Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

6 de julho de 2026

Porquê a Maçonaria no século XXI?





Porquê a Maçonaria no século XXI?

Mais um excelente trabalho que recuperámos do arquivo sempre oportuno do nosso baú e que colocamos à apreciação dos nossos leitores, quase 16 anos após o original, mantendo contudo completa actualidade.

Autor: Yzaguirre,  Fernando Garcia

 

A Maçonaria é um caminho possível para alcançar a felicidade pessoal, desde que reconhecamos que  para percorrê-lo  temos de trabalhar fiéis à nossa vocação universal e procurar a felicidade de toda a humanidade Porque potencia a sociabilidade humana

Como expôs o filósofo e maçon  K. Christian F. Krause,  no início do século XIX,  o impulso básico dos seres humanos  - mulheres e homens  – é o da sociabilidade, e a Ordem Maçónica é uma associação ideal dedicada ao desenvolvimento dessa sociabilidade como uma expressão de nossa humanidade plena e pura.

A nossa tradição compromete-nos a dar apoio a qualquer irmão ou irmã que se encontre em situação de necessidade mas, além deste compromisso, o que a Loja nos popôe  é uma microsociedade com um funcionamento ordenado, em que cada membro assume um papel rotativo para interpretar uma e outra vez a nossa essência social. Esta micro-sociedade  dá-nos  a oportunidade de compartilhar múltiplas 

experiências, como a de pertencer  a um projecto autêntico e humanizante, em que se estabelecem os elementos necessários para o animal social que é o homem,  tenha  a oportunidade de reconhecer-se  e de se reconciliar  com a sua pura humanidade .

A Loja  é um encontro com outras pessoas que facilita e orienta o encontro consigo mesmo, através dos complexos mecanismos de identificação com os outros, o reflexo nos outros, o jogo de percepções com os outros, a dissecação do «eu».... e, acima de tudo,  a  Loja  é um espaço humano que recria o ambiente socio-natural  óptimo de um ser evoluido: uma comunidade de mulheres e homens,  ordeira,  democrática,  procurando juntos a interpretação da existência.  

Porque  nos prepara para a vida social e cívica de hoje.  A nossa vida social é tremendamente variável.  A actual crise económica, que não é mais do que  uma amostra material da crise de valores que impera, acelera ainda mais a natureza mutável do nosso modo de vida.  Portanto, a natureza aberta e flexível do método, a sua abertura à incerteza,  prepara-nos  para enfrentar melhor as mudanças que caracterizam o nosso tempo. Mas a Maçonaria não é um método dirigido à acção social directa, mas um método com  vocação formativa que, aplicado em conjunto, é dirigido ao interior do indivíduo e provoca, isso sim, um novo entendimento de si mesmo face aos outros e, portanto, permite-lhe perceber com todo o sentido a realidade, e com ela  encontrar um propósito e uma vontade renovados  de agir em sociedade, de um eu mais esclarecido.

Indo mais longe, a Maçonaria pode chegar a ser, se os seus membros se dispuserem sériamente a tal, um actor educativo da sociedade, com ênfase especial em duas áreas: o homem  na  sua humanidade pura e completa, e a de uma ética metodológica  e hermenêutica. Esta é,  na minha opinião,  onde valeria a pena  concentrar os esforços de validade e inovação da nossa tradição face aos nossos  concidadãos;  devemos assumir o desafio,  compreender a nossa responsabilidade perante a sociedade, e pormo-nos em marcha sem demorar  um segundo mais. As Lojas , como antes, para agir como verdadeiros Templos de Transformação, onde as mulheres e os homens  se preparem para responder às mudanças exigidas pelo mundo.

Maçonaria, como sabemos, não  é um clube, um partido político, um ateneu  cultural ou uma aula de filosofia, embora não inteiramente alheia a alguns objectivos depurados de todos esses contextos sociais.  A Maçonaria é bem mais uma escola interactiva de melhoria pessoal;  uma oficina onde se experimenta com plenitude e se exercitam os  valores de uma sociabilidade verdadeira, humanista e cívica;  uma comunidade iniciática que permite a vivência prática e filosófica do espaço de encontro e  intercâmbio na companhia de outros, cuja experiência  permite a cada um,  renovar a nossa presença e visão do mundo exterior e intervir nele. É neste sentido que a Loja também funciona como uma escola para a formação de cidadãos, recriando um micromundo de práticas e normas de reconhecimento mútuo, que facilitam  a incorporação de elementos de engajamento e participação democrática na vida da comunidade que caracterizam o cidadão moderno , herdeiro do habitante da cidade que no mito de Prometeu (Platão, Protágoras) é questionado  por Zeus para se comprometer  éticamente,  se  pretender  fazer  parte da cidade,  espaço que representa o expoente máximo da convivência humana.

A Maçonaria, portanto, não só leva a cabo um trabalho de introspecção, mas também nos  prepara para as mudanças que ocorrem continuamente na  nossa sociedade complexa, tanto pela especial  abertura que provoca nas consciências,  como pelo trabalho especial realizado a coberto que, não  esqueçamos, favorece a germinação de novas idéias.

Porque se aplica de forma prática, um método de iniciação intemporal  A Maçonaria é muito mais do que um projeto colectivo em torno de alguns valores e idéias, porque se baseia  num método tradicional muito poderoso,  razão da sua continuidade ao longo de três séculos. O método que  desenvolve a Maçonaria  inclui uma dimensão iniciática que herda de diferentes escolas de pensamento e mistérios, que se conservam em paralelo com a ilustração.  Esta dimensão permite ao indivíduo ir além dos limites da convenção e do dogmatismo  e auto-transcender-se, sem deixar de reafirmar a sua condição plena como ser humano,  fortalecendo-o para enfrentar o sentido da  vida neste mundo.

A Maçonaria é um método iniciático de auto-conhecimento e uma oficina de aperfeiçoamento moral, que age sobre o sujeito  em  coligação com outros sujeitos,  servindo-se dos ritos e do  simbolismo como ferramentas indispensáveis, e dirigido a  implantar em cada um a sua mais pura humanidade. A Loja oferece o ambiente adequado para levar a cabo as pesquisas que não podemos efectuar fora,  a  descoberto.  Este ambiente funciona como um microcosmo composto por uma linguagem própria, uma indumentária  única, símbolos e uma decoração particular, forma peculiar e ordenada de ocupar o espaço,  movimentar-se  e falar nele, etc.  Este conjunto  define a atmosfera adequada para o reconhecimento como uma pessoa completa e reconhecer os outros como pessoas completas, e participar da experiência de ser um entre iguais.  

Porque incorpora o ritual e os símbolos como ferramentas do homem actual  A Maçonaria tem sua própria tradição, a sua singularíssima tradição, nascida da ilustração e alimentada por um conjunto de tradições que a antecederam, que ao longo do tempo têm vindo a ser decantadas nos rituais e símbolos que herdamos e que são elementos específicos do método maçónico. Graças aos rituais e símbolos , a Loja cria uma atmosfera especial,  provoca uma atitude particular, convocam-se os sentidos e os pensamentos de um  modo diferente do que é habitual:  a inteligência emocional, o anímico e o afectivo, o inconsciente, o espírito, de consciência e a razão, estão interligados e são estimulados conjuntamente em cenas não-convencionais,  desenvolvendo-se então novas oportunidades para uma maior compreensão emocional e racional do Homem actual  e da sua realidade complexa,  a partir duma perspectiva holística.

O ritual e o simbolismo coadjuvam  a busca de sentido, o o sentido, como diz o Filósofo Andres Ortiz Osés, é  uma sutura  simbólica, uma tentativa de reconciliação dos opostos. Tudo é interpretação, e a Maçonaria, o seu método, com a experiência que provoca em nós, com as suas ferramentas, capacita-nos para  interpretar,  para mergulhar nos interstícios e sombras,  nas sinuosidades, emancipar-nos da paralisia que provoca a incerteza no homem, dando alívio à ruptura radical que representa a extinção física, fornecendo-nos uma luz intermitente para ajudar a seguir o caminho claro-escuro da senda da existência,  sem necessidade de nos agarrarmos  a poderosas certezas – como aquela que coloca a terra no centro do universo -  e trabalhar para um mundo humano pleno de sentido,  ao invés dum mundo quimérico baseado em verdades absolutas. 

O caminho que segue o Maçon no meio da paisagem exuberante e suscitadora  que constituem o ritual e o simbolismo, converte-se num caminho de busca de significado, de interpretação deste mundo com o bom e o mau que ele possui, de encontro consigo  mesmo, com os outros e com a existência tal qual é. Esta busca constante de sentido, é uma das alavancas mais poderosas do método maçónico que permite a  união dinâmica,  o encontro – dos Homens, ou seja dos intérpretes; a união das diferenças. Por isso dizemos que a Maçonaria é o Centro da União.

Porque cultiva a tolerância, a mediação e o encontro, e facilita a convivência plural numa sociedade tão complexa como a nossa, em que o homem é submetido a todos os tipos de disciplinas e restrições sociais, laborais, políticas, de mercado e afectivas para se integar e tentar sobreviver e,  por outro lado tendo muitas destas  disciplinas um marcado carácter  expropriador e separador dos demais,  é necessário, é imperativo,  é urgente, cultivar a tolerância, a mediação  e o encontro, porque não podemos prescindir do outro, por muito diferente que seja de nós, e não podemos impor-nos ao  outro.  Ao considerar uma única humanidade, ou estamos de acordo e  salvamo-nos todos, ou renegamos a nossa humanidade e aqui  não se salvará nada. Com a tolerância, reconhecemos um único « nós»;  através da mediação, conseguimos gerir as inevitáveis diferenças e conflitos que ocorrem no seio desse «nós»;  com a reunião, suturam-se as feridas do confronto das diferenças. No ideológico (no sentido mais amplo:  pensamento, religião, política ...),  a Maçonaria propõe um exercício de tolerância que permite diferenciar duas categorias principais:  de um lado,  a criação dum espaço onde qualquer  ideologia defendida por  meios lícitos tem um lugar garantido; do outro lado, a plena liberdade de escolha e de consciência para abraçar aquela  ideologia com a qual nos sentimos identificados.

Porque a tolerância não equipara as ideologias como se tivessem  igual valor, como não equipara  todas as religiões, mas sómente se compromete com a sua  livre expressão e convivência dentro da ordem estabelecida, respeitando que possam ocupar um lugar no espaço público, mas deixa ao livre arbítrio os indivíduos em participar e juntar-se a um ou outra, dando-lhes,  em função do apoio democrático que recebam, o reconhecimento de uma maior ou menor presença na sociedade. 
A prática da tolerância  faz-nos  defensores activos do espaço público como um espaço de convivência como um espaço  ideologicamente neutro, em que se situam as  marcas que nos distinguem,  para dar prioridade aquelas que nos fazem iguais perante o projecto de convivência comum, especialmente o método , o procedimento, o esquema, o comportamento  ético, que permite  essa convivência na diferença.
 
Em plena sintonia  com a tolerância,   outro grande valor identitário da Maçonaria,  que hoje só foi desenvolvido em parte, é a universalidade e o ideal de uma humanidade unida, como  expôs  Krause ao lançar o projecto da «Aliança da Humanidade». A primeira ideologia para a Maçonaria é, portanto, metodológica: exercício activo, consciente e comprometido com o jogo democrático para a confrontação civilizada das diferentes  ideologias que se reúnem no espaço de vivência comum, à luz da tolerância e da universalidade.  

Porque promove o desenvolvimento pessoal e a felicidade da humanidade  O nosso método tem uma grande capacidade de agir em cada um de nós, em diferentes níveis, dependendo da pessoa;  aflorando em cada indivíduo a sua humanidade nua para  nos conhecermos melhor e tomar posse de nós mesmos, aplicando uma higiene à nossa personalidade e aos nossos pensamentos, o que nos permite investigar em nós mesmos , assim como adquirir compromissos renovados  de aperfeiçoamento pessoal , preparando-nos melhor para estar no mundo e para sair do mundo. Em reconhecimento das diferenças, no manejo duma realidade obscura e luminosa como é a humana, na gestão construtiva da microfísica do poder apresentada por Michel Foucault, no desenvolvimento e implementação de regras de jogo democráticas para conter  os excessos do egoísmo humano, em busca de melhores condições para que o amor entre os homens triunfe , aí  encontrará o Maçon alguns dos maiores desafios para o desenvolvimento pessoal. 

A Maçonaria é um caminho possível para alcançar a felicidade pessoal, desde que reconheçamos que para tal temos de trabalhar, fiéis à nossa vocação universal e de procura da felicidade de toda a Humanidade.  

          Yzaguirre,  Fernando Garcia Simbólico. •. Krause 

          Mestre Delegado ExGran G. •. L. •. S. •. • E.. MM. •. • R.. L. •. Arte Real n º 44 Agosto, 2011 
            (traduzido do artigo de "Él Mason Aprendiz" por  Salvador Allen.´. M:.M:. /Blog «Comp&Esq»)

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