Autor: Iván Herrera Michel
Stationers´Hall de Londres
Após a recente publicação de um artigo sobre a taberna de Charleston onde foi fundado o primeiro Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceite, coincidindo com o 225º aniversário da sua fundação, fui convidado a recriar outro acontecimento crucial da história maçónica: o banquete realizado a 24 de junho de 1721, no "Stationers’ Hall", em Londres. A sugestão pareceu-me excelente, pois este foi o local do primeiro evento maçónico que pode ser verdadeiramente reconstruído com provas sólidas.
O primeiro ponto a recordar é que a criação de uma Grande Loja de Londres em 1717 baseia-se num relato incorporado por James Anderson na edição de 1738 das suas Constituições, o qual não pôde ser corroborado por outras fontes históricas, nem foi possível comprovar uma única reunião da loja entre 1717 e 1721. E, para complicar ainda mais o relato, a existência de uma taverna chamada "The Goose and the Grill" naquela cidade em 1717, também não foi confirmada.
Embora nenhuma fonte contemporânea registe a programação dos acontecimentos desse dia, com base nos testemunhos de Anderson e Desaguliers, nos costumes cerimoniais ingleses do início do século XVIII e no tempo razoavelmente necessário para cada atividade, é possível propor uma reconstituição do seu desenvolvimento.Por volta das 10h30, a procissão iniciou a sua viagem em direção ao “Stationers' Hall”, com chegada pouco antes das 11h00. Nos quarenta e cinco minutos seguintes, os restantes participantes juntaram-se a ela, totalizando aproximadamente trezentos maçons — uma participação verdadeiramente excepcional para a Inglaterra do início do século XVIII. Como o percurso tinha pouco mais de trezentos metros, a procissão poderia facilmente ter sido concluída em cerca de quinze minutos, tempo suficiente para conferir solenidade ao evento sem interromper o programa previsto.
A escolha da Taberna “King’s Arms” e a subsequente mudança para o “Stationers’ Hall” dificilmente podem ser encaradas com leviandade. O “King’s Arms” era uma das mais prestigiadas tabernas perto da Catedral de São Paulo, situada no coração político e comercial da City de Londres, e servia como local habitual para banquetes, reuniões corporativas, sociedades científicas e associações que não possuíam sede própria. Foi aí que o trabalho preliminar da Grande Loja pôde ser discretamente realizado. Quando chegou a altura de conferir solenidade pública à investidura do Duque de Montagu, o pequeno cortejo dirigiu-se para o vizinho “Stationers’ Hall”, um dos mais prestigiados edifícios corporativos da cidade. Esta breve viagem representou a transição de uma sociabilidade informal, típica de taberna, para uma corporação unificada e publicamente reconhecida em Londres.
A historiografia crítica das últimas décadas veio esclarecer ainda mais o significado desta data. Investigadores como Andrew Prescott e Susan Sommers, seguindo a linha de investigação promovida pela Loja de Investigação “Quatuor Coronati nº 2076”, sustentam que o verdadeiro significado do dia 24 de Junho de 1721 reside no facto de ter representado a transferência efectiva de autoridade das antigas Lojas autónomas para uma nova Grande Loja que passou a exercer oficialmente a autoridade reconhecida pelas Lojas que haviam decidido federar-se. Esta nova estrutura institucional reflectiu-se também na composição social daqueles que participaram no evento.
Enquanto a reunião organizada por Anderson na taberna “Goose and the Grill”, a 24 de Junho de 1717, teria reunido apenas os Mestres e os Vigilantes de quatro Lojas — provavelmente pouco mais de vinte homens pertencentes sobretudo ao mundo dos artesãos qualificados, dos pequenos comerciantes e de alguns cavalheiros —, a reunião no Stationers’ Hall reuniu cerca de trezentos maçons provenientes de um espectro social muito mais vasto. Entre eles, comerciantes, profissionais liberais, cientistas, clérigos, funcionários públicos, membros de guildas e até alguns dos maiores aristocratas do reino, como o Segundo Duque de Montagu, que foi empossado como Grão-Mestre nesse dia, e o Primeiro Duque de Wharton, que seria eleito Grão-Mestre no ano seguinte. Assim, tanto o número de participantes como a sua diversidade social e económica demonstram uma organização capaz de atrair amplos sectores da elite intelectual de Inglaterra.
Esta matriz social também ajuda a compreender porque é que um aristocrata da estatura de John Montagu aceitou liderar a organização. A Grande Loja de 1721 era muito diferente do pequeno grupo de Lojas que Anderson localizou na taberna "Goose and Grill". Compreender isto é essencial para interpretar o significado político e simbólico da aceitação do cargo de Grão-Mestre pelo segundo Duque de Montagu.
Nenhuma fonte contemporânea explica explicitamente os motivos da sua decisão. No entanto, o contexto político e social da Inglaterra durante o reinado de Jorge I permite uma interpretação plausível. A Maçonaria londrina estava a deixar de ser uma modesta pluralidade de Lojas e a tornar-se um espaço unificado de sociabilidade frequentado por nobres, membros do Parlamento, cientistas, clérigos, comerciantes e profissionais. Para um aristocrata Whig intimamente ligado à Corte e aos círculos iluministas, aceitar o cargo de Grão-Mestre poderia significar endossar uma organização que promovia a concórdia civil, a lealdade à nova ordem hanoveriana e uma forma de sociabilidade totalmente compatível com os ideais do Iluminismo britânico. Nesta perspectiva, a presença de Montagu proporcionou à Grande Loja a validação pública necessária para se consolidar como uma instituição reconhecida na sociedade londrina.
Anderson relata que os Grandes Vigilantes foram inicialmente encarregados de preparar o banquete no “Stationers’ Hall” e de garantir um número suficiente de oficiais (“Stewards”) — ou seja, oficiais responsáveis pela logística e pelo serviço. Como não conseguiram reunir todos os necessários, Josiah Villeneau, um comerciante de Southwark, assumiu a organização de toda a celebração, com a ajuda de Thomas Morrice e Francis Bailey. É bem provável que nesse dia tenha também começado a inevitável tradição maçónica do Irmão que nunca organiza nada, mas que, uma vez terminado o banquete, sabe com toda a certeza como tudo deveria ter sido feito.
É aqui necessário um esclarecimento, pois a iconografia maçónica contemporânea é frequentemente enganadora. Quando Anderson afirma que os Irmãos marcharam no seu percurso “vestidos com as suas insígnias”, não devemos imaginar um desfile semelhante às procissões públicas que vemos hoje em alguns países. Uma reconstrução historicamente rigorosa exige que se descarte grande parte da estética que a Maçonaria incorporou durante os séculos XIX e XX. Aqueles trezentos Irmãos não usavam elaborados aventais bordados, nem ostentavam colares luxuosos, faixas ao peito, jóias exuberantes, chapéus maçónicos ou fez, ou as espadas vistosas que agora fazem parte das práticas cerimoniais de inúmeras Grandes Lojas. Também não há evidências de que usassem luvas brancas. Tudo isto pertence a uma evolução posterior do traje maçónico.
Pouco antes do meio-dia, o grande salão do “Stationers' Hall” devia brilhar verdadeiramente impressionante. Longas mesas cobertas com toalhas brancas preenchiam todo o salão principal, enquanto centenas de velas iluminavam os painéis de madeira, os vitrais e os estandartes heráldicos, aguardando o início do banquete. É muito provável que por volta do meio-dia tenha sido proferida a tradicional bênção cristã de acção de graças, de acordo com o costume nos grandes banquetes públicos da Inglaterra daquela época.
Embora o menu diário não tenha sido preservado, as refeições servidas no "Stationers’ Hall" durante esses anos permitem reconstituir, com razoável certeza, que elas deviam incluir grandes cortes de rosbife, carneiro e presunto, capões, frangos, tortas de carne, peixe, pão de trigo em abundância, manteiga, queijos e legumes da época. Para sobremesa, havia tartes de fruta e pudins ingleses feitos com frutos secos, especiarias e gordura, muito apreciados nos grandes banquetes da época. Para beber, havia cerveja ale e porter, vinhos da Madeira, claretes franceses e talvez algum xerez espanhol, muito apreciado pelas classes altas de Londres. Depois, vinham os tradicionais brindes acompanhados de ponche feito com rum ou conhaque, açúcar e limão. Anderson observa expressamente que toda a parte cerimonial começou apenas após o banquete, o que nos permite reconstituir o resto do dia com razoável certeza.
O almoço deverá ter terminado entre as 14H00 e as 14H30. Logo de seguida, George Payne apresentou oficialmente John Montagu, que foi proclamado e investido como Grão-Mestre e nomeou os seus Grandes Oficiais. Entre as 15h15 e as 15h45, John Theophilus Desaguliers proferiu um discurso delineando os princípios, a natureza e as aspirações da nova forma unificada de Maçonaria que mais tarde ficaria conhecida como "Moderna". Tudo indica que a reunião terminou entre as 16H00 e as 16H30, ainda sob a luz intensa do verão londrino. E certamente alguns dos trezentos maçons permaneceram, conversando e especulando sobre quem seria o próximo Grão-Mestre.
Iván Herrera Michel
(27 de julho de 2026 e:.v:.)
(selecionado e traduzido livremente por Salvador Allen:. M:.M:./ «Comp&Esq», a partir do Blog «Pido la Palabra» de Iván Herrera Michel - dedicado al cultivo de la tolerancia y el respeto a la diferencia,,de 27/7/2026, agradecendo, com a devida vénia, ao Blog «Compasso&Esquadro» a autorização e colaboração nesta publicação)


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