Companheirismo e Maçonaria - origens e relacionamentos ?
Com a devida vénia e autorização Blog «Comp&Esq», consultámos o respectivo baú de memórias e publicamos o trabalho seguinte:
I – Introdução
Existem muitos maçons que consideram o Companheirismo («Compagnonnage») como uma organização cuja origem é comum ou de certo modo associada à Maçonaria, interpretando-a frequentemente como uma extensão desta, enquanto outros, sobretudo no exterior do espaço francês. práticamente a desconhecem.
As perguntas que mais frequentemente surgem sobre o “Compagnonnage” incidem sobre o seu grau de parentesco com a Maçonaria, já que para os não Iniciados (e mesmo para muitos maçons) a confusão entre as duas organizações e a sua origem, é razoável. Com o objectivo de clarificar algumas dúvidas, recorremos a diversas fontes bibliográficas (especialmente às indicadas no apêndice final), e a um dos mais conceituados estudiosos actuais do «Compagnonnage» (J.-Michel Mathonière), para dar corpo às notas que se seguem.
Todavia mesmo para os que sabem, ou julgam saber, quem são os Companheiros («Compagnons» em francês) e de onde vêm, é interessante e curioso rever a sua história. Eram (e ainda são) construtores e a sua história, na Europa, está ligada ao extraordinário florescimento das grandes construções, a partir do final do período Romano, especialmente com a edificação dos edifícios góticos.
De que modo podemos dizer que existe parentesco ou herança com a Maçonaria, já que esta se refere apenas a homens e mulheres do pensamento? E existindo, será do Compagnonnage para a Maçonaria, ou vice-versa?~
Óbviamente e numa primeira abordagem, salienta-se a convergência entre as palavras Companheiro e Maçonaria, já que ambas dizem respeito aos construtores e talhadores de pedra para os grandes edifícios, provenientes do período franco-gótico.
M. Pinto dos Santos [3], indica que o “Companheirismo» é «uma organização laboral com características específicas, que se assemelham às práticas maçónicas, a qual se desenvolveu fundamentalmente em França – mesmo antes do surgimento da Maçonaria especulativa do século XVIII, onde é conhecida pelo termo de «Compagnonnage»”.
Em sentido estrito é o nome dado à associação de artesãos, em princípio pertencentes ao mesmo ofício, tendo como objectivo o aperfeiçoamento dos seus membros, quer ao nível profissional, quer espiritual e moral.
Primos ou Irmãos serão os Maçons e os Companheiros originários de uma mesma e antiga confraria? Apesar de serem numerosos os adeptos da Arte Real que assim pensam, curiosa e contrariamente, os Companheiros estão certos do oposto, já que pensam serem eles os verdadeiros herdeiros da tradição.
Segundo Guy Chassagnard (1), “A Maçonaria não descende do «Compagnonnage»; este não tem ligação directa e não mantem uma ligação amigável com a Maçonaria. Contudo, estas duas instituições decorrem das mesmas profissões operativas da época medieval, apresentando deste modo numerosas similitudes”.
Um número significativo de Irmãos admite mesmo que a Maçonaria teria pedido emprestado ao Companheirismo a maioria de seus graus azuis… O facto de que, durante algum tempo, os historiadores destas duas sociedades tivessem combatido essa ideia, perturba esses espíritos, sem contudo conseguir fazer tábula rasa daquelas ideias.
Já Daniel Ligou (4) afirma que, “Na Idade Média o desenvolvimento das cidades sedentarizou no seu conjunto, uma parte dos construtores, o que deu origem ao nascimento das corporações. Para construir um catedral tornou-se necessário, face à quantidade de mão-de-obra necessária, fazer apelo a mão-de-obra e competências exteriores. Tornaram-se inevitáveis os conflitos de interesse entre sedentários, que detinham o privilégio do emprego e da ascensão à Mestria, condição indispensável para se estabelecerem, e os itinerantes. São os traços destes conflitos que balizam a história do «Compagnonnage», depois da Renascença até ao final do Sec. XIX, onde a defesa dos trabalhadores será retomada pelos sindicatos. As únicas armas dos Companheiros eram a greve, a ruptura com o canteiro e o controlo do estaleiro”. E mais à frente:
Os itinerantes não podiam fechar-se no quadro estrito da corporação, que os Mestres pretendiam tornar exclusiva. A necessidade de criação de associações particulares originou o «Compagnonnage». Deste modo os itinerantes encontravam mãos fraternas, rostos amigos, por todo o lado onde se deslocavam. Asseguravam-lhes socorro e o pão em caso de necessidade, longe dos seus e da sua região ou país. Alguns raros documentos revelam-nos a sua existência discreta. O «Compagnonnage» é uma forma de iniciação baseada numa profissão com ligações fraternais: sem a profissão, é a Maçonaria, sem os ritos, o sindicalismo”.
Os Maçons continuam fascinados pelos descendentes dos construtores de catedrais, que seriam os Companheiros, uma tradição que permanece, mas que continua a ser vista historicamente em termos de filiações iniciáticas. Sem voltar aos velhos tempos, face aos quais faltam drásticamente arquivos e documentação, qual é exactamente a relação entre o Companheirismo e a Maçonaria, para além de serem duas Ordens Iniciáticas, a primeira aparecendo como operativa e a segunda como especulativa?
Os membros do “Compagnonnage” são submetidos a um processo de iniciação que os leva a fazer uma volta ao longo da França, no sentido do ponteiros do relógio, ou seja numa óptica solar. Ao longo do percurso, durante as “cayennes” (pousadas), os candidatos fazem a sua formação profissional e ouvem os mestres, aprendendo os segredos da profissão. O Companheiro investido recebe um bordão ou cajado e um alforge, como instrumentos simbólicos necessários à sua viagem.
A literatura companheirística é muito reduzida, se comparada com a existente sobre a Maçonaria. Antes dos livros de Agricol Perdiguier (1805-1855), as publicações são raras e, por exemplo, a Enciclopédia de Diderot ignora-lhes a existência.
II – Origens do «Compagnonnage» e as «proximidades» face à Maçonaria
Os Companheiros europeus remontam lendariamente a sua origem à construção do templo de Jerusalém, por Salomão. Dividiam-se em três organizações denominadas de “Deveres” (“Devoirs”), assumindo cada uma regras particulares que juravam observar e cumprir, e que deviam permanecer secretas, só sendo reveladas aos iniciados. Os três ramos dos “Deveres” eram os dos «Filhos de Salomão», dos «Filhos do Mestre Jacques» e o dos «Filhos do Pai Soubise».
Duma maneira geral os Companheiros são hostis à Maçonaria, que reprovam, pois acusam-na de ter-se apoderado dos «seus» ritos e os «seus» símbolos. Entretanto tudo parece indicar exactamente o contrário, ou seja, que terá sido a Maçonaria que forneceu ao «Compagnonnage» as suas últimas formas de iniciação. Talvez possamos de certo modo afirmar, como Jean-Pierre Bayard (5) que “para ser justo, houve interpenetração recíproca”.
Porque o esquadro e o compasso figuram e são preponderantes na simbologia maçónica, muitos irmãos concluem, demasiado rapidamente, pela existência de uma similitude entre as duas instituições. Na realidade o «Compagnonnage» é bastante anterior à aparição da Maçonaria [especulativa]… Companheiros e Maçons são essencialmente diferentes, pelo simples facto do «Compagnonnage» não aceitar no seu seio a não ser profissões manuais (4).
Ainda segundo Guy Chassagnard (1), “o «Compagnonnage» é herdeiro directo das guildas e das confrarias das profissões da Idade Média. Contudo estas confrarias, sobretudo em França, não eram mais do que o prolongamento das associações iniciáticas dos talhadores de pedra e dos carpinteiros do Império Romano – estas sociedades «compagnonniques» comportavam 3 graus: «Noviço ou Aspirante», «Companheiro recebido» e «Companheiro completo»”.
Os ritos do Companheirismo incorporaram frequentemente um cerimonial próximo ao da Maçonaria, especialmente os da «audição sob venda» e da Iniciação.
O nome comum Maçom (de «franc-maçon», em francês) designa o trabalhador que realiza uma construção e o adjectivo “franc” significa o que não é sujeito ao pagamento duma taxa ou imposto, o que qualifica o Maçom. Deste modo, no seu significado original, Maçom é um trabalhador livre e independente.
Segundo Alain Bouchet (6), esta particularidade foi reconhecida pelo Papa Nicolau II (1277) e aprovada por Bento XII (1334). Foi em 1082 que Guilherme, Bastardo da Normandia e rei da Inglaterra, a conselho de Hugues - abade de Cluny, fez o primeiro ensaio do Compagnonnage em França e em Inglaterra, quando lançou as construções de St. Etienne de Caen, da Basílica de Hastings e a primeira catedral românica de Bayeux, ao mesmo tempo que foram simultaneamente criadas uma escola de corte e lapidação da pedra e escultura, no Mont Saint-Michel. No entanto, não foi senão em 1098, quando Robert de Molesne fundou a abadia de Citraux , que São Bernardo deu início a uma forma de Compagnonnage : "As Confrarias / Irmandades".
Fez os seus monges construtores adoptar as sete virtudes antigas das Artes Liberais: "Gramática, Retórica, Aritmética, Dialética, Astronomia, Geometria e Música". E é em Fontenay, numa das 70 comunidades que totalizavam as 164 abadias, que os esforços de síntese referentes à Arte Real (arquitectura ogival/gótica) se desenvolveram, antes da Segunda Cruzada de 1146. Criou-se então uma Ordem designada por "Saint Devoir de Dieu", que incluia trabalhadores que tinham rompido com o trabalho árduo da engenharia militar, construtores de pontes, pedreiros, carpinteiros e escultores / talhadores de pedra . Estes trabalhadores foram formados e iniciados em Fontenay, no conhecimento das leis da geometria plana, que o grego Euclides, deixou entregues à posteridade.
Os monges de Cister utilizaram e aperfeiçoaram os gráficos de geometria prática para desenvolver esquemas e desenhos de interpenetração de volumes. A "Ciência da linha" nasceu. Ciência gráfica, aparentemente livre de todas as noções aritméticas ou matemáticas. A sustentabilidade do Compagnonnage não poderia ser exercida a não ser pela magia que sempre exerceu e exerce hoje a Linha, arte que permite ao companheiro iniciar-se no traçado e na delimitação de volumes no espaço. A Linha é o símbolo da justiça e equilíbrio.
Ainda Segundo Alain Bouchet (6), a passagem das Confrarias sob S. Luis (1214/1240) ao Compagnonnage actual, é sómente com Filipe IV - O Belo, que aquele se desenvolve. Isto é essencialmente devido à cisão de ritos que ocorre em 1307. Com efeito, se o Rito de Salomão continua a ser o dos Companheiros do Dever da Liberdade (“Gavots”), tornou-se o Rito do Mestre Jacques para os companheiros do Dever (“Dévoirants”) e o Rito de Soubise para os talhadores de pedra do Santo Dever de Deus (“Bon Drilles du Tour de France”) e também para os chamados honestos companheiros (“Honnêtes Compagnons”).
É possível que as primeiras formas de «Compagnonnage» tenham surgido entre o princípio do século XII e o final do século XIII, entre os artesãos e os corpos de ofícios, então numerosos, em torno das grandes igrejas góticas. Mas podemos falar já realmente de Maçonaria [operativa]?
Parece que uma ou mais das associações antigas têm características semelhantes às do «Compagnonnage», especialmente na sua infância e que, talvez na origem, tenham formado com ele uma única e mesma associação. É deste modo que se define a Maçonaria [Operativa]. É por isso possível datar a primeira Loja maçónica operativa na altura da construção da Catedral de Estrasburgo, em 1276.
O abade Grandidier escreve a esse respeito [6]: "A Nossa sociedade de Maçons não é mais do que uma imitação antiga e útil da sociedade de verdadeiros pedreiros anteriormente estabelecida na Alemanha e cujo lugar principal foi Estrasburgo". Além disso, sabemos que uma Assembleia Geral se reuniu em Ratisbonne, em 25 de Abril de 1459, onde o “Regulamento Geral da Maçonaria” foi votado.
Um pergaminho era então entregue ao trabalhador sob os arcos em construção das primeiras catedrais ou sob o labirinto de Salomão. Este folheto era assinado com o seu sangue.
Em algumas "Cayennes et Coteries" (pousadas) [6], para um companheiro entretanto falecido, com forte reputação de competência, e também pelo sentido de dever e qualidades morais, este documento será queimado sobre um jarro de vinho e as cinzas misturadas com néctar. Todos os novos aspirantes, novos companheiros e os Companheiros completos, irão beber esta poção para absorver as qualidades profundas do Companheiro falecido.
O facto de não existir em França nenhum vestígio da Maçonaria entre os séculos XII e XV, não prova que ela não existisse. Enquanto sociedade secreta, ela foi capaz de prescindir de deixar arquivos e vestígios. Nesse sentido surge a ideia dum «deslizamento» natural do Compagnonnage à Maçonaria. Em paralelo, devemos ter em atenção que a construção de grandes igrejas góticas está então quase concluída, o que não deixa de suprimir trabalho, pelo que as Irmandades de São João encontrarão cada vez menos locais onde possam realizar trabalho.
A guerra religiosa, a partir do cisma luterano, desorganiza as antigas corporações construtivas, que ameaçam desaparecer, não tendo mais motivo de existência. Deste modo as Confrarias Maçónicas ter-se-iam dissolvido em toda parte, excepto na Escócia, Grã-Bretanha e adicionalmente a Irlanda, onde reina e continua a manter-se, um estado de espírito favorável à sobrevivência e ao respeito pelas tradições antigas.
É naqueles dois países que, sobretudo durante o século XVII, as corporações de Maçons livres irão tornar-se aceleradamente corporações de Maçons aceitos, sendo estas últimas progressiva e rápidamente mais numerosas. É neste contexto que nasce a Maçonaria dita moderna, desprovida das raízes e objecto iniciais. Desde logo a Maçonaria anteriormente operativa, torna-se maioritáriamente puramente filosófica e, portanto, especulativa.
A Arte Real colocou-se portanto a construir essas novas e quantitativamente imensas catedrais de novo tipo, que são os seres humanos, trabalhando para o seu aperfeiçoamento moral e espiritual. A Maçonaria moderna não esqueceu algumas das qualidades morais em uso entre os maçons de profissão e que são: a coragem, fortaleza, amor à arte, virtude da fidelidade a um estilo de vida e a fraternidade entre os companheiros do mesmo ramo - estendendo contudo essa fraternidade a toda a humanidade.
Segundo Jean-Michel Mathonière [2], a chegada da Maçonaria especulativa e a evolução das mentalidades, sob a Revolução francesa, vão abalar a estrutura ritual do «Compagnonnage», que se tinha mantido estável até final do século XVIII. Naturalmente, os Companheiros tentarão dar aos seus ritos e lendas a moda e a mentalidade do seu tempo, e enriquecê-los com muitos detalhes e aventuras.
Devemos ressaltar que, precisamente, apesar das precauções de oratória em relação à Maçonaria, os detalhes que são dados sobre vestir um avental e a decoração do templo são empréstimos puramente maçónicos [2]…
O substrato cultural comum - na verdade, o primeiro erro a ser cometido quando se discute esta questão - sensível do parentesco entre a Maçonaria e o Companheirismo é considerá-la como um todo homogéneo. Ora, não é este absolutamente o caso, especialmente se andarmos à volta no tempo. Análogamente à Maçonaria, é mais apropriado falar de companheirismos, no plural.
III – O «Compagnonnage» e a Maçonaria, do Séc. XVIII à actualidade
Serão os «empréstimos» da Maçonaria, verificados a partir de finais deste século XVIII, o resultado do fenómeno da dupla filiação? Ao fazê-lo, os Companheiros teriam reconhecido a anterioridade da tradição maçónica sobre a sua própria?
Não havia necessidade dos companheiros com “dupla filiação” (companheirística e maçónica) trairem os seus juramentos maçónicos, uma vez que desde o final do século XVIII era possível, para quem soubesse ler, encontrar em bibliotecas a essência dos rituais maçónicos. E muitos Companheiros sabiam ler …
Segundo J.-M. Mathonière [2], existem nas bibliotecas, como testemunho, exemplares clássicos tais como obras de Guillemain de Saint Victor, revestidas de ex-libris companheirísticos. Um pouco mais tarde, eles farão da pitoresca história da Maçonaria e das sociedades secretas antigas e modernas de Clavel (1843) um dos seus livros favoritos, como evidenciam os empréstimos que fazem as estampas companheiristicas dessa época, nas gravuras magníficas que ilustram essa obra (cf. Laurent Bastard, “Imagens dos Companheiros do Tour de France”).
Não é inútil recordar que, antes dos nossos dias, as potências maçónicas e as sociedades de companheirismo não tinham qualquer ligação. Simultâneamente, um grande número de companheiros cultivam um anti-maçonismo pelo menos sólido – atitude herdada do período do regime de Vichy, durante o qual o companheirismo francês conheceu uma profunda revolta e muitas dissensões.
Deste modo, num grande número de Sociedades do Dever, a dupla filiação é estritamente proibida, e a descoberta de que esta regra foi violada, leva à expulsão. Noutros companheirismos, esta é uma escolha que se enquadra, felizmente, na esfera da liberdade individual e não provoca outra observação que não seja a de avisar o companheiro que se quer tornar maçom, da dificuldade que poderá encontrar para cumprir todas as suas obrigações, tanto companheiristicas como maçónicas, quanto familiares [2]. Sábia atitude …
Ainda de acordo com J.-M. Mathonière [2], observa-se também que a dupla filiação é, por assim dizer, tradição em alguns círculos da União de Companheirismo (muitos de seus fundadores, em 1889, eram maçons), enquanto que é mais rara no seio da Federação de Companheirismo de Ofício da Construção, inclusive junto aos “Gavots” (Companheiros carpinteiros e serralheiros do Dever da Liberdade, às quais era filiado o famoso Agricol Perdiguier, ele próprio iniciado na Maçonaria em 1845).
Voltando ao passado, esse fenómeno de dupla filiação sofreu mudanças substanciais, dependendo do ofício e dos ritos dos companheiros, e também decorrente dos períodos. Assim, ao longo do século XIX, a filiação à Maçonaria é muito comum, se não quase sistemática, entre os canteiros Companheiros Estrangeiros (o ramo que se afirma de Salomão), enquanto relativamente comum entre os canteiros Companheiros Itinerantes (o outro ramo, o dos “filhos” Mestre Jacques) antes da Revolução de 1789. Contudo sob o Império, ela torna-se muito rara, mesmo entre os Companheiros carpinteiros, onde a dupla filiação é moeda corrente entre os “Índios”, sem ser desconhecida entre os “Soubise“ [2].
Quais eram as razões para a dupla filiação no passado? Trata-se do reconhecimento implícito de um parentesco? J.-M. Mathonière [2] afirma inequivocamente que não.
Dois casos principais parecem emergir a partir do estudo de algumas fontes documentais: de um lado, é um facto relativamente bem conhecido, a partir de meados do século XIX, o desejo dos Companheiros que concluíram seu “Tour de France” de cultivar uma sociabilidade fraterna baseada em símbolos em parte comuns, já que não teriam, nessa altura, mais contactos com a sua sociedade. Por outro lado, facto que ainda não foi provado, contribuiria também a necessidade dos artesãos itinerantes terem um máximo de “rede”, a fim de lidar com os perigos do Tour de France.
Ainda segundo Jean-M. Mathonière [2], “claramente, muitos Companheiros do início do século XIX ingressam na Maçonaria, antes mesmo da sua partida [para o Tour de France], no caminho ou durante o mesmo, não só para ter uma rede de assistência mútua – esta é a vocação primária das sociedades de companheirismo - mas duas! Numa cidade onde o companheirismo não tem uma pousada / sede ( “cayenne”) e onde não podem receber garantia de caminho seguro se estiverem sem emprego, resta-lhes ainda o recurso à fraternidade maçónica … Juntemos a esses dois motivos, no período do Império, o ingresso na Maçonaria através de lojas militares, já que muitos Companheiros passaram pelas forças armadas”.
Se é indiscutível que o emblema básico - esquadro, régua e compasso entrelaçados - acompanhado nos Companheiros de outros elementos que caracterizam o ofício, foi usado por algumas corporações, desde antes da chegada da Maçonaria a França, é importante não ver nisso uma indicação de uma a influência de uma sobre a outra, e muito menos ainda a prova de uma origem Companheiristica da Maçonaria.
Os Companheiros, bem como os Maçons, utilizavam esse símbolo para se referir à quinta Arte Liberal, a Geometria, o que era fundamental tanto para uns como para os outros. Porquê considerar este símbolo comum como uma indicação dum parentesco orgânico, quando é simplesmente um dos sinais da existência de um substrato cultural comum, a Arquitectura?
Os mesmos instrumentos geométricos foram usados na época, bem como mais recentemente, como símbolos de Artes e das Ciências, ou como emblemática moral sem que, no entanto, fosse esse o emblema de organizações pouco mais ou menos iniciáticas. Não nos esqueçamos que o compasso é, assim como a serpente, o símbolo da Prudência …
Mais preocupante para os maçons, estão alguns trechos de rituais dos Companheiros que foram publicados, principalmente em 1901, na obra clássica de Etienne Martin Saint-Leon, “Le Compagnonage”. Painéis de ritual inteiros podiam ser colocados em paralelo com o ritual maçónico! Não é essa, conforme acreditava Jean-Pierre Bayard, [5], a “prova incontestável de parentesco entre as duas ordens”? Simplesmente não, já que constituem os muitos empréstimos feitos pelas corporações de companheiros, ao longo do século XIX, a partir de fontes maçónicas, fossem elas iconográficas, rituais ou lendárias. Porque, ao contrário das ideias percepcionadas por grande parte dos maçons, foram os companheiros que “beberam” das suas tradições, e não o inverso! [2].
Quais as causas? Serão esses empréstimos o resultado do fenómeno da dupla filiação atrás mencionada? Ao fazê-lo, os Companheiros teriam reconhecido a anterioridade da tradição maçónica sobre a sua própria? Então qual o motivo desses empréstimos?
Ainda segundo J.-M. Mathonière[2], os antigos ritos e lendas Companheiristicas eram relativamente sóbrios, de essência cristã. O que está descrito na resolução dos doutores da Sorbonne em 1655 sobre “práticas pecaminosas, sacrílegas e supersticiosas” de Companheiros seleiros, sapateiros, chapeleiros, cortadores e alfaiates, eram na sua maior parte encenações da Paixão, onde o neófito era assemelhado ao Cristo, que deveria sofrer antes de morrer e depois renascer. A chegada da Maçonaria especulativa e a evolução das mentalidades sob a Revolução, vão abalar essa estrutura ritual que se manteve estável até o final do século XVIII. Naturalmente, os Companheiros tentarão dar aos seus ritos e lendas a moda e a mentalidade do seu tempo, e enriquecê-los com muitos detalhes e aventuras.
Refere também J.-M. Mathonière [2] que, um pouco antes de 1870, lê-se numa carta de Jules Napoleão Bastard, um companheiro tanoeiro, que viria a tornar-se maçom alguns anos mais tarde, as seguintes linhas relativas às reformas a serem introduzidas na sociedade companheirística (essencialmente estendendo a recepção para lhe dar mais carga emocional) e que resumem bem o fascínio que o modelo maçónico exercia então sobre os Companheiros:
“Mas o que temos para poder ensinar um homem? Nada, nossos escritos não são tão complicados; faltam grandes coisas [... …] O que é preciso? Um livro perfeitamente escrito, contendo detalhes de onde se originam as sociedades companheiristicas, a classificação de cada corpo de Estado, ampliar a recepção, aumentar nossos reconhecimentos [... …] Caminhemos sobre as pegadas dos maçons, sem imitar os princípios; nada há a ser emprestado deles [... ….]. todos os companheiros sentados e o primeiro da cidade interrogará o neófito, introduzi-lo-á com os olhos vendados na referida câmara, deixá-lo-à entregue a estas reflexões, tendo diante de si um esquife coberto com uma mortalha e duas cores brancas representando a cruz, duas varas sobre o esquife, uma arma e um punhal, o sol e a lua pintados no vidro, em forma de lanterna. Estes são os Passos de que precisamos“ [2].
Devemos ressaltar que, precisamente, apesar das precauções de oratória em relação à Maçonaria, os detalhes que adicionalmente são dados sobre vestir um avental e a decoração do templo, são empréstimos puramente maçónicos…
Na verdade, o primeiro erro a ser cometido quando se discute esta questão sensível do parentesco entre a Maçonaria e o Companheirismo, é considerá-la como um todo homogéneo. Ora, este não é absolutamente o caso, especialmente se recuarmos nos séculos. É mais apropriado falar de companheirismos, no plural. Na verdade, se alguma forma de parentesco deve ser procurada, não é entre a tradição maçónica e todos os companheirismos indistintamente, mas em primeiro lugar com as sociedades de canteiros, ou cortadores de pedras (os “maçons” no velho sentido operativo da palavra). Não é também entre a Maçonaria especulativa, como ela se europeizou em meados do século XVIII e as guildas de companheiros franceses (os Itinerantes e os Estrangeiros), mas entre as lojas operativas escocesas e Inglesas, das quais se reivindica à tradição especulativa, e as corporações de companheiros europeias de cortadores de pedras.
E o problema não é ficar obcecado sobre o parentesco ritual, mas identificar e compreender melhor o substrato cultural de todas essas organizações, se elas possuíam ou não um caráter iniciático, que é o de o ofício, e as artes e ciências estarem relacionados com ele.
Esta exploração, séria e metódica, promete por certo, segundo J.-M. Mathonière [2], interessantes descobertas futuras.
IV – Situação actual do «Compagnonnage»
O «Compagnonnage» é ainda, actualmente, uma das raras instituições da antiga França que tem subsistido até aos dias de hoje. Para J.-P. Bayard [5], “O «Compagnonnage» conserva uma justa relação entre os valores iniciáticos que transformam o homem e o relevam, e um gesto normal, que visa a sacralidade. Os rituais veiculam os valores eternos que constituem o verdadeiro cimento desta sociedade que tem o poder de nos ensinar, de nos retirar da nossa letargia, da nossa falta de fé. Na nossa sociedade de assistência o «Compagnonnage» gratifica-nos com uma lição de energia, de vontade, e portanto de ressurgimento”.
Actualmente o Companheirismo («Compagnonnage») com as suas pousadas (“cayennes”), os seus usos e costumes particulares, a sua regra do «Tour de France» persiste, mesmo com a industrialização a reduzir o numero do seus adeptos e consequentemente o transporte / transmissão das suas tradições, permanece activo, apesar duma redução muito significativa de efectivos.
Em França realizaram-se, no decorrer do século passado, diversas tentativas para alcançar unicidade da ordem, mas todas se saldaram pelo fracasso, com a persistência do xadrez existente.
De acordo com Guy Chassagnard [1], existiam antigamente: os “Filhos do Mestre Jacques”, os do “Pai Soubise” e os do “Rei Salomão”. Actualmente existem: A “Association Ouvrière des Compagnons du Tour de France, ou du Devoir”, a “Fédération Compagnonnique des Métiers du Bâtiment” e a “Union Compagnonnique des Compagnons du Tour de France des Devoirs Unis”.
Portanto e identicamente à Maçonaria, o Companheirismo continua e permanece dividido por questões de Ritos, de Homens e de Ideias, e em que as diferentes associações não têm relações entre elas…
IV – Conclusão
O Companheirismo é diferente da Maçonaria, já que engloba unicamente trabalhadores manuais e, entre outros aspectos, é um fenómeno tipicamente francês, resultante dum desenvolvimento de base igualitária, entre os «artesãos da pedra» (também existem de outras profissões, como p. ex. carpinteiros) não ligados às corporações do ofício, que deambulavam de terra em terra, em oposição à maçonaria operativa escocesa e inglesa, essencialmente hierárquica, resultante das corporações instaladas nas diversas cidades.
Se alguma forma de parentesco deve ser procurada, não é entre a tradição maçónica e indistintamente de todos os companheirismos, mas primeiramente com as sociedades de canteiros, ou talhadores de pedra (os “maçons”, no velho sentido inicial e operativo da palavra).
A diferença e as distinções entre as duas organizações, deve ser pesquisada não entre a Maçonaria especulativa e de como ela se europeizou, em meados do século XVIII, e as guildas de companheiros franceses (os “Itinerantes” e os “Estrangeiros”), mas entre as lojas operativas escocesas e Inglesas, das quais se reivindica a tradição especulativa, e as corporações de companheiros europeias de talhadores de pedra.
O problema essencial é identificar e compreender melhor o substrato cultural de todas essas organizações, perceber se possuíam ou não um caráter iniciático, e comprovar se o ofício e as artes e ciências, estariam relacionados com ele.
A história do «Compagnonnage» é balizada, desde a sua origem até finais do Sec. XIX, pelos inevitáveis conflitos de interesse entre os sedentários das corporações locais, que detinham o privilégio do emprego e da ascensão à Mestria, e os itinerantes. Através desta sua organização, os itinerantes encontravam mãos fraternas e rostos amigos, por todo o lado onde se deslocavam, assegurando-lhes o socorro e o pão, se necessário fosse, visto que estavam longe dos seus famliares e da sua região ou país.
Para além da sua componente humana específica, de matriz profissional, são uma instituição que agrega trabalhadores de cariz essencialmente operativo / manual, e essas constituem duas das diferenças fundamentais face à moderna maçonaria [especulativa], pesem embora as proximidades originais, durante a Idade Média, na fase operativa da Maçonaria. Existindo, segundo J.-P. Bayard [5], uma «interpenetração» entre as duas Instituições distintas, Maçonaria e «Compagnonnage», ela foi essencialmente num único sentido, da Maçonaria para o Companheirismo, a partir de finais do século XVIII, contráriamente ao que defendem os Companheiros.
Se o emblema básico do esquadro, da régua e do compasso entrelaçados é comum, adicionado nos Companheiros de outros elementos que caracterizam o ofício, é importante não ver nisso uma indicação de uma influência de uma sobre a outra, e muito menos ainda a prova de uma origem Companheiristica da Maçonaria. Este símbolo comum é simplesmente um dos sinais da existência de um substrato cultural comum, a Arquitectura.
Sendo actualmente o «Compagnonnage» uma das raras instituições da antiga França que ainda subsiste, foi durante toda a sua existência, o único defensor do mundo operário, o que os mais recentes manuais de história tendem a esquecer ou ignorar. As únicas armas dos Companheiros, em ruptura por melhores salários e condições de vida, com as corporações locais e os seus Mestres, eram a greve e em última fase o controlo do estaleiro sendo que, a partir do final do séc. XIX a defesa dos trabalhadores foi retomada pelos sindicatos.
Não podemos deixar de salientar que foram o antepassado efectivo de todos os movimentos populares, de todos os organismos sociais de que o nosso tempo tanto se orgulha. Durante cerca de 600 anos dirigiram o trabalho a partir do interior, no coração da profissão. Opuseram-se às exigências das corporações patronais, aos abusos do poder real, às violências policiais e às condenações religiosas. Em resumo a história do «Compagnonnage» é a do mundo operário, das suas misérias e das suas vitórias… Exceptuando a componente iniciática, podemos afirmar seguramente que foram também os percursores do moderno sindicalismo.
Em conclusão, recuperamos a definição de Daniel Ligou [4], que consideramos pertinente, no que respeita à caracterização do «Compagnonnage» e na sua diferenciação face à Maçonaria, quando afirma que é “forma de iniciação baseada numa profissão com uma instituição que agrega ligações fraternais: sem a profissão, é a Maçonaria, sem os ritos, o sindicalismo”.
Salvador Allen:. M:. M:.
Agosto, 2017 (e.v.)
Bibliografia
1) - “Le Petit Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” – Guy Chassagnard – Éditions Alphée, 2005
2) – “O Companheirismo e Maçonaria, qual o parentesco?” – Jean-Michel Mathonière - publicado no extinto “JB News» - Informativo Nº 1240
3) – “Dicionário da Antiga e Moderna Maçonaria” – Manuel Pinto do Santos, Lisboa 2012
4) - “Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” – Daniel Ligou, Éditions PUF, 2015 (3ªÉdition), Paris
5) – “L’Esprit du Compagnonnage” – Jean-Pierre Bayard - Éditions Dervy, 1994
6) –“Compagnonnage et Franc-Maçonnerie” – Alain Bouchet - Loja: J. T. Desaguliers - “L'EDIFICE®La bibliothèque maçonnique du net”.











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