Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

18 de março de 2026

"Templo" no simbolismo e prática maçónicas - das Origens, ao(s) Significado(s) e à Concretização.

 



"Templo" no simbolismo e prática maçónicas - d
as Origens, ao(s) Significado(s) e à concretização.

Este trabalho, agora parcialmente revisto, resulta de uma  nova versão que englobava parte de dois, publicados também neste Blog,  respectivamente  em Abril e Julho de 2020. 
Nestes dois últimos, procurámos focar diferentes aspectos referentes ao tema «Templo», essencial na simbólica e literatura maçónicas. Por achar que a unidade, no sentido da «procura do que está disperso» seria mais útil, tentámos  agora alinhar, de uma forma mais coerente, a maior parte das perspectivas separadas, anteriormente traçadas. Assim concentrámos tudo num só texto, acrescentando outras partes que não tinham sido tratadas. Esperamos que o trabalho, agora disponibilizado, traduza algum valor acrescentado, face aos anteriores (avaliação essa que caberá exclusivamente aos estimados leitores). 


I – Quando a Lenda se mistura com a História 

A tradição da Maçonaria operativa escocesa, é uma das componentes da  história da Maçonaria que tem vindo a ser mais profundamente analisada pela escola da «história autêntica», defendida inicialmente por Knoop e Jones [6], mas só «redescoberta» a partir da década de 70 e 80 do século passado, por R. Dachez,  A. Bernheim e novos autores [5,11], entre os quais o escocês David Stevenson [7]. Algo contestada nos últimos anos (2ª década do Sec.XXI), por novos investigadores com acesso revisitado a antigas e novas fontes [10], continuamos contudo a considerá-la preponderante para uma compreensão mais correcta da «ante-câmara» da maçonaria especulativa, deixando de lado  as  lendas,mitos ou «velhas histórias» , dos mais diversos matizes, incluindo as possíveis origens, apontadas pelo pastor Anderson, nas Constituições da G.L.L. de 1723. 
Seguindo aquelas fontes, podemos sem margem de erro afirmar que, na Escócia, o local onde se reunia a Loja (inicialmente, dos trabalhadores operativos) não se localizava junto ao prédio / monumento em construção, sendo os dois espaços muito distintos um do outro. Normalmente, cada Loja tinha o seu Templo, que era propriedade sua (confirmado pela consulta da documentação das LLoj:., minimamente estruturada desde,  pelo menos, o início da entrada em vigor dos chamados «Estatutos de Shaw» (1598 e 1599). 
Do ponto de vista quer histórico, quer simbólico, não se nos afigura que os diversos e famosos Templos da antiguidade tenham desempenhado um papel essencial  na simbologia maçónica, à excepção do de Jerusalém, o único que é em geral considerado.  Dos três templos sucessivos construídos no monte Mória, o primeiro, o de Salomão e o segundo, o de Zorobabel, desempenham um papel importante, o primeiro essencialmente a  partir do grau de Mestre e sobretudo  ao longo dos graus de «Perfeição», do Rito Escocês Antigo e Aceito (R.E.A.A.), e o segundo nos Graus «Capitulares» do mesmo Rito (sendo também mencionados noutros Ritos, como p. ex. no Rito Francês,  embora aqui com menor desenvolvimento, decorrente da «concentração» ou «condensação» dos Graus, face ao R.E.A.A.).  

Sendo o templo de Salomão uma referência essencial da tradição maçónica, cabe questionar quais  seriam e porque teria  determinadas dimensões?  Segundo afirma  I.Mainguy [3], em 1772, William Preston escreveu («The Illustration of FreeMasonry»): "O templo de Salomão, tão espaçoso e magnífico, construído por tantos artistas célebres ...". Ao ser designado por «espaçoso e magnífico», o templo deveria ser  presumivelmente imponente!

O trabalho de construção, terá durado sete anos, tendo como resultado final um edifício sumptuoso, suportado em pedras perfeitamente desbastadas, alinhadas e cortadas por  forma  a assentarem entre elas sem falhas. Para construir o templo,  Salomão importou do Líbano grandes quantidades  de madeira de cedro. O rei de Tiro, seu aliado, encarregou o seu melhor arquitecto  Hiram-Abif (ou Houram-Abi), de dirigir os serviços, prestados por  170.000 trabalhadores,  liderados por 3.300 oficiais. 

No exterior  do templo sobressaia a construção de duas colunas de bronze, cujos nomes, eram os de «Yakin», coluna da direita e «Boaz» a da esquerda, mandados gravar por Salomão. As janelas eram protegidas por grades sólidas e as paredes estavam cobertas com painéis de cedro esculpido. 

Salomão, para dar ainda mais grandiosidade ao Templo,  decidiu cobrir  grande parte com  ouro, colocou posteriormente lá a «Arca da Aliança» do Senhor (símbolo da coligação do povo judeu). O acesso à «Arca da Aliança» efectuava-se através de uma porta de madeira de oliveira e cipreste, coberta de ouro, no «Santo dos Santos», que era o lugar mais sagrado da casa de Deus.

Por outro lado e mais moderadamente, refere D. Ligou [4]: A. Parrot e W.Corswant estão de acordo com os seguintes dados: “O santuário era de proporções modestas, sendo precedido de um vestíbulo mais elevado, um edifício lateral apoiando-se nos muros, salvo a Oriente, estes edifícios possuíam três andares, aos quais se acedia por uma escadaria em caracol. Poucas ou nenhumas janelas existiam.  o telhado estava coberto de vigas e tábuas de cedro, provavelmente planas. O templo está contido dentro das paredes dos palácios de Salomão, mas separado delas por uma muralha. entre o Templo e esse muro está o "Tribunal da Frente", ao qual duas portas dão acesso”.

A porta era” ladeada por duas colunas de bronze «situadas muito provavelmente um pouco à frente da porta, à esquerda e à direita da escada de dez degraus que conduziam  à porta. Elas eram cobertas com capitéis”. Atravessando o vestíbulo, penetrava-se no interior do Templo, numa primeira sala de 40 côvados (20 m) de comprimento. É o «Hikal» (na terminologia actual) revestido de madeira esculpida com peças de ouro. No fundo uma parede com uma porta de "cinco ângulos", quer dizer em que a linha superior se eleva no seu centro e constitui o quinto ângulo. É por lá que se penetra no «Santo dos Santos», o «Debhir», de forma cúbica, sem janelas. É lá que se encontra a rocha sobre a qual a arca é colocada.

No pátio estava o «Altar do Holocausto», depois ao sul, o mar de bronze; no Lugar Santo, Tábua dos Pães de proposição e, provávelmente o «Altar dos Perfumes», bem como dez castiçais. Finalmente, no lugar «Santíssimo», havia apenas a arca protegida por dois querubins. Este templo, «seria um pouco pesado na sua forma exterior,  mas não sem arte e riqueza no interior»,  foi várias vezes reparado mas também pilhado, tendo sido destruído por Nabucudonosor, rei da Babilónia, em 586 aC.

Sobre o segundo Templo faltam referências arqueológicas. Os textos bíblicos informam-nos que, após o regresso do exílio babiloniano,  os profetas Aggé e Zacarias efectuaram vários pedidos junto do «governador» do país, Zorobabel, que rapidamente aderiu à causa. Foram necessários muitos esforços, até que em 515 aC. pudesse ser inaugurado o novo santuário. Em termos de concepção parece que não seria bastante diferente do primeiro.  Perdem-se muitos autores em conjecturas sobre as razões que terão levado ao desaparecimento da Arca. Este segundo Templo foi pilhado por Antiocus Epigánio, depois de rendido ao culto, pelos Macabeus.

Cerca de 20 anos aC, Herodes empreendeu uma ampliação do templo. Este parece ter sido construído segundo os mesmos princípios do que os precedentes: um vestíbulo, o «Hikal» separado vestíbulo por uma cortina e por um dupla cortina do «Debhir». Não existia nada no «Debhir», a não ser uma grande pedra, sobre  a qual, uma vez por ano, o Soberano sacrificador vinha colocar o  incensário. No «Hikhal» encontravam-se o Castiçal de ouro, a tábua dos Pães de Proposição e o «Altar dos Perfumes». Este templo foi destruído pelo imperador romano  Titus em Agosto de 70, e dele não restam mais do que as fundações do muro de Oeste (o célebre «Muro das Lamentações», tão conhecido e venerado  pelos Judeus).

Este resumo  das  descrições e das pesquisas arqueológicas, testemunha a incidência do Templo de Jerusalém sobre  grande parte da  simbólica maçónica. Entrando nalguns detalhes, teremos de nos reportar a termos tais como «Arca», «Colunas» («Jakim e Boaz»), «Hikal» e «Debhir», «Cedro», «Salomão», «Hiram», etc… .

Se repararmos, todos os Templos, Igrejas ou pirâmides, estão quase sempre orientados ao longo dum eixo leste-oeste, indo do sol nascente ao pôr-do-sol, dando sempre importância ao Oriente, que se observa sempre após a entrada.

É a partir daqui que os diversos Ritos Maçónicos desenvolvem a imensa riqueza na interpretação simbólica que lhe atribuem,  daí decorrendo o modo como são decorados e pintados, internamente. Considera-se que o  Templo maçónico está «aberto» sob a  abóboda estrelada (daí os tectos serem normalmente pintados de azul, contendo  por vezes variadas estrelas). O Sol e a Lua estão representados no Oriente, simbolizando a alternância entre o  dia e a noite.

Segundo D. Béresniak [5]: “No Egipto, Mesopotâmia e Chipre (do Séc. XII ao III a.C.), os templos tinham Colunas à entrada como referência astronómica, ou seja, representavam a posição do Sol nos dois solstícios (Culto Solar) tendo os Hebreus associado as Colunas às Árvores da Vida”.
As duas Colunas tiveram sempre uma representação simbólica, representando a dualidade poder/autoridade. Também podem ser interpretadas como separando ou dividindo o espaço que, como se sabe, foi a primeira operação intelectual pela qual o homem domesticou o mundo dando início ao direito, ciência e técnicas”.

Apesar de terem sido gastos rios de tinta com a  finalidade de confirmar a sua existência ...será que o  próprio templo realmente existiu? A Tradição escrita e oral,  passada através de milhares de gerações e dezenas de escolas filosóficas de diversas matizes, diz que sim, mas quanto a provas concretas, desenhos, plantas, descrições historicamente comprovadas, as dúvidas são muitas e as certezas muito poucas ou, quando muito,  não é muito certo ... .

templo de Salomão, como o próprio rei que lhe dá o nome, são aureolados por um mito indestrutível, mesmo sem entrar  em detalhes esotéricos. Segundo a Tradição e a Bíblia, a sabedoria e a eterna busca pela perfeição desse rei bíblico,  levaram-no a construir um Templo extraordinário, ao qual pretendeu levar toda a sua ciência e  conhecimento e a transcendência do seu relacionamento com Deus.

Os Maçons são construtores, herdeiros de uma longa linhagem cuja origem remonta simbólicamente ao templo de Salomão. Após a destruição do Templo, só resta apenas uma recordação na memória dos homens: um Templo imaginário a reconstruir. 


II – O Templo na Maçonaria

Segundo  M. Pinto dos Santos [1], relativamente ao tema  “Templo” podemos considerar pelo menos cinco abordagens distintas, excepto eventualmente a primeira (mais dedicada às religiões), a saber: 

“1 - Local consagrado a fins religiosos, a que os gregos chamavam de «Tememos» e os latinos de «Templum»;  O formato e orientação do Templo também não foram deixados ao acaso e  obedecem a determinadas regras, de que destacamos [1]:

a) – O templo é construído com a forma dum rectângulo ou quadrado oblongo, que deve obedecer ao número de ouro (vd.) e simbolicamente tem como medidas de comprimento do ocidente ao oriente, de largura do norte ao sul, e de altura do zénite ao nadir, significando isto que a Maçonaria é Universal e que o Templo é a imagem do Cosmos. Antes da entrada do templo, existe um espaço onde os maçons se vestem e preparam para a Sessão de trabalhos, que recebe o nome de átrio ou de adro.

b) – O templo maçónico deve estar orientado de Oriente para Ocidente (de Este para Oeste), à semelhança dos tempos religiosos da cristandade, com a entrada a ocidente, sendo o Oriente o local onde tem assento o Venerável.

Por sua vez D. Béresniak [5] recorda-nos que : “A orientação dos templos tem uma provável origem grega em que a sombra projectada do Sol sobre um obelisco determina a posição futura, mas esta atitude grega parece estar em consequência das tradições muito mais antigas que praticavam o Culto do Sol que, numa perspectiva simbólica, revela a percepção unitária, com a orientação a mostrar uma maneira de estar no mundo porque situarmo-nos é a finalidade do percurso introspectivo”.

Também Daniel Ligou no seu “Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” [4], salienta que este termo é frequentemente empregado na Maçonaria, podendo ter várias significações, concordando no essencial com a diferenciação atrás expressa:

1 – Local onde se realizam as Sessões da Loja ou do Capítulo. Dizemos «ir ao templo». O termo de Loja não é absolutamente sinónimo, servindo o termo «Templo» para significar mais o imóvel ou recinto fechado onde se reúnem e juntam os Irmãos da Loja. Contundo costuma-se dizer indiferentemente «ir à loja» , designando o «local da loja» ou «ir ao Templo», designando o «local do Templo».
Também refere que no sentido primitivo e latino, «Templo» significa «espaço consagrado». Neste caso é equivalente ao «quadro» ou  «tapete» da Loja , ou ainda ao pavimento mosaico (segundo os diversos Ritos).

No edifício em que os Maçons se reúnem e trabalham, temos essencial e simbólicamente  uma pedra a talhar (a «pedra bruta»), para a qual  necessitamos de tempo, porque esta pedra é a pedra da fundação (ou fundamental). Não devemos desencorajar, apesar da dureza do esforço, que por vezes nos possa ser exigido. Desde o primeiro golpe de malhete dado  sobre a «pedra bruta» (quando da «Iniciação»), iniciámos uma longa viagem.

Por exemplo, depois dos Estatutos do GOdF de 1805,  em França uma reunião maçónica não podia ter lugar num local «ad hoc»“É proibido às lojas terem as suas assembleias nos bares,  pensões, ou noutros locais públicos. Elas devem ter para as suas Oficinas, um local particular ou comum a vàrias. Nenhuma loja poderá trabalhar num lugar que seja ou de uma loja irregular, ou  onde uma outra assembleia profana se reúnam».

Esta regra é relativamente recente, pois até pelo menos ao último quartil do século XVIII,  muitas lojas se reuniam como podiam, utilizando a maior parte das vezes salas (reservadas) de Tabernas, bares, casas ou palácios particulares, de pensões, ou de clubes, marcando no chão o tapete da loja (a giz ou a «crayon»), o qual era apagado no fim das sessões. Historicamente, se lermos a maior parte dos relatos existentes relativos ao início da Maçonaria Especulativa,  era essa a situação normal que predominava. O mesmo se passou, por exemplo, nas lojas militares,  nas lojas de resistentes ao nazismo (1940 a 1944), nomeadamente em França, mas também nalguns outros países ocidentais ocupados e nas lojas de prisioneiros de guerra.

De facto, não importa qual o local «fechado  e a coberto» que pode servir para os trabalhos da loja, desde que o tapete e o traçado da loja aí figurem, de forma a garantir e salvaguardar o seu sentido simbólico e iniciático, que é essencial.

As regulamentações posteriores são de cariz regulamentar e não propriamente de ordem iniciática, correspondendo a um período em que já existia uma estabilização das Obediências Maçónicas na Inglaterra  (desde 1813  com a constituição da G.L.U.I.) e posteriormente em França (principalmente,  com a criação do GOdF em 1773, a partir da Grande Loja de França, criada em 1728). 

O «templo maçónico» não é nem um santuário, nem um lugar de culto e só pode ser tido por sagrado pelo carácter iniciático do que lá decorra e se desenvolva,  concluídos num espaço e num tempo privilegiados, sempre conduzido pelo Ritual, que contribui para colocar em plena Luz o carácter eminentemente interior, espiritual e especulativo do templo moral que cada Maçom edifica, no seu ritmo próprio  e no seio da sua comunidade ("Loja").

Numa loja maçónica durante a realização duma Sessão, é necessário que Templo esteja «fechado e a coberto», com o único objectivo de proteger os Maçons da influência do mundo profano (quer física quer psicologicamente).
De um ponto de vista histórico, em todas as tradições, os seres humanos sempre precisaram de lugares para celebrar eventos que consideravam (ou consideram) importantes, ritualísticos e religiosos.

Poder-se-á questionar (e era o que se fazia naquela época), para é que era necessário, se seria prioritário  e o que se deveria fazer para possuir um «Templo»?; um quadrado longo, uma orientação, o resto e mesmo as colunas podem ser substituídas pelo tapete do grau em que reúne a Loja (como referimos para a 2ª Grande Guerra, este era também o procedimento mais comum nas muitas situações repressivas que a Maçonaria viveu ao longo dos seus 300 anos de existência «oficial», onde apesar de proibida, a exemplo do nosso país  durante o longo inverno da ditadura «salazarenta/ marcelista», permitiu aos elementos que se mantiveram activos no G:.O:.L:., iludir a PIDE e os «bufos» e  efectuar «regularmente» a sua actividade).


III – Das Origens ao Significado

O simbolismo maçónico repousa fundamentalmente nas ferramentas, nas tradições histórico-filosóficas antigas, transmitidas até ao nosso tempo, por diversas vias, nomeadamente pela história da construção do templo do rei Salomão.

Seguindo o caminho da Luz e ritmando o nosso trabalho, a dimensão temporal está sempre presente: o tempo que levaremos para concluir as nossas viagens e o nosso trabalhoÉ esse tempo  que torna possível a vida, a evolução, a mudança, e é essa  a alquimia da vida que nos passa a orientar, na procura permanente duma Humanidade e duma Sociedade mais perfeitas e justas, apesar de sabemos de antemão que dificilmente a alcançaremos….

Vimos que o ser humano  está simbolicamente no centro da base do Templo. Jules Boucher [2] afirma que: “se imaginarmos um homem deitado de costas no Templo, a sua cabeça é o  Venerável, os seus braços são o Orador e o Secretário e  suas mãos o Tesoureiro e o Hospitaleiro, suas pernas e pés. os dois Vigilantes. O Templo é, portanto, um universo completo: abarcando o macrocosmo (do grego «makros»: grande e «cosmos»: mundo) - o Universo, e o microcosmo - o Homem.

Dado que o comprimento do nosso templo vai do Ocidente ao Oriente, a sua largura do Setentrião (coluna Norte) ao Meio-Dia (coluna Sul) a sua altura do Zénite ao Nadir, no centro, no cruzamento dos eixos, entre o material e o espiritual, estamos nós, Maçons, no passado, presente e futuro….

A Loja é um  colectivo organizado e estruturado de Irmãos, que levam a cabo a sua formação e progressão em comum, praticando determinado Rito. 
Reunem periódicamente, solidários entre si e estudam, ouvem, discutem, procurando interiorizar os ensinamentos, após o que podem aceder (se apresentarem provas  positivas) aos graus seguintes. O Objectivo vai no sentido do aperfeiçoamento progressivo e individual, e por consequência também colectivo, contribuindo para a melhoria da Sociedade e do Mundo, reforçando  os laços entre eles, bem como com todos os Maçons da Obediência, doutras Obediências (reconhecidas…) e dos restantes Maçons espalhados pelo Mundo, tendo como permanente exemplo os mais notáveis de entre todos, incluindo os já passados ao Oriente Eterno. 

Como já referimos,  os  Maçons para efectuarem o seu trabalho, precisam de se reunir nalgum lugar, a coberto dos profanos. Esse lugar físico, com determinadas características, disposição e decoração (consoante os Ritos praticados) é precisamente o Templo. Portanto "Templo" é local fisico e "Loja" é o colectivo de Irmãos que lá se reúnem. Apesar de existir uma interligação entre ambos, não os devemos confundir, como muitas vezes notamos. 

A abertura ritualística dos trabalhos maçónicos consiste precisamente em fazer passar este lugar das Trevas para a Luz, iluminando-o progressivamente graças ao Mestre de Cerimónias e ao Experto (este último, conforme os Ritos), ao Venerável Mestre e aos seus dois Vigilantes.

No interior do templo maçónico, há duas colunas, que recordam as do lado de fora do templo de Salomão. A coluna da esquerda (trocam de posição do Rito Francês para o R.E.A.A.) , «Boaz» (em hebraico: "força nele"), traduz a Força, além da física. Evoca uma força superior, força espiritual, o Espírito. O outro, «Yakin», (em hebraico: "Fortaleça, que estabelecerá") expressa solidez, estabilidade. Significa que o iniciado passou pelo estágio das flutuações humanas e atingiu o estado do Ser,  confinando-se ao eterno presente. Não se trata apenas de construir, mas sobretudo de reconstruir, de restabelecer.    Na tradição hebraica, a construção do Templo começou no centro com a pedra da fundação, "Eben Shethiyah".  

A pesquisa do maçom é especulativa. Esta expressão significa que o seu trabalho não tem por objectivo a construção dum edifício real, de pedra ou de  outros materiais, mas a construção permanente de si mesmo, do seu  intelecto e do seu psiquismo. É o que denominamos como trabalho sobre si mesmo, ou seja a “construção do seu templo interior”.

Como resume M. Pinto dos Santos [1],  nas abordagens relativamente ao tema  “Templo”:  

 – “A Maçonaria seguindo em  muito o património Bíblico judaico-cristão, nomeadamente o templo de Salomão, adoptou este como um dos seus símbolos essenciais: em primeiro lugar como símbolo da construção maçónica, cuja missão pertence a cada um e a todos os maçons, independentemente dos seus graus,  visando uma maior e melhor Humanidade; depois como um lugar sagrado delimitado pelas colunas e a orla dentada do pavimento em mosaico, onde o equilíbrio e a paz existem, sem as coisas profanas, realizando-se colectivamente os trabalhos maçónicos próprios da Loja”

Deve ficar bem claro que nenhum homem é detentor da perfeição. Além do mais, nenhum homem se poderá valer de qualquer poder mágico ou esotérico que lhe permita afirmar-se como superior a qualquer outro homem.

Trabalhar sobre si mesmo não é somente uma prerrogativa dos maçons. Numerosos profanos também o fazem diariamente para se tornarem melhores, ao mesmo tempo que alguns maçons são incapazes desta procura , ou então, dissimulam-na tão bem, que não chegamos a apercebermo-nos… (tenhamos a sempre a inerente esperança de  que sejam poucos…).


IV – Do Significado à  concretização 

Temos vindo a salientar que  a tarefa prioritária do Maçom é a construção de seu «templo interior». A introspecção, a capacidade de identificar as suas próprias imperfeições,  reconhecendo-as como tais,  a vontade de corrigi-las, são os  fundamentos da construção e da permanente reconstrução deste templo interior.

Como é de um modo geral conhecido, muito em especial pelos psicólogos e psicanalistas,   existem muitos erros, deficiências, falhas e fraquezas no nosso julgamento, especialmente quando se trata de nós mesmos. Somos rápidos em condenar os outros, com quem contudo, somos tão parecidos.

Uma força interior que chamamos de ego, somatório dos nossos instintos e impulsos profundos, impele-nos constantemente a afirmarmo-nos, impondo-nos aos outros para dominá-los ou seduzi-los. Temos uma forte necessidade de sermos conhecidos, reconhecidos, amados, apreciados, respeitados. E quando não temos tudo isso, sofremos e podemos comportar-nos despropositadamente, movidos por frustração ou desespero. Não se deve ignorar o egomas tentar canalizar os nossos impulsos e reações para que a vida em sociedade seja possível. 

A verdadeira força provem de aceitarmos as nossas fraquezas e mostramo-nos tal como somos. Viver numa fortaleza ou numa torre de marfim não é viver, mas fugir à vida. Todavia os outros não são diferentes de nós, não sendo, nem de longe nem de perto, tão fortes quanto muitas vezes aparentam ou pretendem  parecer. Dois seres humanos podem comunicar num sentido espiritual ou emocional abrindo o seu «interior»  individual e ignorando as aparências.
A verdadeira comunicação acontecerá então, para além de considerações fúteis e verborreia inconsistente. Num certo nível, poderemos falar de "metacomunicação", mas esse é um tema que sai fora deste âmbito… .

Aprender a dar, em vez de sempre receber. Aprender a respeitar e a compartilhar. Aprender  a ser justo e ter compreensão. Aprender a desapegar-se do nível material e do seu verniz protector, que são os principais obstáculos à abordagem da Sabedoria. Recordemos que o silêncio do Aprendiz fá-lo compreender que a palavra  é preciosa e deve ser utilizada com critério, ao mesmo tempo que falar alto e esmagar os outros,  não é sinónimo que se tenha forçosamente razão ...

Ambição, poder, glória e honra são os objectivos daqueles que têm muito pouca riqueza interior.
Já o reconhecimento das nossas próprias falhas, é certamente uma boa prova de nossa vontade de melhorar. Mas esse reconhecimento é insuficiente.

 "Visita Interiora Terrae, Retificando Invenies Occultum Lapidem". Essas palavras estão escritas em iniciais nas paredes da câmara de reflexão (sob a sigla VITRIOL), na qual o recipiendiário é convidado a meditar e redigir a  sua vontade moral e filosófica. Podemos expressá-la em linguagem clara  pela interpretação esotérica: "Desce ao interior de ti próprio e, através da meditação, conhece-te a ti  mesmo e descobre a essência secreta das coisas". Todo esse simbolismo apela à descida  às profundezas da terra e de si mesmo para lá encontrar o que não sabemos.  

É agora tempo de começar esse longo trabalho de pesquisa e de aprendizagem do autoconhecimento, a erradicação de nossas deficiências mais profundas, na difícil abordagem à Sabedoria. Para isso, o maçom não está sozinho. Os Irmãos da Loja, devem envolvê-lo  e apoiá-lo  nessa busca, por vezes  difícil e dolorosa. Eles levam-lhe também o seu conhecimento e a sua amizade, bem como a tremenda força do simbolismo maçónico, que extrai as suas fontes das interpretações e escritos dos antigos.

As ferramentas simbólicas são as ferramentas do homem e do maçom no seu trabalho de auto-transformação. Os símbolos da loja e do templo são conceitos compreensíveis e aceitáveis para todos aqueles que nos ajudam  na nossa reflexão e na  nossa pesquisa profunda.

A interpretação dos símbolos é uma dos assuntos mais subjectivos, mas mais ricos e perenes. Os irmãos aprenderão a decifrá-los melhor, graças aos trabalhos sucessivos de uns e de outros, no seu percurso, bem como na literatura de suporte. Contudo o simbolismo não é exclusivo da Maçonaria, podendo encontrar-se em muitas áreas, quer sejam filosóficas, religiosas, artísticas, científicas, matemáticas e até técnicas.

Como justamente nos recorda D. Béresniak [5]: “O estudo dos símbolos e dos mitos é a via para a introspecção e do conhecimento de Si-mesmo” e “O interesse no estudo dos símbolos é causado pelas chaves que eles contêm, chaves estas, que são correntes de pensamento associadas ao património cultural do universo”.

É necessário ter algum cuidado  para não confundir  simbolismo com esoterismo. O simbolismo é um modo de ensino que faz  apelo a analogias estruturais entre diferentes conceitos. O esoterismo reúne inúmeras teorias mais ou menos «sulfurosas», nas quais não se deve insistir demasiado. Esoterismo significa coisa oculta. Exoterismo, o seu contrário, evoca a coisa revelada.

Sendo diferente de ambos, o ensino do simbolismo maçónico envolve o estudo de todos os símbolos por ordem crescente de dificuldade. Uma outra componente essencial deste ensino é a repetição e aqui é essencial o Ritual seguido em Loja, que nos fornece, com uma intensidade acrescida, a percepção e compreensão dos símbolos a que faz referência, ordenando, dando sentido e conduzindo, do princípio ao fim, a Sessão Maçónica.

Aqui, tudo é símbolo…!  (requerendo o  método,  o maior rigor e seriedade).

A abordagem, discussão e compreensão dos símbolos deve reunir os Irmãos em torno dessa busca comum pelos segredos do pensamento e das leis que governam o universo. Essa excepcional comunhão de ideias é talvez a própria essência do famoso «segredo maçónico».

Longe dos dogmas e preconceitos, na partilha de ideias e no respeito pelas palavras dos outros, os nossos trabalhos enriquecem-nos em torno de um ideal positivo e «construtivo».

Há alguns anos atrás (talvez mais do que seria desejável...), ouvia-se dizer por vezes que era possível reconhecer um maçom, na vida profana, pelo seu comportamento único, a sua maneira de se expressar, as suas capacidades de escuta, a sua mente aberta , etc ... É claro que nem só os maçons correspondem a este perfil, podendo vários profanos também possui-lo.  O que se pretende realçar  é que o trabalho real desenvolvido consigo próprio pode levar um homem, um Irmão, a mostrar-se dessa maneira. O seu templo interior irradia para o exterior e seus Irmãos reconhecem-no. É este um ponto  que gostaria de vos transmitir. 

Um maçom deve chegar ao fundo das coisas. Não deixar a dúvida permanecer. É muito fácil afastar-se. Nas nossas lojas, temos muitos Irmãos ... Mas entre eles, quantos Amigos? Basicamente, o que significam as palavras, Amizade e Fraternidade? Afinal, os Irmãos podem separar-se e até matar-se (ver Caim e Abel). Contrariamente, um amigo de verdade pode ser um companheiro essencial  para a vida e trazer-nos enorme felicidade.

Não esqueçamos que vivemos num mundo onde o ser humano é forçado, pelas condições envolventes, a isolar-se cada vez mais e onde a hostilidade e a violência estão gradualmente a ganhar vantagem sobre tudo e todos, depois de décadas anteriores, passadas em condições sociais apesar de tudo talvez mais humanas.
Para tentar sobreviver saudavelmente, neste mundo cada vez mais feroz  e ultra competitivo, que instituiu a procura e a obtenção desenfreada dos metais como objectivo supremo (seja de que modo for), saber como aproximar-se e abrir-se um pouco aos outros,  não ficando retraído sobre si mesmo, é cada vez mais essencial…. 

O Poder, os sinais exteriores de riqueza não são mais do que (e apenas), evocação dos metais. Eles não têm lugar em Loja, onde os valores são diferentes. Nós, Maçons, honramos o trabalho, manual ou intelectual, sem glorificar o supérfluo ou aparências muitas vezes enganosas.

No entanto podemos eventualmente admitir que existe como que uma certa «amnésia selectiva», na Nossa Organização,  no que diz respeito ao reconhecimento e à honra que se deve prestar ao trabalho manual. É curioso verificar como, entre nós, a origem profissional da esmagadora maioria dos Irmãos  corresponde a «juristas», «advogados», «médicos», «intelectuais», «economistas», «professores», «engenheiros», «gestores», «directores», «doutorados», «mestrados», «especialistas de marketing», «políticos», etc, etc, … e muito poucos (ou quase nenhuns) técnicos especializados ou "manuais". 

Desde a restauração da Liberdade, a N:.A:.O:. tem efectuado um trabalho de recrutamento essencialmente a nível de «profissional superior / intelectual», sem dúvida essencial para mantermos o acesso aos estratos sociais que mais acesso têm ao Conhecimento, Sabedoria e Tecnologia geral ou específica, mas em contraponto, deixando para tràs (em nossa opinião) a componente «manual».  Recorde-se que esta teve um peso que se revelou essencial,  quando das lutas  que culminaram na implementação da República e durante os quase 50 anos de contínua resistência à ditadura salazarista e à guerra colonial, para já não falar na luta contra o absolutismo, no Séc. XIX., em defesa do parlamentarismo constitucional. 

Tencionamos  revisitar este tema em próxima oportunidade (porque o julgamos pertinente, já que na sua génese estão, quanto a nós,  dois conceitos distintos – ou a Maçonaria representa essencialmente as elites políticas, dirigentes ou profissionais, ou, para além destas,  deverá representar também aqueles que constituem  uma base social «técnico- especializada» e de serviços, mais esclarecida. 

Mesmo sabendo de antemão que, no espaço de um século, a sociedade evoluiu bastante e o nível educacional médio suportou e acompanhou inevitavelmente essa evolução, julgamos que esta  questão se deve colocar e analisar com cuidado, sobretudo tendo em vista as enormes mudanças técnico, económicas e sociais  que a pandemia acelerou e que já se perspectivavam a curto e médio prazo para este Séc. XXI, potenciadas pelo rápido avanço tecnológico que a IA irá introduzir, a que deverão corresponder mudanças sócio-económicas significativas.

Não devemos esquecer que um bom maçom “manual” deve ser (como no passado o era),  acima de tudo uma pessoa que, para além de manualmente hábil, tem espírito vivo e o culto da sua arte, e que os maiores cirurgiões ou pianistas do mundo têm as suas mãos no seguro, mas não o seu cérebro.

Alguns acreditam que a Maçonaria é um bom trampolim para a vida política ou profissional e abordam-na como tal (sobretudo, mas não exclusivamente, em algumas Maçonarias ditas mais «dogmáticas /regulares»...). Porque podem formar facilmente alianças, redes de influência e proporcionar encontros úteis, sobretudo nos corredores e nos ágapes, após as sessões ou (melhor ainda), noutros locais mais selecionados e a propósito…

Apesar de ser necessária alguma prudência nesta abordagem, se um verdadeiro maçom, que realmente trabalhou sobre o seu templo interior, inicia uma carreira política, podemos esperar que a sua acção seja útil e boa para todos. Mas se esse maçom só entrou na Maçonaria para aí encontrar ou reforçar alianças políticas controversas, é pouco provável que sua acção não seja melhor do que a de tudo o que vem da «politicocracia» profana usual.

Poder, honra e dinheiro são as motivações de egoístas e de acumuladores. Estes nunca dão, mas  sabem o que levar. 
Muitos Maçons e políticos também realizaram obras significativas e trabalharam (ou até deram a própria vida) pelo progresso ou pela paz, devendo neste caso o seu exemplo ser permanentemente recordado. Não devemos esquecê-los, mantendo-os como eterna fonte de motivação e inspiração (recordo, entre muitos outros, o NQIr:. Past Gr:. M:. António Arnaut).   

O maçom deve ser capaz de se informar e julgar em plena consciência,  sem ter que sofrer influências. Longe do burburinho dos “média” (sobretudo quando propositada e erradamente se referem a nós), os Irmãos devem manter um espírito crítico, agudo e objectivo. Todas essas actividades fazem parte do princípio romano do "pão e jogos", que ajuda a desviar o interesse dos cidadãos dos assuntos públicos verdadeiramente importantes.

Ninguém possui a sabedoria suprema, bem como a virtude ou o conhecimento absoluto. Assim, dentro da loja microcósmica que representa uma pequena fracção do cosmos, a egrégora, que une os irmãos numa mesma e nobre busca, dá a cada um a força e a coragem do grupo, na sua pesquisa da verdade.

«Sem os outros, não somos nada.
E o outro é cada um de nós.
E cada um de nós é uma pedra angular do edifício do nosso grupo.
Trabalhamos em conjunto na construção de um edifício comum e simultâneamente na edificação do nosso templo interior.» [8]


V – Concluindo 


De acordo com os sucessivos graus, as ferramentas simbólicas são diferentes e a sua abordagem mais subtil. Os graus  maçónicos não são graus de poder ou de autoridade. São simplesmente o reconhecimento de um trabalho de progressão individual realizado, essencialmente simbólico. Mesmo o Mestre deve continuar o seu trabalho de introspecção e de avanço pessoal. E este trabalho nunca estará terminado.

Se falamos de pedra bruta, pedra talhada e pedra polida, todo a gente entende os símbolos contidos nessas palavras. Mais complexa é a abordagem do cinzel e do malhete e mais ainda a do esquadro e do compasso, ou  até da régua, do fio de prumo e da alavanca.

Naturalmente surge então a pergunta: então, por que empreender um trabalho que nunca poderemos terminar...? De facto, a nossa passagem para o oriente eterno privar-nos-á de todos os recursos materiais para concluir este trabalho. Mas o trabalho realizado não será em vão. Os nossos Irmãos, enriquecidos com tudo o que tivermos conseguido trazer  para o trabalho comum, continuá-lo-ão, guardando na memória e prática tudo o que tivermos aprendido e partilhado juntos. Cada um de nós traz aos outros qualquer coisa de precioso. Essa acção, normalmente efectuada pelos Mestres, tem um nome específico  e muito importante  entre nós – Transmissão !!!

Sendo a construção do nosso templo simbólico, enquanto Maçons, o nosso objectivo: devemos tentar construir e reconstruir constantemente uma Fraternidade, cimentada pela nossa Cadeia de União, porque construir o nosso Templo interior é construir o Homem, sendo este o modelo proposto, entre outros,  pelo  Rito Escocês Antigo e Aceito (R.E.A.A.)  - a construção do Templo (à imagem do templo de Salomão)  simboliza a  imagem do Templo do Homem e do Templo do Universo. 

A Maçonaria  ao colocar o homem no centro dum templo, não tem fronteiras, apesar dos eixos serem definidos, não tem limites. Neste espaço ilimitado, o Maçom compreende  que deve trabalhar em todos os lugares e por todo o tempo, procurando «unir o que está disperso».. Pelo menos com os Irmãos da nossa Loja  (cerca de 6 horas por mês), mas também no mundo profano (as 540 horas restantes do mês)….

O Maçom é, não o podemos esquecer,  um «homem livre e de bons costumes». As dimensões do templo universal da Maçonaria são os seus valores, valores de Tolerância, Solidariedade, Fraternidade, Respeito e Humanismo.

Templo (não confundir com Lojaé um formidável estruturador para o trabalho de introspecção. Coloca à nossa disposição os símbolos, bem como outros utensílios,  para trabalhar  a dimensão espiritual,   cria as ferramentas que para além de despertar o nosso consciente iniciático,  posteriormente nos orientarão na sua correcta utilização. 

Como podemos reunir as dimensões verticais (espirituais) e horizontais (materiais) da nossa existência? Como reconciliar o fio do prumo, com o esquadro e o compasso? Definitivamente um trabalho de longo prazo…

Na sociedade actual, que virou as costas a todas as filosofias, religiões e ideais positivos, para se dedicar exclusivamente a desfrutar o vil metal e o consumismo estéril, parece que os homens acham cada vez mais difícil questionarem-se a si mesmos e aceitar verem-se ao espelho da realidade.

O cidadão comum não gosta que  os outros sejam  diferentes dele. Ele tem medo das diferenças. Cabe aqui recordar (em termos de troca de ideias / opiniões) a célebre frase de St Exupéry [3]: "Tu que diferes de mim, meu Irmão, longe de me lesares, enriqueces-me".

O simbolismo é um método de ensino universal muito antigo e o trabalho que o maçom deve fazer sobre si mesmo, utilizando-o como ferramenta base, pode bem ser comparado ao que deve fazer alguém  sujeito a uma psicanálise, sobre ele próprio.

Mesmo dentro das nossas Obediências, os desvios ocorrem, e é humano, que nos conduzam a caminhos mais caóticos. Depois de mais de quinze  anos em que a Luz me foi dada, senti essa mudança gradual e apesar do trabalho desenvolvido, com a preciosa ajuda e crítica de alguns fraternos e inestimáveis Irmãos, devo confessar alguma decepção.  Gostaria de encontrar a trabalhar nos princípios e valores da Maçonaria, mais homens e mulheres,  na nossa casa comum,  genuinamente determinados a lutar pela procura da verdade e pelo bem-estar da humanidade (não se é maçom por se estar inscrito na loja e pagar as quotas, nunca ou raramente lá comparecendo …).

Da época pandémica à actual, talvez trespassem alguns laivos de maior pessimismo ou criticismo,  mas urge perspectivar o futuro, corrigir erros e avançar, apesar do tempo que temos disponível para o concretizar se ir reduzindo,  dada a rápida finitude da nossa passagem pela vida… 

Assim, o Templo universal que alberga a nossa Loja, abriga princípios de vida, princípios que facilmente podemos classificar como  também de Valores ...
Devemos abrir-nos ao  mundo,  transportando as nossas dimensões para fora do templo interior, para fora da Loja,  ... Só assim e «em fase» com cada um de nós,  estaremos prontos a dar e compartilhar com todos os nossos Irmãos, Homens ou Mulheres, contribuindo para a edificação do nosso grande projecto, em que a Liberdade, Igualdade e Fraternidade prevaleçam sobre a Ignorância, o Fanatismo e a Ambição.

Ao concluir estas notas, agora sobre a importância e significado da conjugação do Templo (físico) com o «Templo interior» no trabalho dos Maçons, parece-me oportuno  referir, uma das suas simbologias essenciais, que qualquer Maçom deverá saber e compreender, recorrendo à profunda sabedoria de Daniel Béresniak [5] :
“O Pavimento Mosaico é a complementaridade dos contrários. …. Do ponto de vista lógico não se pode exprimir uma proposição sem haver uma contrária. O Pavimento Mosaico convida-nos, com um só olhar, a abarcar o real e as suas contradições, e a ver, nestas contradições aparentes, os elementos necessários e complementares do conjunto.   Meditar sobre o Pavimento do Templo alarga o espírito, diminui o preconceito e liberta a reflexão - é uma das chaves para a reflexão simbólica”.

Em modo de epílogo,  dedico com toda a Fraternidade e Amizade estas notas aos  MM:.QQ:.IIr,  que sempre constituiram a minha  fonte de inspiração,  aprendizagem e motivação,  esperando que tenham a paciência de as lerem criticamente. Óbviamente que o tempo de pandemia e confinamento forçado proporcionou variadíssimos questionamentos interiores, mas o prolongamento do tempo de isolamento, transmitiu-se necessáriamente ao pensamento e à acção,  tornando simultaneamente mais lenta, penosa e dispersa a escrita,  deixando porventura passarem indevidamente algumas falhas no árduo rigor de polimento da pedra,  pelo que espero que me desculpem as imperfeições daí resultantes. 


Salvador Allen:. M:.M:.

(Abr.2021, e:.v:.; revisto em Fev.25, e:.v:)

(Com a devida vénia e autorização do Blog «Comp&Esq») 


Bibliografia

1 - “Dicionário da Antiga e Moderna Maçonaria” – Manuel Pinto dos Santos, Lisboa 2012
2 – “A Simbólica Maçónica” – Jules Boucher  – Editora pensamento, Ed. 14 – S- Paulo , 2006
3 – “La Symbolique Maçonnique du Troisième Millénaire” - Mainguy,  Irène -– Éditions Dervy, 2006, Paris
4 – “Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” – Daniel Ligou,  Éditions PUF, 2015 (3ªÉdition), Paris
5 – “L’Apprentissage Maçonnique - Une École de L’éveil» - Béresniak, Daniel, Éditions Detrad – 2009, Paris
6 - “The Genesis of Freemasonry” – Douglas Knoop e G.P. Jones” – Manchester University Press – 1947
7 -  «The-Origins-of-Freemasonry-Scotland-s-Century-1590-1710» - David Stevenson – Cambridge University Press,   1988
8 – “Le Petit Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” -  Guy Chassagnard – Éditions Alphée, 2005
9 – “Encyclopédie de la Franc-Maçonnerie” – direction de Eric Saunier – Le Livre de Poche – Paris 2008
10 – “Hiram – Le Mystère de la Maîtrise et les Origines de la Franc-Maçonnerie – David Taillades, Éditions Dervy ,2017 
11 - “Les Origines de la Maçonnerie Spéculative” – Roger Dachez, revista “Renaissance Traditionnelle - RT”


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