O Cisma como sintoma na Maçonaria: o colapso demográfico da Ordem
Resumo do artigo apresentado no Colóquio Anual do CLIPSAS, realizado na Grande Loja de Sófia, Bulgária, no dia 14 de maio de 2026.
Por: Iván Herrera Michel
Minhas Irmãs, Meus Irmãos,
Quando o CLIPSAS nos convidou, na Assembleia Geral do ano passado em Bucareste, para reflectirmos sobre ideias para um mundo mais fraterno e sobre o papel dos maçons na construção da paz, entendi que aqueles que propunham este tema acreditavam que a Maçonaria ainda possui a capacidade real de promover a coexistência.
Tenho observado a Maçonaria há várias décadas, em diversos países, estabelecida em várias culturas, e a ser vítima de todo o tipo de cismas, e, pessoalmente, não acredito que possamos ser agentes da paz externamente quando a fraternidade não pode ser sustentada internamente, numa Ordem que prega a harmonia universal enquanto vive em conflitos permanentes entre os seus membros e enquanto a cultura da negação impede a autocrítica.
Os números não permitem interpretações místicas, esotéricas ou egocêntricas. A nossa Maçonaria está a evaporar-se diante dos nossos olhos e nas nossas mãos. Falo não do conforto da teoria académica, mas da autoridade que me foi conferida por ter presidido a organizações multilaterais e plataformas de governação com presença em diversos continentes.
Não quero negar que o declínio do número de membros da Maçonaria possa ser influenciado por variáveis sociais, como a secularização das sociedades, o envelhecimento das gerações que outrora compunham as nossas Lojas e a transformação da forma como as pessoas se relacionam no mundo contemporâneo. De facto, esta crise não é exclusiva da Maçonaria; faz parte do enfraquecimento geral, no século XXI, das instituições que estruturam a vida social e canalizam os interesses coletivos, sobrepujadas por formas mais fluidas, digitais e imediatas de construção de comunidade. Mas, mesmo considerando estes factores externos, é impossível ignorar que os nossos conflitos internos exacerbam um fenómeno que já nos deveria preocupar.
Se convertermos estes grandes declínios no número de membros numa taxa anual, o resultado é alarmante. Em vários dos principais centros históricos da Maçonaria Ocidental, a Ordem tem vindo a perder aproximadamente 2,6% dos seus membros por ano, desde há cerca de seis décadas. Esta pode parecer uma diminuição moderada quando analisada num único ano, mas, cumulativamente ao longo do tempo, equivale à perda de quase quatro quintos da base humana da instituição.
Não estamos a enfrentar acidentes ao longo do caminho, mas sim uma espiral descendente. Algo semelhante às alterações climáticas está a acontecer com a nossa Ordem. É uma catástrofe que avança implacavelmente enquanto permanecemos presos às formalidades bizantinas. Refugiamo-nos numa cultura de negação, negando o vazio dos Templos rotulando-o de selectividade, negando a injustiça das nossas exclusões e negando que o relógio do mundo está a correr a uma velocidade que nos ultrapassa
Deambulamos pelo mundo como o imperador nu do conto de Andersen. Passeamos solenemente, adornados com pesados colarinhos, aventais bordados e títulos ostentosos, convencidos de que vestimos os mais finos tecidos da sabedoria e da tradição.
Enquanto o mundo lá fora segue em frente, nós desgastamo-nos com cismas internos que levaram a uma fragmentação irreversível. Tornamo-nos uma sopa de siglas, fruto de uma patologia de poder onde cada grupo se proclama detentor da "verdadeira tradição", enquanto a estrutura geral se desintegra por falta de maçons.
A solução não virá de dinâmicas hegemónicas nem da pretensão de que uma única tradição, cultura ou Obediência possa assumir o papel de centro exclusivo da Maçonaria universal. Em vez disso, a possibilidade de progresso reside em permitir que as Obediências que não se sentem representadas por estas forças hegemónicas se possam encontrar, falem francamente e construam formas genuínas de cooperação. Isto implica, entre outras coisas, a existência de espaços permanentes para o diálogo aberto sobre indicadores que nos permitam avaliar se estamos ou não a travar a deterioração da nossa base humana.
A boa notícia para nós é que o CLIPSAS constitui hoje em dia uma estrutura global capaz de oferecer um ponto de encontro baseado no respeito mútuo, na liberdade de consciência e na igualdade entre as Obediências. É um espaço onde a Maçonaria pode fazer algo que sempre esteve na sua essência: reunir diferentes tradições à volta da mesma mesa para que se ouçam mutuamente.
Aquilo a que alguns chamam preservação da tradição para que nada se mova, a sociologia descreve como obsolescência funcional. Esta Maçonaria superficial, obcecada por títulos, mitos, dogmas e símbolos de poder, corre o risco de garantir que nada muda enquanto a sociedade evolui sem nós. E aqueles que impedem qualquer progresso humanitário em nome de "Antigos Deveres", interpretados como se fossem tábuas da lei recebidas no Monte Sinai, não se apercebem de que esta Ordem de pensamento caminha firmemente para o seu fim.
Meus queridos Irmãos e Irmãs,
Chegou a hora de desmantelarmos as nossas divisões antes que elas destruam a nossa Maçonaria. Se hoje, nós, reunidos nesta sala de conferências, aqui e agora em Sófia, durante o intervalo para café, não estendermos a mão a um Irmão ou Irmã com quem tenhamos divergências, este Colóquio, as suas palestras e as suas boas intenções terão sido em vão.
Porque, no final de contas, a paz depende do que cada Maçon estiver pessoalmente disposto a fazer.
Muito obrigado a todos. Que a paz esteja convosco.
Iván Herrera Michel
Sofía, Bulgária / 14 de Maio de 2026
(selecionado e traduzido do Blog «"PIDO LA PALABRA” - Blog de Iván Herrera Michel dedicado al cultivo de la tolerancia y el respeto a la diferencia», por Salvador Allen:. M:.M:. / Blog «Compasso & Esquadro», a quem agradecemos a colaboração)


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