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(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

27 de maio de 2026

Mais de dois séculos do Rito Escocês Antigo e Aceito: que origens ?

 



Mais de dois séculos do Rito Escocês Antigo e Aceito: que origens ?



Segundo a historiografia oficial, o Rito Escocês Antigo e Aceito nasceu no território dos  Estados Unidos da América (EUA) em 1801, em Charleston, Carolina do Sul.

Nos últimos anos, diversos investigadores maçónicos têm procurado esclarecer os aspectos elementares desta importante matéria, dando a conhecer novos dados documentais que vêm preencher amplas lacunas.

O Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) nasceu nos EUA? 

Foi alvo de uma reorganização nos EUA com o acréscimo de 8 graus? 

Ou as suas fontes efectivas estão em França?

Nesse sentido, torna-se útil efectuar um conjunto de referências que possam ser objecto  de uma posterior reflexão sobre as reais origens do rito mais divulgado e praticado em todo o mundo.

Segundo Albert Mackey, no seu livro sobre a “História da Franco-Maçonaria”, “ o Cavaleiro de Bonneville estabeleceu um capítulo de 25 graus, dos chamados altos graus, no Colégio dos Jesuítas de Clermont, em Paris, em 1754. Os membros e partidários da Casa dos Stuarts fizeram do colégio de Clermont o seu asilo. Eles eram na maior parte escoceses. 

Um destes 25 graus era o de “Mestre Escocês” e a nova instituição organizada em Charleston, Carolina do Sul, em 1801, deu o nome de rito escocês a estes graus, nome que caracterizou este rito no mundo inteiro. O nome anterior era “ rito da perfeição” ou “rito antigo e aceito” 

Guy Chassagnard considera que o termo escocês tornou-se sinónimo de altos graus que,  aparecidos em França cerca de 1740, não têm nada de escoceses no sentido geográfico do termo, embora, na realidade, ninguém pode contestar que eles provêm do meio dos  stuartistas maioritariamente, mas não exclusivamente, escoceses, refugiados no final do século XVII em Saint-Germain-en-Laye.

A própria criação e posterior implementação dos chamados altos graus desencadearam grandes polémicas no seio da maçonaria francesa.

Foram feitas múltiplas acusações à criação dos altos graus, nomeadamente como manifestação de vaidades dos maçons aristocráticos ou até uma forma de impor a própria aristocratização da maçonaria.

Para Paul Naudon a situação era muito mais objectiva e fácil de analisar, ou seja, a primeira das causas da criação e do desenvolvimento dos altos graus era o desejo de restituir à Maçonaria o que ela havia perdido da tradição.

A análise da situação que se vivia, então, em França, não só no seio da Maçonaria como na própria sociedade é fundamental para compreender múltiplos aspectos envolvidos neste complexo processo.

José Castellani escreveu que “… seria uma heresia histórica afirmar que o REAA não tem origem francesa, mas sim, norte-americana ou inglesa. Mais do que isso, seria ficar na contramão do mundo”.

Em 3 de Julho de 1740, foi criada em Bordéus a Loja “ Francesa Eleita Escocesa e Amizade”.

A Loja “Antiga Escócia” foi fundada em Toulouse a 5 de Julho de 1745 e no mesmo ano e na mesma cidade foi fundada a “ Loja S. João da Escócia”.

Em 29 de Setembro de 1745 foi fundada em Tours a Loja “ Concórdia Escocesa”.

A Loja “ Os Escoceses Fiéis” foi fundada em 1747, em Toulouse, por um stuartista católico, o conde Barnwall de Tramlestown, mais conhecido pelo seu nome francês de Conde de Barneval.

É desta Loja que sairá um capítulo escocês designado “Velha Nora” com 9 graus.

Um escocês, George de Walmon, fundou em 27 de Agosto de 1751 uma Loja em Marselha com o título de “S. João da Escócia”, que em 1762 tomou o nome de “Loja Mãe Escocesa de Marselha”.

As várias lojas escocesas com os seus altos graus reagruparam-se sob a égide de diversas Lojas Mães Escocesas. Uma destas, a “Grande e Soberana Loja de S. João de Jerusalém” , a Oriente de Paris,  deu origem, em 1758, a um Soberano Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente, que irá desempenhar mais tarde um papel decisivo na criação e estruturação do REAA.

Estes são alguns exemplos de uma situação indiscutível: a proliferação por vários locais da França de lojas escocesas e do consequente amadurecimento dos altos graus maçónicos.

Na base da criação dos altos graus está o Rito da Perfeição ou de Heredom que passou por diversas etapas de desenvolvimento, tendo sucessivamente 7, 10, 14 e 25graus.

A redescoberta das coisas perdidas permite, então, reconstituir os segredos maçónicos: é o sentido da palavra Perfeição.

Durante largo tempo os graus escoceses foram-se desenvolvendo de forma desordenada e sem nenhuma entidade reguladora ou federadora. A existência do Rito da Perfeição, enquanto rito organizado com os seus rituais e  instâncias dirigentes, está largamente provada e assenta em factos historicamente documentados.

Na origem deste rito está inicialmente um homem: Étienne Morin. Mais tarde, já nas Antilhas, junta-se-lhe um outro homem chamado Henry Andrew Francken. Os dois consagraram as suas vidas inteiramente à Maçonaria e foram quase ignorados ao longo dos séculos XIX e XX.

Um dos méritos que lhes é reconhecido foi de terem ordenado um conjunto de graus e de, a partir daí, terem constituído um rito, ou seja, uma sequência coerente de rituais colocados em prática no seio de um conjunto hierarquizado de oficinas, dotados de regulamentos, permitindo o seu funcionamento harmonioso e dirigido por deputados-inspectores.

Não existe nenhum documento conclusivo que ateste a data e o local do nascimento de Morin, sabendo-se que era um comerciante de vinhos e porcelanas. Foi um dos fundadores dos Eleitos Perfeitos de Bordéus, considerada a primeira potência escocesa, que foi criada nos primeiros meses de 1745.

Ainda antes de 1750, Morin participou na criação da Loja Escocesa de S. João de Jerusalém, a oriente de Cap-Français (S. Domingos), tendo participado também na constituição da Loja Perfeita Harmonia, a Oriente de Abbeville, assinando como “Grão Mestre Escocês”.

A partir de 1750, Morin iniciou um processo de afastamento dos Eleitos Perfeitos para se aproximar da Loja de S. João de Jerusalém, em Paris, que era a loja do Conde de Clermont. A ruptura com os Eleitos Perfeitos consumou-se no final de 1752, quando estes decidiram nomear Lamolére de Feuillard como seu único mandatário em S. Domingos e recusaram aos irmãos de Port-de-Paix as constituições escocesas pedidas com o apoio  de Morin.

Em 1760, Morin voltou a França devido aos seus negócios, mas também para obter da Loja de S. João de Jerusalém e do Grande Conselho dos Graus Iminentes, dirigido por Chaillon de Jonville, a legitimidade maçónica que Bordéus lhe tinha recusado.

A 27 de Agosto de 1761 estas duas entidades entregaram a Morin a Patente solicitada. A entrega foi efectuada em Paris pelo Conde de Clermont, Louis de Bourbon, num acto  que decorreu no Grande Conselho dos Grandes Cavaleiros Kadosh, que era o círculo dirigente da Grande Loja dos Mestres de Paris.

Antes de ter recebido a sua célebre Patente, Morin estava na posse dos Antigos Mestrados de Bordéus e Paris, assim como de um conjunto de graus exteriores como,  por exemplo, o Cavaleiro do Sol e o Cavaleiro do Oriente, como prova a carta que  enviou a 24 de Junho de 1757 aos Eleitos Perfeitos de Bordéus.

Quanto a Henry Francken, nasceu por volta de 1720 na Holanda e emigrou para as Antilhas em 1757, tendo-se naturalizado britânico no ano seguinte. Era advogado e desempenhou alguns cargos de judiciais de pequena relevância, tendo  morrido na miséria, tal como Morin. Não se sabe quando e onde foi iniciado.

Quando Morin se refugiou, em 1765, em Kingston, iniciou com a decisiva ajuda de Francken, bem como de outros maçons, aquilo que designou como Maçonaria Renovada, constituindo a 30 de Abril de 1770 um Grande Capítulo. 

Já depois da morte de Morin, Francken dotou os deputados-inspectores de uma recolha de textos escritos por si. É aquilo que hoje é conhecido por “Manuscritos de Francken”.

Estes manuscritos basearam-se em claras e indiscutíveis fontes francesas. Eles estabelecem um conjunto de graus que todos os arquivos mostram terem sido desenvolvidos em França antes de serem exportados para a maçonaria americana, via Antilhas, por Morin e Francken.

O documento que atesta este importante facto apresenta fortes analogias com os  Manuscritos e está arquivado nos Fundos Maçónicos da Biblioteca Nacional francesa sob a cota “Bayot FM 15”.

Uma nota introdutória ao ritual do grau Cavaleiro do Sol permite datá-lo de 1764.

Nesse documento estão referidos graus ausentes nos Manuscritos com “Patriarca das Cruzadas” e o “Cavaleiro do Leão”. 

Em 1766, Francken deslocou-se a Nova Iorque e em 20 de Dezembro de 1767 constituiu a Loja Inefável de Albany e criou, a seguir, o Conselho dos Princípes de Jerusalém que, por sua vez, criou a Loja de Perfeição de Saratoga.

Tratou-se de uma iniciativa decisiva para a expansão do rito no território norte-americano.

No final do século XVIII, quatro das cinco Lojas da Perfeição fundadas nos EUA estavam praticamente adormecidas. A única que se encontrava activa era a de Charleston.

Em 24 de Maio de 1801, uma patente redigida em inglês e assinada por John Mitchell nomeou o médico Frédéric Dalcho, Kadosh, Princípe do Real Segredo e Deputado Inspector-Geral.

Esta patente era igualmente assinada por, entre outros, Delahogue, Grasse-Tilly, Abraham Alexander, Isaac Auld e Israel Delieben. Em 31 de Maio de 1801, um manifesto anunciou publicamente a inauguração do Supremo Conselho do Grau 33 para os Estados Unidos da América.

Regressando aos aspectos da situação então existente na França, o desenvolvimento do escocismo e dos seus altos graus não é indiferente à grave crise que acaba por atravessar toda a estrutura maçónica e que culmina com em 1766 com a cisão na Grande Loja de França.

A disputa do poder entre duas facções principais dirigidas por Jacques-Antoine Lacorne e por Augustin Jean François Chaillon de Jonville teve como ponto de partida mais visível a oposição radicalizada entre os maçons da pequena burguesia e os da aristocracia devido aos privilégios do veneralato em vida.

As lojas escocesas realizavam eleições anuais para o cargo de Venerável, enquanto as restantes, nomeadamente as da região de Paris, possuíam o estatuto de veneráveis vitalícios.

De 1795 a 1800 verificou-se uma situação social extremamente difícil em toda a França, onde o Grande Oriente desenvolveu múltiplos esforços para juntar o que sobreviveu ao choque revolucionário e de reconstruir as estruturas de uma ordem maçónica.

Em 1796 não existiam em toda a França mais de 18 lojas em actividade.

Em 1802, realizou-se uma assembleia-geral de maçons “escoceses”, em Paris, que encarregou o maçon Firmin Abraham de dirigir uma circular a todas as lojas escocesas, convidando-as a juntarem-se e a defenderem o “ rito escocês”. Este maçon pertencia à Loja “Os Alunos de Minerva”.

Em 1804, Alexadre Grasse-Tilly regressou a França, o mesmo tendo feito uns meses antes outro importante maçon implicado no desenvolvimento do Rito da Perfeição no continente americano, Germain Hacquet.

Os 33 graus eram, naturalmente, defendidos por Grasse-Tilly, enquanto Hacquet era fiel ao antigo sistema de 25 graus. Aliás, Hacquet instalou um Conselho dos Princípes do Real Segredo em Paris no início de Abril de 1804, alguns meses antes da chegada de Grasse Tilly.

Apesar de tudo, o REAA iniciou a sua implantação em França ainda em 1804, sobretudo na região de Paris, após a chegada de Grasse-Tilly.


Conclusões:

Na sequência das referências efectuadas é possível considerar que o REAA com os seus 33 graus não nasceu propriamente nos EUA, mas resultou de uma reinterpretação e de uma estruturação em 1801, em Charleston, que aumentou o seu número de graus.

Aliás, mais recentemente surgiram novas provas documentais como a designada “Colecção Sharp” que reúne as correspondências trocadas entre os Eleitos Perfeitos de Bordéus e as suas “filhas”, as Perfeitas Lojas da Escócia, onde é possível verificar que foi em França que os autores dos rituais da generalidade dos graus do REAA se encontravam e que diversas referências documentais os designam como os “Jardineiros da Rosa”.

Os graus escoceses foram criados e desenvolvidos em França sem a existência de uma entidade reguladora ou federadora, ao contrário daquilo que em Charleston foi imediatamente efectuado, de modo a assegurar a solidez e a harmonização do rito.

Os documentos arquivados na Biblioteca Nacional francesa também demonstram claramente onde foram obtidas as fontes dos Manuscritos de Francken.

Por outro lado, existem diversos autores que consideram o REAA, em França, como uma localização inicial exclusivamente parisiense.

Os factos e as provas documentais desmentem algumas das principais premissas desse tipo de abordagem, dado que o desenvolvimento dos graus escoceses passa por um eixo Bordéus/Paris.

Os Jardineiros da Rosa são de Bordéus e a estrutura que se pode considerar como a primeira potência escocesa, os Eleitos Perfeitos, também.

As ligações entre as estruturas maçónicas “escocesas” das duas cidades são facilmente detectáveis através das deslocações de Lamolére de Feuillard a Paris, a partir do final de 1745.

Com o desaparecimento dos Eleitos Perfeitos em 1760, por razões desconhecidas e ainda sem provas documentais sobre os factos ocorridos, toda a dinâmica dos graus escoceses passa para a Maçonaria de Paris.

A conturbada situação vivida durante um largo período de anos em França, e em particular na região de Paris, quer na sociedade em geral, quer na Maçonaria em particular, não permitiram mais cedo um amadurecimento e uma estruturação hierarquizada dos graus escoceses em torno de uma entidade reguladora.

Sendo certo que continuam a existir muitos aspectos por clarificar em torno destes apaixonantes meandros, há que aguardar pelo trabalho empenhado de investigadores maçons e desenvolvermos nós próprios uma reflexão profunda na análise e raciocínio em torno dos factos concretos para podermos chegar a várias conclusões consolidadas.

 Mário Jorge Neves

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