Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

29 de agosto de 2022

Para uma Nova Ética Maçónica em Pleno Século XXI

 

               

 Para uma Nova Ética Maçónica em Pleno Século XXI                            

Com a devida vénia autorização do Blog «Comp&Esq», publicamos o seguinte trabalho


I - Introdução  à Situação Actual.

As guerras que têm vindo a assolar o mundo nos últimos anos, grande parte resultado das disputas inter-imperialistas ou inter-regionais (fomentadas por aquelas), além das restantes que vinham sistematicamente ocorrendo, com as trágicas consequências económico-sociais e humanas, têm contribuido para uma progressiva diminuição das democracias e a das liberdades em crescentes países no Mundo.

Como se já não bastassem as terríveis consequências sanitário-económicas da pandemia, que  assolou e paralisou parcialmente o mundo inteiro nos últimos três anos, associando os desastres naturais (consequência ou agravados pela poluição e/ou desiquilíbrios ecológicos), teremos a dimensão dos desastres globais que atingiam, até há 6 meses,  este nosso mundo. A este cenário já deveras preocupante, juntemos-lhe agora a guerra na Europa (agressão e invasão da Rússia à Ucrânia) da qual  o nosso país, à beira-mar plantando, também «participa indirectamente»,  via económica e militar, através da «solidariedade europeia». 
Não sendo a Maçonaria um Partido Político, ONG ou Associação de gestão operacional ou equivalente, é contudo perceptível o desalento dos cidadãos e óbviamente de muitos Irmãos, nos mais diversos Orientes, sobretudo da Europa (de que não seremos excepção), mas também da África,  América (sobretudo do Sul), Médio-Oriente e Australásia, como cidadãos «livres e de bons costumes», com a  preocupante situação que o Mundo actualmente atravessa. 

Se principalmente durante a pandemia, vários e prestigiados IIr:. a quem muito devíamos,  partiram para o Oriente Eterno,  deixando-nos mais enfraquecidos, por outro lado, o que é de certo modo compreensível, tem-se registado algum decréscimo  da assiduidade média nas Lojas, após este período, onde não raras vezes comparecem às Sessões cerca de metade dos Mestres. Julgamos que este facto traduz também parte do estado de espírito atrás referido, sendo prejudicial quanto à evolução das LLoj:. e das suas acções e Formação. Se além disto juntarmos a reduzida assiduidade que diversos Irmãos passam a manifestar, quando atingem a Mestria, talvez julgando-se já donos da Luz,  nada mais tendo a aprender ou ensinar (estando  provávelmente a confundi-la com a «chama» dalguma vela), teremos o retrato da situação «média», em que a maior parte das Obediências (quer as «liberais», mas sobretudo e em particular as «dogmáticas / anglo-saxónicas») se encontram.

Já que estamos a tentar identificar eventuais causas do abstencionismo,  julgamos ser a altura propícia de questionar também o motivo que leva certo número de Irmãos a abandonarem a Ordem entre os Graus de Aprendiz e CompanheiroQue responsabilidades fazemos recair sobre os respectivos padrinhos? [2] e [5].

Assim estamos a acabar o primeiro quartil do Séc.XXI com uma média etária razoávelmente elevada, que apesar de tudo tem vindo a evoluir positivamente, no nosso caso (embora não se compare à dos «dogmáticos/ anglo-saxões», que é bem pior),  aliada a uma participação e frequência média das Lojas  não muito consistente, especialmente por parte daqueles que mais obrigação teriam de o fazer. Daqui resulta que  uma pequena percentagem de Maçons (face á dimensão das LLoj:.) decida e trate de tudo, quase todo o tempo, apesar de oficialmente esta possuir um Corpo de Oficiais, anualmente eleito, enquanto a outra parte se vai ausentando ou acomodando em presenças mais ou menos «virtuais», pouco intervindo durantes as Sessões, e sobretudo não apresentando trabalhos, já que assim, pelo menos, não se notará tanto  a sua eventual  deficiência de conhecimentos.

Será que o principal (e nalguns casos único) objectivo é o de  suportar a subsistência financeira das Obediências / Maçonaria, dando apenas solução à sua continuidade física / organizacional?  

E por último, senão o mais relevante (no nosso caso particular), se nos consideramos uma Organização Maçónica «adogmática e liberal», das mais antigas da Europa, porque continuamos genéricamente a colocar todos os entraves de «princípios» ou «pseudo-filosóficos», à entrada de Irmãs (mais de 52% da Humanidade), na nossa Augusta Ordem, violando pelo menos um dos nossos princípios essenciais  - Igualdade - contrariando o que as mais importantes Obediências liberais  continentais já concretizaram? Felizmente que este assunto já foi equacionado e está a ser tratado pela actual gestão, com o cuidado e prudência necessários, sobretudo com limites para a decisão, após sucessivos anos de «arrastamento», pelas gestões anteriores. Continuaremos a permanecer devidamente enquadrados com o nosso «campo liberal e adogmático» ou estaremos a ficar progressivamente isolados e estáticos («abrindo o lugar a outros», com a «conivência de terceiros»…).  O futuro o dirá…..


II – A Maçonaria, numa perspectiva «adogmática».

Em vez de entrarmos em grandes  definições, considerámos mais conveniente e esclarecedor consultar resumidamente as Constituições de algumas Obediências liberais, mais conhecidas.

Para  o  nosso grande referencial, o “Grande Oriente de França (GOdF)”; a Maçonaria é uma Instituição tradicionalmente Filantrópica, Filosófica e Progressiva tendo por objectivo a procura da Verdade, o estudo da Moral e a prática da Solidariedade: - trabalha para o aperfeiçoamento material e moral, intelectual e social da Humanidade; Considerando as concepções metafísicas como sendo do domínio exclusivo da apreciação individual  dos seus membros, recusa toda a afirmação dogmática: Tem por princípios a tolerância mútua, o respeito pelos outros e por si-mesmo, bem como a liberdade absoluta de consciência; Destaca uma importância fundamental à Laicidade; tem por divisa: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”[11].

Para  a “Grande Loja Feminina de França-(GLFF)”; “A Maçonaria tem por dever estender a todos os membros da Humanidade as ligações fraternais que unem todos os Maçons sobre a superfície do Mundo; - Recomenda aos seus membros de se fazerem reconhecer pelo exemplo, a palavra e os escritos, sob reserva da observação do segredo maçónico, o ideal da nossa Ordem; - Tem por dever, em toda a circunstância, de ajudar, esclarecer, proteger a sua Irmã, mesmo sob perigo de vida, e de a defender contra a injustiça; - Considera o Trabalho como um dos deveres essenciais da Humanidade, honrando igualmente  trabalho manual e o  trabalho intelectual. [11].

Também para a o “Grande Loja de França (GLdF)” (que preserva alguma diferenciação, face às anteriores, já que é práticamente «mono-Rito» R.E.A.A.); “a Maçonaria é uma Ordem Iniciática tradicional e Universal fundada sobre a Fraternidade: - Constitui uma aliança de homens livres e de bons costumes, de todas as raças, nacionalidades e de todas as crenças; tem por objectivo o aperfeiçoamento da Humanidade; Os Maçons, para aquele efeito trabalham para a melhoria constante da condição humana, quer sobre o plano espiritual, quer sobre o bem-estar material; Os Maçons reconhecem-se como Irmãos e devem ajuda e assistência em perigo de vida. Devem mesmo prestar ajuda ou socorro a toda a pessoa em perigo”.[11]

Analisando os resumos das Constituições (principalmente do GOdF e da GLFF), constatamos que existem fortes elos comuns, que contemplam o essencial das Obediências Maçónicas «Liberais e Adogmáticas», a saber:

 – «a Maçonaria é uma Instituição tradicionalmente Filantrópica, Filosófica e Progressiva tendo por objectivo a procura da Verdade, o estudo da Moral e a prática da Solidariedade: - trabalha para o aperfeiçoamento material e moral, intelectual e social da Humanidade»; 
“Considerando as concepções metafísicas como sendo do domínio exclusivo da apreciação individual  dos seus membros, recusa toda a afirmação dogmática: Tem por princípios a tolerância mútua, o respeito pelos outros e por si-mesmo, bem como a liberdade absoluta de consciência” 
– “Considera o Trabalho como um dos deveres essenciais da Humanidade, honrando igualmente  o trabalho manual e o  trabalho intelectual”..

Poderemos concluir daqui que, dada «a comunidade» de princípios, não deverão existir diferenças substanciais que impeçam de se «juntarem todos à mesma fogueira», ou seja ao propalado «Centro de União». Objectivo este que já nos tinha sido  indicado por James Anderson, no seu célebre «Livro das Constituições» (1723) - «A Maçonaria é o Centro de União e o meio de conciliar uma amizade verdadeira entre pessoas que poderiam permanecer sem fim, afastadas umas das outras» [11].

Convém recordar que a versão primitiva das  Constituições de Anderson é bem mais liberal e aberta  face às aprovadas pela Grande Loja Unida da Inglaterra – GLUI – (que é deísta), quando da sua constituição,  quase cem anos depois (1813). [7], [8]

No entanto, após pouco mais de trezentos anos,  o relógio do tempo não parou e o Mundo, os países e  sociedades mudaram fortemente. Muitos IIrs:.  (sobretudo os do ramo «dogmático/anglo-saxónico», mas não só…) continuam tão doentiamente dependentes da fase inicial da Maçonaria especulativa (em nome duma pretensa transição directa da «operativa» para aquela, o que não está de modo algum  confirmado…, e do que descrevem como fidelidade à «tradição»), que continuam, contra todas as evidências, a ignorar a ocorrência das enormes alterações humanas,  comportamentais, sócio-culturais e tecnológicas ocorridas desde então,  as quais mudaram radicalmente os valores e  padrões sócio-comportamentais dos homens e  mulheres  das sociedades  ocidentais (as primeiras a concretizá-los). Por exemplo, será que actualmente a Maçonaria,  ainda poderá ser considerada uma questão de género (só masculino)?

Contudo para crescermos e consolidarmos-nos é preciso trabalhar e nunca esquecendo a Tradição, adaptar-nos às novas realidades, recrutar pessoal  mais jovem e com outra mentalidade e deixarmos de andar a reboque dos pensamentos e posturas prevalecentes até pouco mais de meados do Séc. XX. 

Não nos esqueçamos que (concordando novamente com M. Pinto do Santos) [1]: “A Maçonaria é por princípio adogmática, ou seja, não admite no seu seio crenças, dogmas ou doutrinas impostos ou estabelecidos. No entanto as Obediências mais conservadoras aceitam alguns princípios – chamados «landmarks» (vd.) – que ao longo dos tempos têm sido postos em causa, por se revelarem como deveres que contendem com o princípio sagrado da liberdade de consciência e pensamento inerente ao Maçom.”

É tempo de proclamar uma espécie de ALERTA! Ou nos alinhamos com as posições que sempre corresponderam às nossas divisas e princípios, adaptando-as agora aos tempos do final do primeiro quartil do Século XXI, ou provávelmente definharemos, sendo progressivamente ultrapassados por outros que, «oportunística e espertamente», entretanto conseguiram «apanhar o comboio» no último apeadeiro (apresentando-se como a visão actual do «anti-dogmatismo» e «liberalismo» maçónicos,  salientando que apresentam lojas mistas, desde o início..., contráriamente aos que apelam de «velhos»).

Infelizmente tem-se constatado, sobretudo no último decénio, (sobretudo em França, mas também, por cá) uma proliferação de novas «Obediências» e/ou conjuntos de «Lojas selvagens», auto-intituladas como tal. Esta realidade, traduz claramente  (em nosso entender),  um grau de  «auto-destruição» perigoso (pela dispersão,  descaracterização e falta de credibilidade) para que tem caminhado a Maçonaria mais ou menos liberal (em especial a Francesa, ), onde neste momento já existem cerca de 51 «Obediências» (a maioria das quais com reduzida ou quase nula representatividade real), mas que também já vem «abrindo caminho» por este canto do mundo. Este facto,  não sendo de modo algum um factor de reforço, como defendem Roger Dachez & outros, justificando-o com uma  maior diversidade de escolha maçónica,  afigura-se-nos precisamente o oposto, contribuindo fortemente para o descrédito da Maçonaria, em geral, e da «Adogmática /Liberal» em particular, com todas as consequências inerentes [4].

Que trabalhemos com redobrado vigor e não tenhamos necessidade de nos dispersar ou esconder, para afirmar  bem alto:  «tenho toda a honra em ser Maçom, junto aos meus Irmãos e Irmãs», continuando a contribuir individualmente, dentro das nossas possibilidades, para o crescimento, pujança e glória duma «visão da Maçonaria», que se modernizou progressivamente e estará pronta a enfrentar os grandes e enormes desafios que se deparam a toda(s) a(s) Sociedade(s) e país(es), apesar destes tempos altamente conturbados e perigosos que actualmente atravessamos, ambicionando contudo que se regenará, desenvolvendo-se de novo,  no 2º quartil do Séc. XXI.

Por outro lado, todos já perceberam que existem muitos projectos ˗ a maioria deles de natureza caritativa e beneficente ˗ que não seguem em frente com o sucesso que gostariamos... São projectos muito para além  da nossa capacidade (pelo que também convém ir enquadrando este assunto, no sentido da sua melhor resolução, tanto quanto possível). 

No entanto continuaremos a encontrar por aí, alguns Irmãos posando para fotos, sorrindo abertamente, como se tudo estivesse bem e o nosso futuro plenamente assegurado, só por terem subido um ou mais Graus, apresentado faixas e/ou aventais mais coloridos ou brilhantes e olhando algo sobranceiramente para os  IIr:., que  ainda estão alguns «degraus» mais abaixo …. Convirá questionar porque e onde se terão perdido pelo caminho alguns princípios da Ética geral, para já não referir da maçónica, em particular?

Ao ficarmos cada vez mais divorciados da Sociedade civil, caminharemos mais ou menos alegremente para a insignificância, à medida que os mais antigos forem seguindo o seu caminho natural até ao Oriente Eterno. Como poderemos continuar a defender a «Liberdade, Fraternidade e Igualdade», se na prática, não conseguimos concretizar pelo menos esta última, na sua inteira dimensão?.

Para isso as Lojas, na sua diversidade de opiniões e a acções,  têm de  ajudar a resolver os problemas actuais e futuros da(s) Obediência(s), como um corpo só, o que nada significa de unanimismo imposto, mas tão só da aplicação do tradicional método maçónico, ou seja Livre, Tolerante, Consciente, Frontal e empenhado. Para o conseguirmos tudo depende de três factores essenciais :

1) A Convicção que nos une e mobiliza; 
2) Lideranças novas e motivadoras, eleitas pelas bases, por maioria ampla e inequívoca;  
3) Continuação do voto livre e universal em todas as instâncias da Ordem (como no mundo profano).

Julgamos ser do senso comum que parte significativa das nossas centenárias instituições, não teve capacidade de acompanhar (como referido atrás) a evolução e as exigências do actual modelo de pensamento, participação e vivência social.  Parece, por vezes, ainda continuarmos nos moldes da Velha República, mas o que é bem mais preocupante, com falta de quadros de elevado prestígio intelectual.  No nosso caso particular, aqueles que na época, durante a ditadura e na «reconstrução» de Abril,  deixaram a sua «marca»  na Augusta Ordem e no país, quer a nível cívico, político e humano, sempre com a distinção duma integridade a todos os níveis, constituem e continuam como referências indeléveis. Já no «nosso tempo», referimos entre outros, Ramon de la Féria, Dias Amado, Simões Coimbra,  Fernado ValeAntónio Arnaut, sómente para citar alguns dos principais (e não esquecendo vários outros).

Subsistem ainda alguns saudosistas (felizmente poucos) da promíscua relação entre a Maçonaria e os gabinetes dos governantes (para efeitos de eventuais proveitos individuais ou de grupo). Alguma dessa energia ainda é gasta na vã tentativa de influenciarem os assessores e os Ministérios,  as Câmaras, os Partidos (em especial os que estão no poder) e o Parlamento, sendo parte do restante  «esforço» alegremente desperdiçado no que apelidamos como "autofagia maçónica": dissensões,  lutas e disputas por vezes fratricidas dentro de Lojas, Obediências e, ao que consta, até nos ditos «Graus Filosóficos».  Apregoa-se a democracia, mas internamente e, ao que consta, até nos ditos «Graus Filosóficos».  Apregoa-se a democracia, mas internamente, desde as lutas estudantis e universitárias em Santigo, até à sua morte, a nossa conduta persiste em permanecer  muitas vezes autocrática e emperrada, onde imperam algumas estruturas (não oficiais) de poder, construídas "de cima para baixo", privilégios de «castas», feudos sucessórios, «afilhados» espargidos de bençãos ou de passagens mais ou menos administrativas, enquanto a outros tudo é exigido. Depois admiram-se que vários destes últimos se vão  «deste mar libertando»….  

A plena adesão aos projectos maçónicos “liberais e adogmáticos” mais evoluídos, deve ser o nosso principal objectivo (já demasiado atrasado e torpedeado). Se queremos efectivamente continuar a pertencer ao escopo das Obediências «adogmáticas e Liberais», tal só será possível quando, para além de adoptarmos as melhores práticas a nível europeu e sul-americano,  a origem  dos nossos projectos for um espelho da vontade das bases do povo maçónico, devidamente aprovados, após adequada  análise da sua viabilidade de implementação.


III – Finalizando - Acerca da  Ética e da Moral

Moral é a conduta dirigida por normas; a ética é o móvel (motivo) da conduta humana. Assim sendo Ética e moral não são iguais, apesar da maioria dos maçons as considerarem a mesma coisa [3], [4]O mundo profano está mais preocupado em estabelecer princípios de moral do que promover os imutáveis elementos da Ética. 

As Obediências Maçónicas têm, em geral, seguido esse caminho, ocupando-se mais da lei escrita nos seus Regulamentos e Constituições (câmaras e assembleias legislativas maçónicas) e dos mecanismos de punição (tribunais maçónicos) [2]. E enquanto isso, a formação integral do Homem Novo (Ética, “ethos” em grego: «valores ou conjunto de pensamento e acção que visa o bem comum») é deixada para segundo plano, substituindo-a fundamentalmente pela instrução ritualística que, face à evolução e alteração significativa dos costumes, se vem tornando (salvo honrosas excepções), insuficiente.

Lembremo-nos destas máximas: nem tudo o que é legal (moral) é ético. "Tudo me é permitido, mas nem tudo convém" (1 Coríntios 6:12). “Pro jure ipse contra legem" (pelo direito, ainda que contra a lei) [2]. 

Atentemos pois nalguns pontos referenciais que nos devem  inspirar sempre e que nunca devemos deixar de questionar, única forma de aferir se os estaremos ou não a cumprir:

"A Maçonaria é no nosso Planeta, a única instituição capaz de levar o homem ao desenvolvimento pessoal, ao domínio da paz, da ordem e da felicidade" [10]. Quando os profanos se candidatam à Maçonaria, um longo questionário e as sindicâncias buscam assegurar às Lojas que estamos a admitir no nosso convívio  «homens (ou mulheres) livres e de bons costumes».

A expressão "de bons costumes" traz como consequências, muito mais do que se pode imaginar à primeira vista...., pois o conceito envolve a questão familiar e a vida profissional. O maçom (homem ou mulher) tem que se manter igualmente comprometido com a instituição familiar, que é o fundamento da sociedade, do Estado e, por consequência, da Maçonaria. Não pode existir meio-termo neste particular [2]

Não é prioritário (ou até eliminatório, em alguns casos) se ao longo da vida, algum Irmão ou Irmã encontra situações difíceis, conflitos e desafios na vida familiar. Importa, isto sim, que a sua postura permaneça «justa e perfeita» em relação aos valores familiares e aos ditames da natureza. Talvez muitos de nós não  tenhamos ainda pensado nisso, mas há milhares de maçons e profanos que consideram e relevam tais questões,  especialmente quando orientam o olhar para os que dirigem ou se colocam à frente dos diversos cargos ou movimentos na(s) nossa(s) Obediência(s). 

Da mesma forma que exigimos aos candidatos, condições materiais para fazerem face aos deveres financeiros da vida maçónica, deve-se também ˗ e agora com muito mais motivos ˗ atender a situações precárias de Irmãos que, em determinado momento, não conseguem ou têm dificuldades em administrar eficazmente as suas vidas. Ninguém, pelas contingências da vida, está livre de um revés financeiro e, na medida do que é justo e possível, temos o dever (pelos princípios que jurámos defender) de ajudar a reerguer esses Irmãos; daí que não os devamos propor para níveis de liderança ou ao fardo de administrarem ou instruir as Lojas e outros segmentos da nossa Ordem,  pois além de não os ajudar, iríamo-los  sobrecarregar ainda mais.

Como nos recorda o Ir:. Manuel P. dos Santos :” 1 - A definição filosófica de Ética assenta na Moral e refere-se ao comportamento dos Seres Humanos nos seus relacionamentos. 2 – Sendo a Maçonaria uma escola de Aprendizagem da vida que cultiva a Tolerância, a Igualdade, a Solidariedade e a Fraternidade, ela revela-se com uma ética própria, que assenta no respeito pela diferença” [1].

Paralelamente a isso, é necessário que fiquemos atentos àqueles que se intitulam "Irmãos"  e deste modo pediram nosso voto, mas, ao contrário do que deles esperávamos, passaram a defender princípios contrários à ética maçónica. Sem pretender julgá-los, a responsabilidade de existir essa tipologia na "fauna maçónica" repousa na péssima (ou nenhuma) instrução que tiveram sobre Maçonaria, talvez pela pressa com que passaram pelas Lojas em busca de votos para alcançarem cada vez  cargos mais elevados. "Pelos seus frutos os conhecereis. É possível alguém colher uvas de um castanheiro ou figos das ervas daninhas?" [2].

Por fim, ao analisarmos o que cada um de nós pode fazer para ajudar, temos a questão da representatividade pelo exemploem cidadania e na Maçonaria. Existem diversos maçons entre os políticos e em todas as instâncias do Poder (desde as Freguesias, até ao Governo), noutros diversos organismos do Estado e inclusivé no Judiciário. Estes Irmãos devem exercer as suas funções livres de quaisquer pressões, sejam de ordem pessoal, religiosa, financeira ou económica. Não podem nem devem submeter-se a «intimidações» ou «ordenações» de grupos económicos, financeiros, políticos ou quaisquer outros, pois dessa forma estariam a limitar as  suas acções constitucionais em desfavor de todo o povo, opondo-se a tudo o que  Maçonaria defende nesta área e sobretudo, renegando os pressupostos da Ética Maçónica

Sem prescindir dos nossos princípios e valores, teremos de nos actualizar organizacional e culturalmente, sob pena de já não conseguirmos «apanhar»  comboio e irmos passando à história, simplesmente evocando a grandeza e influência do passado, acumulando uma insignificância crescente, resultante de não conseguirmos recrutar na Sociedade quem deveríamos (intelectuais  e profissionais de elevado mérito e prestígio integro, das gerações mais novas e não sómente os amigos e/ou companheiros políticos), para continuar a refazer e a  relançar a nossa influência Social e Humanista na(s) Sociedade(s) e país(es) em que actuamos.

Teminando, julgo ser conveniente realçar que, em coerência, não poderá  existir Maçom sem ética e Maçonaria que a despreze. Não nos esqueçamos pois das nossas Obrigações e deveres, crescentemente escrutinados nesta sociedade cada vez mais digital  e tecnológica,  mas também com cada vez maiores desigualdades e  falta de oportunidades (para a larga maioria), consequência da globalização desregulada, enquanto uma minoria, só pela berço e nome da família  tem, desde logo, um futuro radioso assegurado. 

Numa sociedade onde cada vez mais  reinam o individualismo, o egoísmo e o «salve-se quem puder» (de que maneira for), como sinais proeminentes do êxito e sucesso individuais,  constantemente incutidos (directa ou subliminarmente) pelos meios da propaganda económico-políticos  dominantes,  não é fácil continuar a respeitar e a praticar os nossos valores e  respeitar o passado Histórico. Mas adaptando-nos aos tempos actuais e às suas novas características, remando contra a corrente, teremos de continuar a lutar pela Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Verdade, Honra e Justiça, em que cabem todos os homens e mulheres que sejam ou pretendam continuar a ser,  «livres e de bons costumes». 

Como salientámos atrás “A Maçonaria é por princípio adogmática, ou seja, não admite no seu seio crenças, dogmas ou doutrinas impostos ou estabelecidos…, que contendem com o princípio sagrado da liberdade de consciência e pensamento inerente ao Maçom.”[1].

Apesar das muitas dificuldades, e da perigosa instabilidade do mundo actual, há que ter Esperança e saber Resistir, Crescer e Fortalecer, por via do trabalho, do estudo e do exemplo de actos e acções praticadas  com rigor, não cedendo na Ética e Integridade, estando na vida de acordo com os princípios que nos caracterizam, individualizam, e prestigiam e nos farão progredir individual e colectivamente na(s) nova(s) Sociedade(s) do Século XXI.  
Se não o fizermos ou não o conseguirmos, então os ventos e as eventuais divisões que nos esperam,  poderão levar  à nossa progressiva derrota e posterior derrocada, mas também e sobretudo ao aparecimento de terceiros que nos tentem eventualmente ultrapassar, substituir ou  aniquiliar. 
São estes os desafios que temos pela frente, face aos quais  se nos impõe desde já preparar, ultrapassar e  vencer, pois acreditamos que «terceiras vias» não deverão ser possíveis.....

Salvador Allende M:.M:.

(Ago.2022   e:.v:.)


Bibliografia:

1) - “Dicionário da Antiga e Moderna Maçonaria” – Manuel Pinto dos Santos, Lisboa 2012
2) - Ir:. José Maurício Guimarães, Informativo CHICO DA BOTICA - Edição 164 – 31 Mar. 2022 
3) -  “Democratie et Franc-Maçonnerie”  – L´Edifice.net@ledifice.net»”  – s/ autor expresso («X.M.»)
4) - “Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” – Daniel Ligou,  Éditions PUF, 2015 (3ªÉdition), Paris
5) - “A Maçonaria no Século XXI - algumas Interrogações” – Salvador Allende M:.M:. (blog “Jakim & Boaz”)
6) - “O Mundo de Amanhã – Geopolítica contemporânea” – Carlos Gaspar – Fundação FMS
7) – “Régularité Maçonnique” – Alain Bernheim – Éditions Télétres – Paris (2014)
8) – “A Polémica da Regularidade – Origens e Evolução” – Salvador Allende M:. M:. (2006)
9) - “El Rito Francês Moderno” – Guillermo Fuchslocher,
10) -  “La Pensée Maçonnique –Une Sagesse pour l´Occident” – Jean Mourges – Éditions P.U.F.- 1998
11) – “La Franc-Maçonnerie en Question & en 250 Réponses” – Guy Chassagnard - Éditions Dervy-2001


Sem comentários:

Enviar um comentário