Foi a partir do século XII mas, essencialmente, no decurso dos séculos XV e XVI que se assistiu ao despontar do “ Compagnonnage du Tour” em França. A par com a sua acção de defesa dos interesses dos operários, ele afrontou as corporações dos mestres.
Foi, então, que proliferaram as interdições do poder civil que não conseguem atingir, apesar de tudo, toda a extensão dos seus efectivos. Apesar dos regulamentos e das disposições que lhes proibiam o abandono do seu mestre sem o acordo deste e o poderem circular livremente, os operários do artesanato que pretendiam instruir-se no seu ofício e melhorar os seus salários, organizaram-se clandestinamente.
É nessa época que nasceram os primeiros companheiros pertencendo a uma sociedade conhecida pelo nome de “Dever”.
Desafiando as poderosas corporações e. por via disso, o reino da França, o "Compagnonnage" desencadeou a permanente hostilidade da Igreja Católica. Praticar certas cerimónias durante a recepção de novos membros, ter sinais e palavras de reconhecimento, a presença de um ritual, de um simbolismo, de um segredo do ofício, tudo contribuiu para suscitar uma permanente desconfiança no seio da Igreja.
No século XVIII, existiam duas categorias de companheiros: os companheiros do “Dever”, o rito de Jacques e de Soubise, essencialmente ligados à religião católica, e os que eram qualificados como “ não do Dever”, agrupando numa larga maioria os companheiros protestantes.
As diversas sociedades de companheiros adquiriram um grande poder, podendo impedir a contratação e a colocação de qualquer operário, o que constituía um grave risco para a economia de uma cidade.
Foi no início do século XV, durante as obras da Catedral de Orléans que o "Compagnonnage" permaneceu largo tempo dividido entre protestantes e católicos, surgindo frequentes lutas e querelas entre as facções, por vezes sangrentas.
Colocou-se, então, a questão de procurar analisar qual a razão porque uma elite operária que proclamava valores como a honra, a fraternidade e a fidelidade se deixou arrastar para querelas intestinas que frequentemente degeneraram em confrontos sangrentos e mortíferos.
Há que ter presente o contexto da época, em que o “Tour de France” se efectuava a pé, sendo estes companheiros homens jovens, bem constituídos fisicamente, com grande orgulho e com um carácter bem marcado, que não receavam um confronto com qualquer um que pretendesse impedir o seu caminho ou para defenderem as suas convicções religiosas ou profissionais.
As rixas eram muito numerosas, principalmente nas grandes cidades, onde surgiam confrontos entre corporações, entre “Deveres” e mesmo entre ofícios por questões fúteis de antecedentes, de vaidades e de amor próprio.
É necessário lembrar que na Idade Média os operários companheiros podiam tornar-se patrões, mas a partir do século XVI e sobretudo no século XVIII esta possibilidade deixou de existir.
No entanto, eles só desencadearam greves por questões salariais e de benefícios materiais precisos, tendo por consequência, às vezes, a interdição da sua oficina, a colocação numa lista tipo “índex” ou, até, a destruição da própria oficina.
Em 2 de Março de 1791, em plena revolução, o decreto de Allarde aboliu as corporações e em 14 de Junho desse mesmo ano a lei “Le Chapelier” reforçou essa disposição e proibiu qualquer associação profissional, assim como o direito à greve.
Após o período sangrento da revolução, as Compagnonnages reapareceram imediatamente. Apesar da lei “Le Chapelier” a sua força e a sua organização atemorizaram os mestres que levaram o governo a votar uma lei que estabeleceu a obrigação de uma espécie de registo ou carteira profissional para os operários no estabelecimento dos contratos e proibindo todas as coligações contra os mestres.
O operário independente não podia beneficiar de todas as numerosas vantagens fornecidas pelo Compagnonnage: caixa de socorro em caso de doença ou de acidente, facilidade de contratação, formação profissional onde aprendia um bom ofício e onde se aperfeiçoava nos seus conhecimentos e uma escola de vida onde aprendia a estimar-se.
Existiam ligações de fraternidade, de solidariedade e de elevação moral nos “Deveres”. A seguir ao período da revolução e com a restauração, durante o reinado de Carlos X, os movimentos operários foram interditos e o Compagnonnage regressou à clandestinidade.
Sob o reinado de Luís Filipe d’ Orléans ( 1830/1848) uma sociedade de antigos companheiros foi fundada em Albi, em 1831. Uma lei emitida em 9 de Abril de 1834 proibiu qualquer associação com mais de 20 membros.
Entretanto, surgiu uma personagem chamada Agricol Perdiguier que publicou, em 1839, uma obra com o título “ Le livre du Compagnonnage”, cujo objectivo principal foi conciliar o conjunto dos diferentes ritos dos companheiros.
Os acontecimentos que Perdiguier abordou ao longo da sua obra, as reflexões que formulou são de um companheiro desejoso de juntar os seus irmãos em torno das suas ideias reformadoras.
Em Março de 1848, com o advento da II República, um decreto limitou a jornada de trabalho a 10 horas diárias. Em Agosto do mesmo ano, outro decreto restabeleceu o direito de reunião e de associação, mas as reuniões das sociedades secretas permaneceram interditas.
Em Abril de 1843, Perdiguier participou na elaboração de uma proposta de uma “constituição companheirística”, fraternal e social. Somente 8 corporações se pronunciaram a favor da união, 7 recusaram e 20 abstiveram-se. Constituiu-se, assim, a “sociedade de deveres reunidos”.
Desde 1850, o declínio do Compagnonnage acelerou-se, dilacerado a partir do seu interior, onde, por exemplo, os aprendizes não suportavam mais os vexames e o despotismo dos mais antigos.
Ao longo da sua existência o Compagnonnage foi a única organização a tomar em consideração os interesses morais e materiais dos operários, protegendo-os dos abusos patronais, reivindicando melhores condições de trabalho e exigindo salários justos.
Para assegurar uma distribuição do trabalho de cidade em cidade e de província em província, o Compagnonnage criou uma “bolsa de trabalho”.
Pode afirmar-se que o Compagnonnage foi o sindicalismo antes dos sindicatos. Ele é o antepassado de todos os movimentos populares e de todos os organismos sociais.
Foi ele que criou as mutualidades, as cooperativas, as caixas de empréstimos e de reforma, os organismos de crédito.
O Compagnonnage integrou um grande número de operários através de uma adesão imprudente, acolhendo nas suas fileiras homens que só procuraram o benefício material, sem adoptar o espírito da instituição.
As cisões apareceram e as leis morais e iniciáticas foram cada vez mais objecto de incumprimento.
A palavra “sindicato” é atribuída ao Compagnonnage. Já em 1730, o governador de Montpellier redigiu uma ordem relativa aos companheiros marceneiros onde afirmava que “… eles empreenderam fazer um sindicato entre eles… ei-los todos juntos contra os mestres.
Em 1863, surgiu a nova fórmula “Câmara Sindical Operária”, dando origem a uma nova força: o sindicalismo.
Em 1870, as câmaras sindicais uniram-se numa federação nacional. Em 1876, após vários congressos, foi votado em Arras um projecto por um sindicalismo autónomo e independente do patronato, do Estado e dos partidos políticos.
Em 1895, em Limoges, foi criada a Confederação Geral do Trabalho, que ainda hoje existe e é uma importante central sindical, senão a mais importante em França, sendo uma das forças sindicais mais representativas mesmo no contexto da União Europeia.
Mário Jorge Neves




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