Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

28 de outubro de 2026

A tecnologia muda em semanas - As competências que importam duram décadas

 



A tecnologia muda em semanas. As competências que importam duram décadas

com a devida vénia e autorização do Blog «Compasso & Esquadro», se transcreve este artigo, que se nos afigurou importante para os dias que correm:


Autor:  Filipa Cunha


Não há nada de "soft" em saber fazer uma boa pergunta, avaliar uma fonte, colaborar com quem pensa de forma diferente ou aguentar a frustração de um projecto que não resulta à primeira. São as competências que ficam quando as ferramentas mudam.

Há quatro anos, a Inteligência Artificial generativa não estava nas salas de aula. Hoje, 85% dos jovens portugueses entre os 9 e os 17 anos já a usaram, segundo o relatório EU Kids Online 2026. No PISA 2025, quase metade dos alunos de 15 anos (48%) diz usá-la para estudar. A tecnologia costumava avançar em anos. Passou a avançar em meses, e já há quem meça o intervalo entre uma ferramenta e a seguinte em semanas.

O ritmo é o ponto de partida deste texto porque muda a pergunta. Se aquilo que ensinamos hoje a usar estiver obsoleto antes de o ano lectivo acabar, ensinar uma ferramenta é uma aposta perdida. É por isso que dizer que "a IA é a competência de que os jovens precisam" me parece enganador. A IA não é uma competência. É o material com que as competências vão ser exercidas, e um material que muda de forma todos os trimestres.

Os dados do PISA ajudam a perceber a diferença. Os alunos que usam IA de forma moderada para resumir um texto ou fazer uma pesquisa preliminar sobre um tema novo, entre uma vez por mês e duas vezes por semana, saem-se melhor do que os que a evitam e do que os que a usam quase todos os dias. O que separa uns dos outros não é a ferramenta, que é a mesma. É o critério: saber quando usar, o que perguntar, o que questionar na resposta, quando parar e pensar sozinho.

É este tipo de capacidade que se tem vindo a chamar, cada vez mais, "durable skills", ou competências duradouras. Numa conversa com Esther Perel sobre o "futuro humano com a IA", em abril de 2026, Sal Khan notou que aquilo que as empresas procuram hoje, e a que já não chamam "soft skills", mas "durable skills", é a colaboração, a criatividade, a capacidade de ouvir e as competências de relação com os outros. Não há nada de "soft" em saber fazer uma boa pergunta, avaliar uma fonte, colaborar com quem pensa de forma diferente ou aguentar a frustração de um projeto que não resulta à primeira. São as competências que ficam quando as ferramentas mudam. E são, precisamente, as que um sistema desenhado para transmitir conteúdos tem mais dificuldade em desenvolver.

Há uma consequência prática, e é a que mais me preocupa: temos falado muito e agido pouco. Conferências, estudos, grupos de trabalho, planos para daqui a três anos. A mudança que estamos a discutir já aconteceu na vida dos jovens, e eles estão à nossa frente. Passaram a usar a IA sózinhos, sem que ninguém lhes tenha mostrado como. Se queremos saber que competências fazem falta e como se aprendem, temos de começar por lhes perguntar e de lhes dar voz a sério, não como inquiridos, mas como parte da decisão sobre o que aprendem e como usam a tecnologia. 

Quando os jovens têm espaço para experimentar, explorar áreas novas e desenvolver projectos, passam, em pouco tempo, de não saber por onde começar a utilizar ferramentas de IA e Modelação 3D a tomar decisões sobre aquilo que querem criar e aprender a seguir. Fazem-no presencialmente, em comunidade, a errar e a corrigir ao lado de outros, num processo em que a colaboração, a criatividade e a capacidade de resolver problemas se desenvolvem na prática. São estas as competências duradouras, que não se aprendem apenas com um tutorial, mas através da experiência, da experimentação e da partilha.

A questão já não é se os jovens vão usar inteligência artificial. É que tipo de pessoas vão ser quando a usarem. Para quem está a descobrir o que quer fazer amanhã, essa aprendizagem não pode esperar pela próxima reforma. Começa agora, e começa com eles.

Filipa Cunha

(Diretora Executiva TUMO Portugal)


(selecionado do Jornal «Público» digital, de 13.Out.26, por Salvador Allen M:.M:./«Compasso & Esquadro»)



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