Chegam os primeiros Mestres Maçons formados com a IA
Autor: Iván Herrera Michel
Pouco mais de três anos e meio depois da estreia pública da IA, estamos a ver os primeiros maçons a alcançar o grau de Mestre cujas carreiras foram conduzidas inteiramente com o auxílio da inteligência artificial (IA).
Na verdade, para estes novos Mestres, as IA não representam uma ruptura com a tradição, mas antes um ambiente sociológico normal no qual podem examinar as instruções recebidas e ser menos dependentes do prestígio dos nomes e mais respeitosos com a solidez dos argumentos. Esta contingência resulta especialmente significativa na Maçonaria, sendo um fenómeno com uma rica mistura de alegoria, simbolismo, tradição e especulação.
Sinceramente e em honra à verdade, é preciso reconhecer que a IA os ajudou a expressar os seus pensamentos de forma mais clara e até mostrou que não tinham reflectido o suficiente sobre um assunto, apontando contradições, recomendando esclarecimentos e sugerindo nuances. Uma das contribuições mais interessantes desta tecnologia é que os obrigou a formular melhores perguntas, pois não é a mesma coisa perguntar qual o significado de um símbolo que perguntar quando surgiu, em que Rito é utilizado, o que dizem os documentos mais antigos ou como foi interpretado por um determinado autor ou escola maçónica. Também não é a mesma coisa perguntar se uma pessoa foi maçom do que solicitar provas da sua Iniciação, da Loja a que pertencia ou da fonte contemporânea que o confirma.
Portanto, num espírito de crítica construtiva, podemos perguntar-nos o que significa trabalhar maçónicamente nos dias de hoje. Porque se uma Inteligência Artificial consegue redigir um documento, explicar um símbolo, resumir um livro, comparar rituais e localizar em segundos uma referência histórica que antes exigia horas ou dias de pesquisa, nenhuma destas actividades, individualmente ou em conjunto, pode continuar a definir aquilo que entendemos como trabalho maçónico.
Talvez seja por isso que o próximo Maçom não será necessariamente mais valioso por saber mais, mas sim por saber discernir melhor. O prestígio poderá passar de quem acumula respostas para quem formula melhores perguntas, de quem cita mais autores para quem consegue identificar uma fonte sólida, e de quem apresenta a prancha mais erudito para quem consegue transformar o conhecimento em reflexão partilhada e, sobretudo, em ação.
Mas talvez a mudança mais profunda resida no aparecimento de um novo tipo de maçom que está habituado a não receber uma resposta sem voltar a perguntar. E isto não empobrece necessariamente a Maçonaria, porque um mito ou alegoria pode conter uma lição profunda sem que precisemos de a apresentar como um acontecimento real, e uma tradição pode ser muito bela e significativa sem que precisemos de a transformar artificialmente em história.
E talvez resida aí o verdadeiro desafio que a Inteligência Artificial nos coloca. A questão não é se uma máquina pode criar uma prancha maçónica, porque claramente pode, mas sim o que fazemos com esse documento depois de o lermos. Porque se o trabalho maçónico consiste unicamente em recolher informação, redigi-la e apresentá-la na Loja, a Inteligência Artificial pode realizar uma grande parte desse trabalho, e muitas vezes melhor do que nós. Mas se consiste em transformar o conhecimento em consciência, a consciência em diálogo e o diálogo numa forma diferente de nos relacionarmos connosco próprios, com os nossos Irmãos e com a sociedade, então a ferramenta terá mudado, mas o trabalho permanecerá profundamente humano.
E aqui surge o extraordinário paradoxo de que, quanto mais tecnológica se torna a sociedade, mais valor se pode atribuir àquilo que a Maçonaria conserva como profundamente humano.
Iván Herrera Michel
(selecionado e traduzido linearmente, do Blog «Pido la Palabra» de Ivan Herrera Michel, de 27.Agosto.2026, por Salvador Allen:. M:.M:. / R:.L:. Salvador Allende, Lisboa))


Sem comentários:
Enviar um comentário