Autor: Iván Herrera Michel
No mês passado, completaram-se 225 anos desde o dia em que onze maçons se reuniram numa taberna para criar uma instituição ritual que colonizou a maioria dos espaços maçónicos
O dia deve ter decorrido sob o calor húmido característico daquela época do ano na costa da Carolina do Sul, com temperaturas entre os 28 e os 30 graus Celsius. Ali, a humidade dos pântanos e do Oceano Atlântico contribuía para criar uma atmosfera pesada, pelo que é fácil imaginar janelas abertas e leques enquanto a cidade prosseguia com as suas habituais atividades dominicais.
No início do século XIX, Charleston era uma das cidades mais dinâmicas da América do Norte. O seu porto mantinha ligações com a Europa, as Caraíbas e inúmeros portos americanos. Comerciantes britânicos, escoceses, franceses e irlandeses, bem como marinheiros de diversas nacionalidades, refugiados das Revoluções Atlânticas e viajantes de terras distantes, frequentavam as suas ruas. Com uma população de cerca de vinte mil habitantes, era uma das cidades mais importantes dos Estados Unidos, situada numa posição privilegiada numa estreita península entre os rios Ashley e Cooper, que convergem para o Oceano Atlântico, formando um dos melhores portos naturais da costa leste da América do Norte.
Recreação da reunião fundacional do 1er. Supremo Conselho do REAA, a partir dos dados das investigações
Os navios entravam lentamente na ampla baía formada pelo estuário dos dois rios, enquanto surgiam pântanos, ilhas baixas e fortificações costeiras protegendo a entrada do porto. Dos conveses avistavam-se dezenas de mastros, armazéns, docas e embarcações de todas as dimensões. Esta actividade marítima explicava grande parte da prosperidade de uma cidade que respirava ao ritmo das marés, dos ventos e do constante vaivém de mercadorias e pessoas.
Uma parte considerável da população era constituída por africanos escravizados e pessoas de ascendência africana, e enquanto os fundadores do Supremo Conselho debatiam projectos institucionais e estruturas administrativas, milhares de homens e mulheres permaneciam excluídos até dos direitos mais básicos. Charleston, em 1801, combinava cosmopolitismo e desigualdade, abertura internacional e profundas limitações sociais.
Os fundadores do Supremo Conselho, por sua vez, pertenciam aos sectores mais abastados da cidade. Entre eles, encontravam-se médicos, comerciantes, oficiais militares, intelectuais e dirigentes cívicos. Alguns tinham assistido aos conflitos da Revolução da independência Americana, outros mantinham laços com a Europa e as Caraíbas, e vários circulavam em redes internacionais de comércio, correspondência e intercâmbio intelectual. De certa forma, eram cidadãos do Atlântico, e não apenas habitantes de Charleston, uma vez que as guerras e revoluções do final do século XVIII tinham provocado deslocações populacionais de grande amplitude.
Cada pessoa contribuía com o seu próprio vestuário, provavelmente de acordo com o clima e a sua posição social. Casacos escuros, coletes de tecidos leves, camisas de linho branco, meias compridas, sapatos com fivelas de metal e cabelos empoados. Alguns poderão ter chegado a pé, outros a cavalo ou em carruagens privadas, uma vez que Charleston era relativamente fácil de se deslocar. Durante décadas, a Taverna foi um local de troca de notícias, negociações, formação de alianças e discussões sobre assuntos públicos.
Em 1801, Charleston exalava o cheiro de sal marinho, tabaco, rum, alcatrão, couro, peixe fresco, madeira húmida e estrume de cavalo. O som dos sinos, das carruagens nas ruas de paralelepípedos, das conversas em várias línguas, dos gritos vindos do porto e da constante agitação do comércio faziam parte da paisagem quotidiana.
Não sabemos quem chegou primeiro, que conversações ocorreram antes do início da reunião, ou quem conduziu a discussão. Muito provavelmente, partilharam algumas das bebidas apreciadas pela elite de Charleston, como o vinho da Madeira, o rum jamaicano envelhecido ou um dos ponches tipicamente servidos em encontros de certo nível. Podem também ter provado vinho do Porto português ou conhaque francês. À mesa, havia provavelmente carnes assadas, presuntos, cordeiro, aves, tartarugas, pão, queijo e ostras. Se alguém pediu sobremesa, foi-lhe certamente oferecido um arroz doce aromatizado com noz-moscada, canela e açúcar das Índias Ocidentais, considerado na época um produto local refinado. E quer o encontro tenha ocorrido ao entardecer ou à noite, as discussões devem ter-se desenrolado sob a luz clara e dourada de lamparinas de óleo de cachalote, complementadas por velas de cera de abelha, num ambiente bem diferente daquele que hoje conhecemos nas lojas maçónicas
Estes homens também não estavam isentos das necessidades quotidianas. A higiene pessoal diferia muito dos padrões actuais, e os banhos completos eram raros, embora as classes altas cuidassem bastante da sua aparência com roupas limpas, perfumes, águas aromáticas, lavagens parciais e uma pomada para o cabelo feita com banha perfumada com lavanda e bergamota. Durante a reunião, deviam limpar o suor com lenços de linho, beber com frequência e, ocasionalmente, utilizar as latrinas situadas no pátio ou em edifícios adjacentes. Não é impossível imaginar que alguns assuntos importantes do nascente Supremo Conselho e do Rito Escocês Antigo e Aceito continuassem a ser discutidos informalmente durante estes breves intervalos.
Estes onze homens trabalharam imersos no seu próprio tempo, baseando-se numa tradição herdada, mas não se limitaram a preservá-la. Reviram-na com um espírito reformista, reorganizaram-na, adaptaram-na e deram-lhe uma nova forma institucional.
Talvez seja por isso que a lição mais valiosa que estes maçons deixaram reside na sua compreensão progressista da Maçonaria.
Iván Herrera Michel
(Selecionado e traduzido linearmente de “PIDO LA PALABRA”, Blog de Iván Herrera Michel “dedicado al cultivo de la tolerancia y el respeto a la diferencia” ,de 27 de junio de 2026, por Salvador Allen:. M:.M:. /«Compasso &Esquadro» )



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