Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

1 de setembro de 2026

Chegam os primeiros Mestres Maçons formados com a IA

 



Chegam os primeiros Mestres Maçons formados com a IA 

Autor:  Iván Herrera Michel

                  

Pouco mais de três anos e meio depois da estreia pública da IA, estamos a ver os primeiros maçons a alcançar o grau de Mestre cujas carreiras foram conduzidas inteiramente com o auxílio da inteligência artificial (IA).      

Na verdade, para estes novos Mestres, as IA não representam uma ruptura com a tradição, mas antes um ambiente sociológico normal no qual podem examinar as instruções recebidas e ser menos dependentes do prestígio dos nomes e mais respeitosos com a solidez dos argumentos. Esta contingência resulta especialmente significativa na Maçonaria, sendo um fenómeno com uma rica mistura de alegoria, simbolismo, tradição e especulação.                       

Por exemplo, ao longo dos três séculos de existência da Maçonaria, circularam falsidades históricas, tentando ligá-la aos construtores das pirâmides, aos Templários, aos mistérios do Egipto, às escolas pitagóricas e a inúmeras figuras bíblicas e não bíblicas. Agora, o novo maçom, com Inteligência Artificial à disposição, pode questionar a veracidade destas narrativas, comparar versões, investigar as
provas existentes e descobrir quem oferece provas, quem propõe uma interpretação e quem simplesmente repete algo que não corresponde à realidade histórica.                        

Sinceramente e em honra à verdade, é preciso reconhecer que a IA os ajudou a expressar os seus pensamentos de forma mais clara e até mostrou que não tinham reflectido o suficiente sobre um assunto, apontando contradições, recomendando esclarecimentos e sugerindo nuances. Uma das contribuições mais interessantes desta tecnologia é que os obrigou a formular melhores perguntas, pois não é a mesma coisa perguntar qual o significado de um símbolo que perguntar quando surgiu, em que Rito é utilizado, o que dizem os documentos mais antigos ou como foi interpretado por um determinado autor ou escola maçónica. Também não é a mesma coisa perguntar se uma pessoa foi maçom do que solicitar provas da sua Iniciação, da Loja a que pertencia ou da fonte contemporânea que o confirma.                  

Portanto, num espírito de crítica construtiva, podemos perguntar-nos o que significa trabalhar maçónicamente nos dias de hoje. Porque se uma Inteligência Artificial consegue redigir um documento, explicar um símbolo, resumir um livro, comparar rituais e localizar em segundos uma referência histórica que antes exigia horas ou dias de pesquisa, nenhuma destas actividades, individualmente ou em conjunto, pode continuar a definir aquilo que entendemos como trabalho maçónico.

Talvez a IA nos esteja a forçar a reconhecer que o trabalho maçónico começa realmente após a recepção da informação.
Começa quando o maçom a compara com a sua própria consciência, a submete ao escrutínio, a discute fraternalmente com outros e permite que o que compreendeu modifique algo da sua maneira de pensar, viver ou agir. Uma máquina pode ajudar-nos a escrever um magnífico artigo sobre tolerância, mas não pode praticá-la por nós. Pode explicar-nos o simbolismo da Pedra Bruta durante horas, mas não pode desbastar as nossas arestas. Pode descrever perfeitamente o que significa a fraternidade, mas não pode reconciliar-nos com um Irmão de quem estamos afastados. E pode produzir um texto impecável para uma reunião da Loja, mas não pode vivê-la.                         
Isto introduz também uma mudança em algo muito humano dentro da própria Maçonaria: o prestígio do conhecimento. Durante muito tempo, aqueles que possuíam uma boa biblioteca, recordavam muitos autores, tinham uma melhor compreensão dos Rituais ou estavam na Ordem há décadas, possuíam um capital intelectual difícil de ser alcançado por um novo iniciado. Hoje, grande parte desta informação está disponível em segundos, e isso desloca o valor da posse do conhecimento para a capacidade de o compreender, questionar, relacionar e convertê-lo em critério próprio.                    

Talvez seja por isso que o próximo Maçom não será necessariamente mais valioso por saber mais, mas sim por saber discernir melhor. O prestígio poderá passar de quem acumula respostas para quem formula melhores perguntas, de quem cita mais autores para quem consegue identificar uma fonte sólida, e de quem apresenta a prancha mais erudito para quem consegue transformar o conhecimento em reflexão partilhada e, sobretudo, em ação.              

Mas talvez a mudança mais profunda resida no aparecimento de um novo tipo de maçom que está habituado a não receber uma resposta sem voltar a perguntar. E isto não empobrece necessariamente a Maçonaria, porque um mito ou alegoria pode conter uma lição profunda sem que precisemos de a apresentar como um acontecimento real, e uma tradição pode ser muito bela e significativa sem que precisemos de a transformar artificialmente em história.

E talvez resida aí o verdadeiro desafio que a Inteligência Artificial nos coloca. A questão não é se uma máquina pode criar uma prancha maçónica, porque claramente pode, mas sim o que fazemos com esse documento depois de o lermos. Porque se o trabalho maçónico consiste unicamente em recolher informação, redigi-la e apresentá-la na Loja, a Inteligência Artificial pode realizar uma grande parte desse trabalho, e muitas vezes melhor do que nós. Mas se consiste em transformar o conhecimento em consciência, a consciência em diálogo e o diálogo numa forma diferente de nos relacionarmos connosco próprios, com os nossos Irmãos e com a sociedade, então a ferramenta terá mudado, mas o trabalho permanecerá profundamente humano.                             

E aqui surge o extraordinário paradoxo de que, quanto mais tecnológica se torna a sociedade, mais valor se pode atribuir àquilo que a Maçonaria conserva como profundamente humano.       

Iván Herrera Michel              


(selecionado e traduzido linearmente, do Blog «Pido la Palabra» de Ivan Herrera Michel, de 27.Agosto.2026, por Salvador Allen:. M:.M:. / R:.L:. Salvador Allende, Lisboa))

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