões em Loja.  O facto da sua análise periódica ser importante, muito em especial para os Quadros das LLoj:., analisarem os candidatos à Iniciação,  e AApr:. leva-nos a acreditar que será útil voltar a recordá-los (p' Comissão Editorial do Blog - Salvador Allen:.M:.M:.)


I - Introdução

Algumas das interrogações que mais frequentemente se nos ocorrem e/ou nos são colocadas, respeitam justamente às que surgem acima. Existirá  por norma, prática, ou até eventual indicação específica, alguma idade ajustada para se ser Iniciado?? Ou deverá existir,   essencialmente e pelo contrário, uma maturidade certa para se ser Iniciado??

As principais características das actuais sociedades globalizadas de consumo,  apresentam frequentemente como consequências – um alto factor de competividade assimétrica, o individualismo, o egoísmo, alguma falta de ética  e de respeito das sociedades quer para com os mais novos, mas ainda mais com os mais velhos e todos, em geral. Prevalecem o espírito e práticas consumistas, afastam-se os cidadãos da maturidade mínima para resistir aos valores distorcidos impostos («mercado dixit»). Assim se alienam quaisquer tentativas de progressão cultural e/ou intelectual, consideradas «à priori» não interessantes ou desnecessárias, ou até incompatíveis com o frenético estilo de vida «digital». 

22 de outubro de 2026

Deslocamentos de sentido da Linguagem Maçónica

 



Deslocamentos de sentido da Linguagem Maçónica


Autor: Iván Herrera Michel

               

 

Recentemente, despertou o meu grande interesse uma troca de impressões com um Venerável Mestre de uma Loja de Medellín — filólogo hispanista e docente da Universidade de Antioquia — sobre a ideia de nos aproximarmos do conhecimento da Maçonaria através da variação do significado do seu vocabulário em função do tempo, dos contextos e dos usos.         

A realidade histórica mostra que, desde a sua primeira Grande Loja em Londres, no início do século XVIII, a Maçonaria foi atravessada por uma questão de linguagem que se aprofundou à medida que chegou a outras terras e séculos. De facto, a redacção das Constituições de Anderson, de 1723, envolveu também uma operação de selecção de vocabulário destinada a conferir uma dimensão iluminista às antigas fórmulas das "Old Charges" inglesas. Desde então, a Maçonaria tem vindo a herdar e a deslocar significados num processo em que diferentes leituras acabam por competir para se imporem como versões legítimas.

18 de outubro de 2026

O Conceito da Laicidade e a sua origem renascentista

 



O Conceito da Laicidade e a sua origem renascentista

Autor: Valentín Díaz, 33º



Um dos grandes pilares sobre os quais assenta o ideal maçónico é a liberdade. Outro grande pilar, intimamente ligado à liberdade, é o laicismo, que emergiu como um movimento social no século XIX, impulsionado pelas Revoluções Liberais e pelo Iluminismo, e que se incorporou nos sistemas jurídicos dos Estados com a França da Terceira República. Em 1882, foi promulgada a lei que instituía o ensino primário público, gratuito, obrigatório e laico, conhecida como Lei Ferry, em homenagem ao ministro (e mais tarde primeiro-ministro) Jules Ferry, um notório maçom.

E foi em 1905 que foi aprovada a Lei de Separação entre a Igreja e o Estado, estabelecendo um Estado laico em França e contendo a célebre frase: "A República não reconhece, paga ou subsidia nenhuma religião". O projecto desta lei foi obra do primeiro-ministro Émile Combes, também ele maçom. O facto de o Grande Oriente de França (GOdF) ter promovido o laicismo estatal expressa a importância do laicismo na ideologia maçónica. Mas, claro, nem o laicismo teve origem na França do século XIX, nem as concepções de laicidade eram idênticas entre os próprios maçons. 

14 de outubro de 2026

MUNDO JUSTO!

 

Com a devida vénia e respectiva autorização se
transcreve este poema de Adilson Zotovici:



MUNDO JUSTO! 


Num momento, num minuto 

Em Sacro Templo envolvente 

Qual pássaro em voo arguto 

Vou ao alto, ao céu luzente 


Sonho acordado, silente, 

Que tal as alvas nuvens calmas 

Voam soltas, livremente, 

Seguras, em paz... as almas 

12 de outubro de 2026

Antigos e Jovens Maçons - Tradição e Mudança

 



 Antigos e Jovens Maçons - Tradição e Mudança



Autor: Iván Herrera Michel




Já vi muitas coisas acontecerem na Maçonaria. Rostos novos que partem, ideias jovens punidas, opiniões petrificadas, projectos a nascer e a morrer, lojas a desaparecer… e talvez esta reflexão seja uma tentativa de expressar por palavras o que alguns de nós sentimos quando os rituais são deixados para trás e surgem questões. 

Tive a oportunidade de observar a Maçonaria sob diferentes perspectivas e responsabilidades, e a verdade é que, por vezes, sinto algo ao conversar com um Irmão, jovem ou idoso: a sensação de que estamos numa encruzilhada sem precedentes, imersos num mundo vertiginoso de tempos em constante mudança, o que não facilita o caminho de transição que qualquer tradição exige. São tempos que ameaçam a sobrevivência da Ordem tal como a conhecemos e que se tornam cada vez mais difíceis de ignorar e gerir, pois, em última análise, afastam os Irmãos das Lojas.

Em particular, quando falo com jovens maçons, reparo em algo que me chama a atenção e me faz reflectir. Falam-me das suas ideias, sobre como querem que a Maçonaria faça algo pelo mundo de hoje, pelos problemas actuais. E eu fico ali parado, a acenar com a cabeça e a pensar: como é que lhes posso explicar que este lugar é, e ao mesmo tempo e não é, este tipo de lugar? Para compreender isto, precisamos de uma abstração como as sobreposições e os dilemas filosóficos apresentados pelo gato de Schrödinger.