Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

21 de fevereiro de 2026

Séc. XXI - Actualização da Maçonaria face à Sociedade - o caminho da Incerteza ?



Séc. XXI - Actualização da Maçonaria face à  Sociedade - o caminho da Incerteza ?




I - Introdução

A Maçonaria,  credenciada como uma das mais antigas e discretas instituições fraternais do mundo, carrega consigo séculos de tradição, conjuntamente com uma forte ligação a valores como a Liberdade, Igualdade, Fraternidade e aperfeiçoamento individual   da pessoa humana. Tem procurado,  ao longo da sua história, adaptar-se às sucessivas mudanças sociais e culturais, ao mesmo tempo que tenta preservar os princípios e valores que a definem. No século XXI, a modernidade dos novos costumes, hábitos e ideias sociais, aliada ao impacto das novas tecnologias, representam um novo e enorme desafio  para a instituição. 

Importa pois analisar e perspectivar, face ao papel que a Maçonaria desempenhou até hoje, qual o que poderá vir a desempenhar  na sociedade e no país e até globalmente, no novo mundo «digital» que entrelaça o planeta em que nos inserimos. Referimo-nos essencialmente à corrente «liberal / adogmática» a que estamos adstritos e que entre nós leva já mais de 2 séculos de existência ininterrupta. 

A Maçonaria sempre  promoveu a convivência fraternal num ambiente restrito, de seres humanos (na altura só homens) livres e de bons costumes devidamente selecionados, em que o Simbolismo e o Rito desempenham um papel fundamental na formação dos membros. O uso de ferramentas tradicionais como o compasso, o esquadro, a régua, o malhete e o cinzel, herdados da maçonaria operativa,  simbolizam o aperfeiçoamento contínuo do ser humano, algo que, à primeira vista, pode parecer distante das inovações tecnológicas actuais, mas é através das distintas simbologias e orientações apresentadas que encaminhamos os nossos passos rumo ao aperfeiçoamento humano individual, para melhoria de toda a Humanidade. Todavia, o mundo moderno não para, avançando a um ritmo  cada vez mais frenético, e a Maçonaria, com o seu histórico de adaptação e evolução, enfrentará também o desafio de integrar as inúmeras e novas oportunidades, sem contudo perder a tradição que a distingue e caracteriza.  

Recorde-se que, curiosamente, um dos primeiros pontos de contacto da Maçonaria com as novas tecnologias foi a digitalização dos seus processos internos. Históricamente, a comunicação entre as lojas maçónicas era feita por correspondência física (papel ou cartão), com um alto grau de confidencialidade e protocolo. Hoje, com a expansão das plataformas digitais, muitas dessas práticas passaram a ser realizadas por meios electrónicos, como «e-mails» e até sistemas e plataformas de SW de gestão aplicacional e de base de dados. Tal facilita e agiliza quer a gestão interna das organizações, quer  a comunicação entre os membros, economizando tempo e reduzindo custos operacionais. 

Contudo, esta transição também traz enormes desafios e preocupações, que devem ser (e foram) tidos em conta desde o início das respectivas implementações,  tais como a necessidade de manter a segurança das informações e garantir que os valores de confidencialidade e discrição da Maçonaria sejam preservados no ambiente digital, já que, como costuma dizer-se, «uma vez no digital, no digital para sempre». Ferramentas de criptografia e sistemas de autenticação avançados têm sido adoptados, no entanto dada a proliferação constante de SW maligno de intrusão,  utilizados pelos «hackers» e pirataria,  não é possível garantir que os dados sensíveis permaneçam sempre protegidos a 100%. Este é um dos principais pontos a ter em atenção, quer para as organizações actuais, quer  ainda mais, para as futuras.

Neste já longo percurso, devemos ter um imenso orgulho no facto do N:.A:.O:. ser a 2ª obediência mais antiga da Europa em funcionamento ininterrupto (logo a seguir ao GOdF).  Por certo poderíamos ter feito mais e melhor, mas também somos consequência quer de vários problemas, a nível interno e externo, decorrentes da envolvente politico-geográfica regional e internacional, que nos tem condicionado ao longo da história e a que não podemos ser alheios, antes e depois da liberdade de Abril.

II – Maçonaria versus Democracia 

Permitam-me que partilhe convosco,  algumas breves reflexões que sobre este tema tenho vindo a efectuar,  com o  intuito de tentar correlacionar estas duas forças que mutuamente se alimentam (Maçonaria e Democracia). Responsáveis pelo avanço civilizacional e humanista dos três últimos séculos, apesar das terríveis barreiras dos poderes autocráticos dos séculos XVIII a XX, e das duas terríveis guerras mundiais deste último. 

Como reação à geral incapacidade (ou falta de vontade)  politica em inverter a situação de crise das democracias ocidentais, conjuntamente com os problemas decorrentes da integração na UE (perda de autonomia, dirigismo supra-nacional não escrutinado, incompetência, inconsistência, manipulação manifestada por vários actores politico-económicos e até alguns casos de corrupção), movimentos populistas e extremistas começaram a ressurgir nas últimas três décadas. Tendo obtido crescente apoio nos últimos anos (com as eleições de Trump,  Victor Orban,  e agora novamente Trump, entre outros,  e já bem representados no nosso país, após as duas últimas eleições), procuram ansiosamente destruir as democracias ocidentais, substituindo-as por regimes musculados, disfarçados de democracias «iliberais».  

Adicionalmente já temos estes regimes autodenominados «iliberais», instalados na Hungria e na Chéquia e Eslováquia, e em risco de instalação na Roménia e Bulgária, isto para referir só a Europa. Serão sómente saudades do ex-partido único de passado recente???.... Se nada for concretizado para lhes retirar argumentos e os combater com mais eficácia, é muito possível que Espanha, Alemanha (onde a extrema-direita  ficou em 2º lugar, nas últimas eleições)  Aústria,  até mesmo o nosso país, sejam os próximos candidatos. Recorde-se também que nos últimos anos, no que apelidávamos paraíso nórdico europeu, têm também existido governos de coligação da direita com a extrema-direita, (face à grande subida dos extremistas, consequência dos  problemas relativos à emigração e à perda de valor de subsídios e reformas dos naturais). 

Platão escreveu que a democracia inevitavelmente tem a tirania como sua sucessora, por causa dos excessos de liberdade. Lembremo-nos porém de Winston Churchill, numa das suas frases mais divulgadas: “A democracia é  a pior forma de governo, com a excepção de todas as demais” ou:  “A democracia é  o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor do que ela!”.. Contudo não nos podemos esquecer que bestas imundas (como Hitler, e outros)  chegaram ao poder, por via democrática, sendo esta uma das fragilidades das democracias, podendo (sem o pretender) através do voto e em situações de crise, dar o poder aos seus piores inimigos.


III – No futuro, que desafios?

Com a Globalização e o suporte à sociedade planetária digital, desenvolveram-se a robótica, a nanociência, a realidade virtual, a mecatrónica, as neurociências,  a IA - Inteligência Artificial e outras tecnologias. O  mundo mudou e está a mudar a uma velocidade acelerada e a maior parte de nós só agora começa a perceber que já entrámos numa nova era, suportada numa evolução tecnológica dificilmente imaginada,  há cinquenta anos atrás.

No passado a Maçonaria, de forma mais ou menos estruturada, foi-se expandindo pelo mundo, quase sempre em coincidência com alguma agitação política contra o dogmatismo e o totalitarismo, sempre  em prol dos seus valores e princípios democráticos,  que de certa forma alavancou  a organização da Ordem, provocando por vezes cisões, rivalidades  e guerrilhas internas diversas, originadas quer pelo pernicioso conflito com a auto-denominada «regularidade», ou pela  prevalência dos valores profanos na mentalidade de alguns Irmãos (vaidade,  carreirismo, ganância de poder, ambição desmedida, mentira, etc).  

Contudo a grande maioria dos Irmãos, felizmente, ainda persistem em assimilar os antigos e sólidos ensinamentos de auto-aperfeiçoamento e evolução espiritual, construindo-se como verdadeiros Maçons. Por outro lado a Ordem também é, de modo geral,  conservadora. Parece ainda não contarem muito para ela, em alguns casos,  os actuais avanços da ciência e os novos valores sociais, atrasando normalmente  a sua aplicação até não poder evitá-lo (vidé o acesso das mulheres). Reconheçamos contudo que não é fácil juntar Modernidade com Tradição.

Como bem questiona o Ir:. H. Spoladore [9]: “Qual a função do Maçom no futuro? Social, cientifica, política, cidadão do universo? Ou será apenas de estudos e auto-aprendizagem e conhecimento? Qual será o conceito de fraternidade entre os maçons do futuro? Haverá potências como as conhecemos hoje e qual será o conceito avançado do G.A.D.U.? “

Acreditamos que talvez daqui a pelo menos 50 anos a Maçonaria continuará a existir, mas quase por certo em moldes diferentes dos actuais. Poderão existir  talvez menos potências, eventualmente suportadas em potentes e inteligentes redes e sistemas computacionais, utilizando versões específicas de SW, integrando plenamente os últimos desenvolvimentos da Inteligência Artificial (IA) e permitindo a virtualização   de parte significativa das Sessões normais. Tudo poderá ocorrer de  forma  diferente da actual ou até do que a nossa imaginação possa alcançar. Surge no entanto um obstáculo primordial, já que como sempre nos ensinaram, a Maçonaria só se aprende e pratica nas Lojas. Como «desmaterializar» este requisito  essencial? Será que poderemos ter um robot  a ler--nos pranchas de simbolismo e ritualística, ou até de ordem geral, ensinando-nos temas pré-selecionados ??? (aqui a IA já praticamente o faz actualmente…).

Os genes humanos continuarão a transmitir as mesmas características programadas de há duzentos mil anos atrás, apesar da evolução [9]. As guerras, cada vez com armas mais sofisticadas, com armamentos de destruição em massa, justamente por causa da ambição, vaidade, inveja, mentira e outras qualidades «bestiais» que nos foram legadas através deles (genes), deverão perdurar, a não ser que sejam modificados pela ciência, como já alguns aventureiros pretendem. Estes perspectivam apagar neles algumas ou todas as qualidades deploráveis (enquadramento que poderá contribuir, levado ao extremo,  para o auto-extermínio da raça humana, na luta pelo ser humano «ideal»…). 

O Homem, atendendo à sua natureza intrínseca e ao poder que poderá ser dado a dirigentes sem escrúpulos e radicais,  poderá usar a máquina para ter mais poder sobre os seus semelhantes, mas a máquina (de per si) não deverá ser capaz de fazer isso. 

O software irá continuar a desactivar a maioria das atividades tradicionais nos próximos cinco ou dez anos. Através da capacidade e potência quase ilimitada da Inteligência Artificial, os computadores estão a tornar-se exponencialmente melhores no entendimento do mundo. 

Nos Estados Unidos desde há pelo menos 6 a 8 anos, os advogados jovens (entre outros) estão a perder o emprego, já que com o Watson (supercomputador da IBM) é possível conseguir aconselhamento legal dentro de segundos, com mais de 90% de exatidão quando comparado com  os actuais 70% obtidos pelos advogados, utilizando métodos convencionais. [9]

Com a significativa queda do preço das impressoras 3D nos últimos 10 anos, aliada ao enorme aumento de velocidade  (cerca de 120 vezes mais rápida), muitas fábricas de sapatos começaram a imprimir sapatos em 3D e várias peças de reposição de aviões já são impressas em 3D em aeroportos remotos. Imagina-se que até o ano 2030, 15% de tudo será impresso em 3D [7] (podendo até vir a  incluir novas casas e blocos de apartamentos de pequena/média dimensão, se os custos das impressoras e materiais específicos, diminuírem significativamente). 

A partir de  2020/5,  a indústria automobilística tradicional começou a ser «demolida».  No futuro não haverá provavelmente  necessidade de carta de condução ou de ser dono de um carro. Isso mudará para melhor as cidades (muito menos carros), além de que cerca de 90% dos carros actuais estarão completamente desatualizados, sendo até proibidos de circular pela poluição que provocam.

As fábricas automobilísticas tradicionais foram obrigadas a  adoptar uma técnica evolucionista e fabricam carros cada vez melhores, híbridos e agora já 100% eléctricos, para conseguirem cumprir as metas de descarbonização e resistir ao enorme confronto, com as marcas chinesas e a Tesla. Os fabricantes japoneses e europeus,  tentam adaptar-se pela tecnologia do «híbrido»,  na perspectiva do hidrogénio e de novo tipo de baterias, de forma a manter a vantagem, pela adaptação evolutiva da sua estrutura base tecnológica analógica, combatendo o domínio chinês no mercado eléctrico e nas baterias, diminuindo a dependência de matérias primas e metais raros que lhe estão inerentes (e em que a China é o 1º produtor mundial). 

Por outro lado, a eletricidade tornar-se-á mais barata, especialmente via componentes complementares solar e eólica, que se juntam à hídrica tradicional. Teremos adicionalmente água potável abundante e a baixo custo, através da  dessalinização da água do mar.

Quanto à Longevidade humana, possivelmente dentro de 40 anos a sobrevivência média estará à volta dos  100 anos. Na Educação, com os tablets e smartphones cada vez mais baratos, cada ser humano,  poderá ter o mesmo acesso à educação e à informação, em qualquer lugar e a nível mundial (via redes de satélites). 

Face ao  poder económico necessário ao brutal investimento em tantas inovações tecnológicas,  a riqueza tem vindo a concentrar-se em cada vez menos, e a democracia corre o risco de se ir desfigurando em autocracias crescentes, ao mesmo tempo que o capitalismo poderá estar a derivar para o «tecno-feudalismo» (termo cunhado por Varoufakis versus Elon Musk).  Parte significativa dos políticos são cada vez mais «telecomandados» pelo poder económico. Os cidadãos, em geral,  via da eficaz «anestesia» que os grandes meios de (des)informação fornecem, foram transformados em receptores passivos, sem que disso se apercebam, constituindo-se como uma massa humana  complacente e acrítica. 

Como incentivar os cidadãos a redescobrir o espírito cívico e os meios para aceder plenamente à Liberdade, Igualdade e Fraternidade, através duma democracia consistente e actuante? Como voltar a fortalecer as Democracias?

Em nossa opinião deverá surgir e afirmar-se uma nova geração de políticos cultos, competentes  e éticamente determinados (substancialmente diferentes de parte da maioria actual), o que passará pela inevitável regeneração dos aparelhos partidários actuais e/ou surgimento de novos partidos com ideias democráticas mais  «clean»  (limpas),  abrangentes e sustentadas e em cuja formação a Maçonaria poderá / deverá ter um papel fundamental, pela «inoculação» dos seus valores universais e eventual  mobilização e formação de cidadãos mais cultos, conscientes e activos, nunca abdicando da qualidade em detrimento da quantidade.   


IV – E a Maçonaria?

Do atrás exposto afigura-se-nos essencial que a  «velha» Maçonaria adogmática e liberal se una cada vez mais e sobretudo se reforce, em vez de se dispersar, pois tem aqui um campo primordial de intervenção, para que a Liberdade,  Igualdade e a Fraternidade subsistam e a Humanidade progrida, tirando partido eficiente e livre dos novos meios e desenvolvimentos tecnológicos de que poderá dispor. 

No nosso país, sendo a nova vaga de cidadania cada vez mais académicamente qualificada, poderá representar também, se não continuar a ser obrigada a emigar,  uma oportunidade essencial para a Maçonaria estar mais activa na Sociedade, já que compete aos maçons defenderem consequentemente os seus princípios,  desmascarando, combatendo e anulando prioritáriamente as ameaças totalitárias, resultantes da falta de solidariedade e apoio aos mais pobres e fracos (crianças, desempregados, idosos), à planeada regressão social e porque não, ao meio ambiente, que  a todos afecta, modelo corrente para os ideólogos do  ultra-liberalismo. 

Uma Força de baixo para cima tem de emergir ainda mais, a partir das LLoj:. e será sómente pela união e parceria que a Maçonaria poderá exercer uma acção bastante maior, como lhe compete, a nível da Sociedade, já que no passado andou «sempre à frente do seu tempo». 

Será com trabalho e realizações em prol da sociedade, valorizadas e reconhecidas pelos cidadãos,  que os corpos dirigentes e toda a Maçonaria em geral,  serão obrigados a enquadrar-se, pensando menos na utilização e exibição das suas ricas alfaias e mais nos Homens e Mulheres que terão de envolver, na contribuição possível para a resolução dos problemas mais graves que afectam a sociedade e a  humanidade em geral.

Haverá templos maçónicos como os conhecemos hoje? Terminarão as guerras? Haverá paz e compreensão entre os homens? O ser humano vencerá a «besta» que tem dentro de si?  Vencerá a agressividade, a vaidade e a vã ganância de poder? [8]

Os cientistas admitem que no homem o potencial mental utilizado  esteja em 10% ou até menos, do total e que a capacidade mental poderá chegar até 40 a 50%. E quando o homem tiver todo este poder mental não se julgará Deus ou o G.A D.U? Ou será o contrário? Quando o homem tiver esta capacidade mental ele tornar-se-à  melhor, compreendendo que as guerras são inúteis. Vencerá a ancestralidade animal que tem dentro de si? [8]. Todavia, isto é  apenas especulação, pois até lá ainda muita água irá correr… . 

A Loja, além do inesgotável espaço de liberdade que representa, é também um lugar onde se transmite uma Tradição, e onde se espera que os mais velhos a continuem a propagar e representar, interpretando-a e comunicando-a aos mais novos, através do ritual. 

Sendo a transmissão individual e cada um de nós diferente, ninguém caminha à mesma velocidade, nem no mesmo nível de desenvolvimento. Isto nada deverá a ter com escalas de valorização maçónica individuais, já que cada um é essencial para a construção do edifício do seu templo. Todos os Maçons são pedras indispensáveis na construção do  Templo comum, e se houver uma ou outra pedra fraca ou deficientemente enquadrada, as restantes devem consolidá-la. Quando não existe igual acesso ao conhecimento (diferente em cada Irmão), tem de existir respeito e atenção,  harmonizando o anseio de progressão geral do colectivo, com o individual de cada Irmão.  

E por último, óbviamente, o nosso lema: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. 

A loja é soberana e orienta-se pelo princípio "um homem livre numa loja livre". Todas as responsabilidades são claramente delimitadas e electivas. Todos os irmãos Mestres são elegíveis para os diferentes cargos. O poder dos oficiais dignatários é muito limitado e as decisões são colegiais. Os Estatutos e Regulamentos da loja (que não podem contrariar, mas sim complementar, os da Obediência)  são votados pela loja e nenhum oficial tem autoridade para os modificar.  A liberdade de expressão de todos está no centro do sistema. 

Pelo tradicional método de "concessão da palavra", todos têm (ou irão ter) a oportunidade de se expressar no espaço do Templo. Apenas as ideias podem ser contraditórias, como seria de esperar num conjunto de «homens livres e de bons costumes». O aspecto contraditório destes discursos ilustra um elemento muito importante do aspecto democrático da nossa Ordem: ninguém é obrigado a fazer ou dizer o que a sua consciência lhe nega, ou a defender o ponto de vista da maioria.

No Regulamento Geral da N:.A:.O:., [15] os pilares da organização democrática estão estabelecidos com uma separação clara dos três poderes: legislativo, executivo e judiciário. 

Por outro lado, parece-nos mais difícil associar democracia e Iniciação, ou seja no fundo democracia com Tradição.

A Iniciação é uma cooptação e, portanto, não é em essência democrática. Porém, é a Loja como um todo que vota sobre a aceitação de novos membros e, neste pormenor, não há diferença com a  eleição por sufrágio universal.

O único elemento alheio às exigências usuais da democracia é, para o profano, o caráter anónimo dos seus sindicantes. Isso pode ser muito sério quando (pelo menos) um irmão da loja levanta objecções e o profano, na ignorância  de quem o acusa e de que é acusado, não se pode defender. O trabalho dos irmãos sindicantes deve esclarecer a Loja para o estabelecimento da verdade e, assim, permitir que todos julguem com consciência e conhecimento de causa.

Outro resultado significativo das novas tecnologias na Maçonaria é o surgimento das chamadas “Lojas Maçónicas Virtuais”. Estas operam online, permitindo que maçons de   regiões se conectem em tempo real, independentemente da localização geográfica. A pandemia de COVID-19 acelerou a adopção destas plataformas, mostrando que a Maçonaria pode, sim, manter a sua fraternidade e alguns laços de ritualística, à distância.

A premissa de uma loja maçónica online, no entanto, é um tema controverso. Uma maioria significativa de maçons defende que o ambiente digital não é capaz de reproduzir a sacralidade e o simbolismo da interacção face a face, que é um dos pilares da prática maçónica, sendo essencial que as reuniões devam ser presenciais, para fortalecer os laços fraternais e a cadeia de união entre Irmãos. Além disso, os rituais e a experiência de pertencimento a uma loja física, com a presença dos Irmãos, são vistos por muitos como aspectos insubstituíveis. Outros contrapõem, argumentando que a virtualização pode abrir portas para um novo tipo de fraternidade global, acessível a pessoas que, por motivos de distância, doença, idade ou outros factores, não teriam como participar numa loja tradicional. 

As redes sociais e as suas plataformas, por sua vez, têm sido um campo de tensão para muitas instituições tradicionais, e a Maçonaria não é excepção. Enquanto a maior parte das LLoj:.  prefere manter uma postura discreta nas redes sociais, outras têm adoptado uma abordagem mais aberta, utilizando plataformas da Google, Microsoft e  ainda o Facebook, Instagram e YouTube para divulgar as suas actividades. (a N:.R:.L:.,  mantem um Blog específico, desde há 15 anos, em que parte significativa dos leitores são fora do país).

O uso de redes sociais tem gerado debates sobre como equilibrar a transparência com o respeito à privacidade e aos mistérios da fraternidade. Se por um lado a presença nas redes pode ajudar a desabar mitos anti-maçónicos e promover a imagem positiva da Maçonaria, por outro lado, existe a preocupação de que a exposição pública excessiva possa enfraquecer o carácter reservado, discreto e exclusivo da Instituição. Vejam por exemplo como, apesar de tanta informação credível  já estar «on-line»,  continuam a ser sistemáticamente propagados factos falsos sobre a nossa sublime Ordem, na maioria dos meios de comunicação, sobretudo nos afectos à extrema-direita e a facções religiosas mais dogmáticas (mas não só). 

As novas tecnologias, se criteriosamente aplicadas, têm um papel fundamental na educação e na melhoria contínua, que são valores fundamentais da Maçonaria. Nesse sentido, oferecem oportunidades excepcionais para o crescimento pessoal e intelectual dos maçons. Plataformas de ensino a distância, cursos online e até Blogs confiáveis, permitem que os membros se aprofundem em áreas como filosofia, história, moralidade, e ética, sem as limitações físicas de encontros presenciais, proporcionando um aperfeiçoamento continuo.

Além disso, a Maçonaria tem aproveitado os recursos das tecnologias para promover o debate e a reflexão. Ferramentas como fóruns, grupos de discussão e até podcasts têm servido como meios para que os maçons compartilhem as suas ideias e discutam temas relevantes, mantendo viva a tradição da aprendizagem colectiva.

Assim sendo, a Maçonaria vê-se diante de uma questão fundamental: como conciliar a sua rica tradição com os avanços tecnológicos? A resposta a essa pergunta será, sem dúvida, um dos maiores desafios da fraternidade no futuro, a médio prazo. O mais importante, no entanto, é que, como sempre, os maçons continuarão a buscar o equilíbrio entre o antigo e o novo, entre o passado e o futuro, mantendo viva a chama da fraternidade e do saber.


V – Concluindo

A atualização da Maçonaria face à sociedade contemporânea é um tema recorrente e relevante, sobretudo num contexto de rápidas transformações sociais, tecnológicas e culturais. 

A Maçonaria, enquanto instituição iniciática e filosófica com raízes históricas profundas, enfrenta hoje o desafio de se manter fiel aos seus princípios fundamentais, ao mesmo tempo que dialoga com uma sociedade em constante mudança. Em nosso entender as àreas primordiais a ter em atenção, para um maior sucesso no cumprimento dos objectivos que nos orientam e sustentam, serão as seguintes:

.1 - Tradição e Modernidade

A força da Maçonaria reside na sua tradição simbólica e ética. No entanto, tradição não deve significar imobilismo. A atualização passa por interpretar os símbolos e ensinamentos à luz dos problemas actuais, como a crise de valores, a fragmentação social, a crescente concentração de riqueza em cada vez menos e as decorrentes desigualdades sociais cada vez mais gritantes, bem como a crescente perda de sentido comunitário.

.2 - Cidadania, Ética e Responsabilidade Social

A Maçonaria deve poder continuar a afirmar-se como espaço de formação ética, reflexão crítica e intervenção cívica, promovendo debates e outras acções sobre democracia, liberdade e direitos humanos, ciência, educação e sustentabilidade. Particular atenção deve ser dada ao desmontar dos argumentos e propaganda da extrema-direita, que têm tido crescente aceitação nos meios mais jovens e menos qualificados. Em resumo, a Maçonaria pode e deve contribuir para uma democracia mais saudável e sustentável.

Ao lado um feliz exemplo de um cartaz do GOdF que consideramos oportuno e esclarecedor quanto a alguns destes pontos - «A Maçonaria uma ideia Moderna !» ou seja transmitindo a actualidade da Maçonaria.

.3 - Sociedade Digital e Comunicação

Num mundo dominado pela informação instantânea e pelas redes sociais, a Maçonaria é desafiada a melhorar a sua comunicação externa, combatendo preconceitos e desinformação, sem abdicar da necessária discrição. Transparência institucional, sem quebra do carácter iniciático, será um factor de afirmação e de credibilidade.

.4 - Espiritualidade num Mundo Secular,  Diversidade e Inclusão

Num contexto mundial cada vez mais materialista e imediatista, a Maçonaria pode oferecer um espaço de espiritualidade laica centrada no aperfeiçoamento moral do indivíduo, no autoconhecimento e na construção simbólica do sentido da vida, sem dogmatismos. A sociedade contemporânea valoriza a diversidade cultural, social e geracional. A atualização da Maçonaria passa por uma reflexão séria sobre inclusão (que no passado ano a N:.A:.O:. acabou finalmente por concretizar), rejuvenescimento dos seus quadros e diálogo inter-geracional, garantindo que valores universais sejam vividos de forma coerente no presente.

.5 - Educação Contínua e Pensamento Crítico

A atualização da Maçonaria face à sociedade não implica renunciar à sua identidade, mas tão somente reafirmar os seus valores universais, tornando-os inteligíveis e operativos no mundo contemporâneo. Ao fazê-lo, a Maçonaria pode continuar a ser uma escola de Humanidade, Ética e Liberdade, relevante tanto para os seus membros como para a sociedade em geral.

A relação entre a Maçonaria e as novas tecnologias é complexa e multifacetada. Por um lado, as tecnologias oferecem vantagens significativas, como a melhoria na comunicação, o acesso a vasta bibliografia e recursos educativos e a possibilidade de expandir a fraternidade além das fronteiras geográficas. Por outro, a preservação dos valores centenários da Maçonaria, como o simbolismo, o ritual e a discrição, exige uma abordagem cuidadosa e equilibrada. A Maçonaria do futuro terá que aprender a navegar entre a tradição e a inovação, aproveitando as novas ferramentas sem comprometer os princípios que a tornaram uma instituição respeitada ao longo de séculos, como por exemplo articular sessões virtuais com as presenciais (o que dada a elevada média etária da N:.A:.O:., a par da crescente falta de espaço nas instalações centrais, poderá representar uma solução mais integradora, com as vantagens inerentes).

Como correctamente salienta Marques da Costa [16]: “É tempo de deixar de olhar para o passado. É tempo de sair da clandestinidade em que todos nos confinamos há demasiado tempo sem o que a Sociedade saiba o que somos, nas nossas diversas vertentes, na rica diversidade que nos caracteriza”. É pertinente tentar encontrar o ponto de equilíbrio para tal nos seja possível.   

A feroz globalização desenfreada e os  desiquilíbrios que colocou às sociedades ocidentais, cadinho dos avanços da extrema-direita, são uma ameaça cada vez mais pertinente na Europa e no mundo. Contudo poderão representar, em nossa opinião,  uma oportunidade essencial para a Maçonaria  evidenciar a modernidade dos seus valores, no sentido  que indicámos anteriormente, estando sobretudo "mais perto", entranhando-se nas organizações e instituições da Sociedade (à semelhança, com as devidas diferenças, do caminho encetado para a nossa 1ª República), «inoculando» os seus valores e princípios e sempre com o peso da qualidade do recrutamento  sobrepondo-se inequivocamente à quantidade

Seguindo a seu modo, um dos principais conselhos da escola estoica, devemos aprender a concentrar a nossa atenção naquilo que de facto influenciamos, as nossas atitudes e acções, num mundo imprevisível e em constante mutação (que não depende de nós), frequentemente com circunstâncias incontroláveis como eventos naturais, acções de terceiros ou decisões alheias. Os meios de comunicação são ferramentas fundamentais, a forma como serão utilizadas é a grande questão.

Será com trabalho e realizações em prol da sociedade, valorizadas pelos cidadãos,  que a Maçonaria, em geral, será obrigada a enquadrar-se, pensando mais nos Homens e Mulheres, e na contribuição possível para a resolução dos problemas mais graves que afectam a sociedade e a  humanidade em geral.

A Loja, além do formidável espaço de liberdade que representa, será sempre um lugar onde se transmite uma Tradição, e onde se espera que os mais velhos a representem, interpretem e comuniquem aos mais novos. 

Termino ainda com Churchill: “É inútil dizer que estamos a fazer o possível. Precisamos de fazer o necessário”, e principalmente: “Qual o valor de viver, se não for lutar por causas nobres e tornar este mundo confuso um lugar melhor para aqueles que viverão nele depois de termos partido?”.  Esperemos sinceramente que estas afirmações se ajustem ainda mais ao futuro, ou no mínimo, que continuemos a trabalhar a pedra bruta, transformando-a na pedra polida dos novos Templos que permitirão ajustar, redesenhar, ou até restaurar os actuais, actualizando-os,  sem contudo os destruir. 

Será que iremos a tempo?

Salvador Allende  M:. M:.

(Maio.2025 e:.v:., revisto a Fev.2026 e:.v:.)


Bibliografia

1 - “Dicionário da Antiga e Moderna Maçonaria” – Manuel Pinto dos Santos, Lisboa 2012
2 – “Democratie et Franc-Maçonnerie”  – L´Edifice.net@ledifice.net»”  – s/ autor expresso («X.M.»)
3 – “La Symbolique Maçonnique du Troisième Millénaire” - Mainguy,  Irène -– Éditions Dervy, 2006, Paris
4 – “Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” – Daniel Ligou,  Éditions PUF, 2015 (3ªÉdition), Paris
5 – “L’Apprentissage Maçonnique - Une École de L’éveil» - Béresniak, Daniel, Éditions Detrad – 2009, Paris
6 – “Le Petit Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” -  Guy Chassagnard – Éditions Alphée, 2005
7 – “O Mundo de Amanhã – Geopolítica contemporânea” – Carlos Gaspar – Fundação FMS
8 –  “Avanços Tecnológicos e o Futuro da Maçonaria“ – Hercule Spoladore - Revista digital “ACML News” nr.3,      20.Ago.2017
9 – “Grand Orient.- las vérités do G.M. do GOdF” - ALain Bauer – Éditions Denoel, 2002.
10 – Salvador Allende M:.M:.  - “A Maçonaria no Século XXI - algumas Interrogações” – (Blog “Compasso  & Esquadro”)
11 – Salvador Allende M:.M:. - “A  integração nas Obediências  «Liberais» e a questão da «inclusão Feminina»  – (RL:. Salvador Allende - GOL) - Set.2022
12 – Salvador Allende M:.M:.  - “Para uma nova Ética Social em Pleno Século XXI” – (Blog ““Compasso  & Esquadro””) – Ago.2022
13 – Salvador Allende M:.M:. - “A Maçonaria no Século XXI - algumas Interrogações” – (blog ““Compasso  & Esquadro””)
14 – - Salvador Allende M:. - “Desafios que se colocam à Maçonaria e à NAO:. No Século XXI M:. (blog “Compasso  & Esquadro”)    Abril.2025
15–  GOL – Regulamento Geral 
16 – “A Virtude da Diversidade e o porquê da sua  Inevitabilidade” – Fernando Marques da Costa  – in «Revista de Maçonaria» Nº 5 – Nov.2022 - Lisboa

 


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