Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

9 de setembro de 2026

Maçonaria no Espelho Digital: Projeção Pública, Redes Sociais e Juventude

 



Maçonaria no Espelho Digital: Projeção Pública, Redes Sociais e Juventude

 


Autor: Víctor Guerra


Este artigo reflecte criticamente sobre os esforços recentes da Grande Loja de Espanha (GLE) e da Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) para projectar uma imagem pública da Maçonaria por meio das redes sociais, visando particularmente o público jovem entre 18 e 30 anos. Com base na análise de iniciativas como o projeto ” Ex Libris Lodge nº 3765” e conteúdos como o Craftcast, o artigo avalia a eficácia e a coerência dessas estratégias de comunicação em comparação com o uso tradicionalmente reservado e discreto da imagem maçónica. O artigo também critica a proliferação de conteúdo fotográfico nas redes sociais, muitas vezes sem controle institucional, e seu potencial uso por agentes externos para fins que nada têm a ver com a Maçonaria.

1. Introdução

Nos últimos anos, a Maçonaria começou a questionar como é percebida pela sociedade e, particularmente, pelas gerações mais jovens. Esse processo de introspeção tem sido acompanhado por uma tentativa de actualização da sua estratégia de comunicação, com uma presença cada vez mais activa nas redes sociais e plataformas digitais.

Um exemplo concreto desta tendência é o recente projecto promovido pela Loja “Ex Libris nº 3765” (UGLE – Grande Loja Unida de Inglaterra), intitulado: “O papel das redes sociais na construção da imagem pública da Grande Loja da Espanha: percepção da Maçonaria na faixa etária de 18 a 30 anos. Estratégias para um futuro digital”.

2. Projecão e juventude:  uma estratégia eficaz?

A iniciativa parte de uma premissa legítima: entender como os jovens nos percebem e como captar sua atenção num ambiente digital saturado de estímulos. No entanto, a sua execução parece basear-se  em modelos de comunicação típicos do marketing de influência, utilizando o "Mestre Maçom Cantero" como mestre de cerimónias. Ele e a Maçonaria são apresentados por grupos de jovens apelidados de "Colegones" (como Josep María Albouy no WORLDCA$T nº 84 ao lado de @pedro_buerbaum, e a participação de Juan Cantero no Club 113, apresentado por Goorgo, Nil Ojeda e Werlyb) para apresentar conteúdos maçónicos a partir duma perspectiva informal — numa tentativa de alcançar... mas onde? Essa seria a pergunta, além de questionar a ética e a coerência de tais comunicadores.

Um dos elementos centrais desta estratégia é o programa Craftcast, que, na sua transmissão de 10 de junho de 2025, apresenta dois jovens maçons acompanhados por dois membros veteranos num único plano-sequência, comunicando o conteúdo por meio de um podcast artificial com narração em Off. Esse formato, que não consegue escapar de certa rigidez e artificialidade, limita sua capacidade de se conectar com o público-alvo, que, para os ingleses, deve ser o prémio máximo, e para quem os maçons regulares, como diz Alex López, são modelos a serem seguidos.

3. Narcisismo institucional e sobre-exposição em redes

Para além destas tentativas de renovação, é necessário refletir sobre uma tendência paralela: a crescente presença fotográfica de maçons — tanto regulares como liberais — nas redes sociais. Este fenómeno contrasta com a tradicional discrição maçónica, em que a imagem dos membros era raramente visível fora da envolvente da loja.

Esta mudança intensificou-se a partir de 2018, durante o mandato de Óscar de Alfonso como Grão-Mestre da GLE. O seu uso intenso do Instagram, incluindo publicações controversas (como a infame foto com melões), marcou um ponto de viragem. Ainda mais significativa foi a sua aparição pública com Andrey Bogdanov, Grão-Mestre da Grande Loja da Rússia, cujas imagens foram exploradas por grupos anti-maçónicos e até por teóricos da conspiração. Em vez de conterem esta sobre-exposição, continuaram a facilitar a divulgação de cada vez mais fotos com exuberante ostentação de riqueza e poder.

4.  Redes Sociais: Ferramenta de Projeção ou Risco Institucional? 

A utilização massiva das redes sociais por parte de maçons e lojas gerou um enorme número de páginas e perfis que, em muitos casos, carecem de verificação e supervisão. Isto facilita a inserção de perfis falsos de Grandes Lojas e de lojas, bem como de centenas de vídeos gerados por IA, tudo sem qualquer controlo. Alguns chegam a ser fraudes descaradas e burlas ocultas. Esta sobre-exposição, longe de beneficiar a imagem institucional, está a comprometer a integridade simbólica e a discrição da Maçonaria. Todo este jogo de exposição narcisista presta-se à manipulação externa e à banalização dos seus símbolos e significados.

É paradoxal que as Obediências regulares (corrente anglo-saxónica, maioritária) se preocupem em como atrair os jovens sem abordar este problema estrutural, que está a deixar uma pegada digital indesejada e exige um estudo aprofundado no campo da comunicação estratégica e da gestão da identidade institucional.

5. E os jovens podem realmente participar? 

Para além da abordagem comunicacional, impõe-se uma questão mais profunda: será que um jovem com menos de 30 anos, com salários precários e um futuro incerto, pode dedicar tempo e recursos à Maçonaria? 

A resposta dificilmente pode ser afirmativa. O verdadeiro desafio não é atrair pessoas através de cartazes, mas sim criar as condições para que a participação seja verdadeiramente viável, significativa, acessível e credível.

6. Conclusões.

A Maçonaria enfrenta o desafio de se adaptar à era digital sem abandonar a sua identidade. A procura de visibilidade pública entre os jovens é legítima, mas não pode basear-se apenas em estratégias superficiais ou em imitações da corrente dominante. 

É necessário haver uma reflexão crítica sobre o uso das redes sociais, uma política de comunicação séria e uma revisão da coerência entre forma e conteúdo. 

Mais importante ainda, é necessário avaliar se a Maçonaria oferece hoje aos jovens algo que valha a pena — para além da imagem e do conteúdo viral — e se está disposta a transformar-se não só externamente, mas também internamente.

Víctor Guerra

Investigador e divulgador de história maçónica

(publicado em 19Jun.2025 por Victor Guerra Garcia, no seu Blog (https://victorguerra.blogspot.com). Selecionado e traduzido linearmente por Salvador Allen:. M:.M:.(simbol:.) / R:.L:. Salvador Allende, Lisboa )

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