Com a devida vénia e autorização do Blog «Comp&Esq» se trancreve:
A Loja Maçónica como modelo Organizativo particular
I - Introdução
A Loja Maçónica representa um modelo único no seu género, sendo considerada como uma micro-organização peculiar, já que possui apenas IIr.'. iguais em direitos, mas não em deveres. Todos os IIr.'. unidos pelo juramento e vinculados pelo segredo maçónico são solidários entre si. Estes princípios traduzem desde logo uma diferença inequívoca face ao mundo profano, diferença essa que é superiormente enquadrada pelo facto do comportamento em Sessão ser guiado e codificado pelo ritual.
A maioria do historidores maçónicos partilham a opinião de que terão sido os «Estatutos de Shaw» (Edimburgh, em 28.Dez. de 1598, durante o reinado de James VI - I de Inglaterra), o primeiro documento conhecido em que são lançadas as bases da organização do sistema de Lojas da Maç:. operativa, em que se veio a inspirar e basear a estrutura das Loj:. especulativas .
Nesta microorganização peculiar, os oficiais assumem uma hierarquização no plano das responsabilidades e o sistema organizativo e de gestão distingue-se pela particularidade de ninguém deter quer o poder temporal absoluto, quer o poder espiritual. Esta “sociedade” só obtem a soberania e o poder a partir de si mesma.
Traduz pois num modelo único no seu género, comparativamente à generalidade das organizações do mundo profano, nas suas diferentes àreas. Os princípios organizativos duma Loja maç.'.resumem-se nalgumas frases que nos foram transmitidas desde o início e que recordo:
3 a dirigem: o Venerável, o 1 º e 2 º Vigilantes
5 a iluminam: os três primeiros, o Orador e o Secretário
7 a tornam justa e perfeita: os 5 primeiros, o Tesoureiro e o M:. de Cerimónias
II - A organização da Loja
O número de Oficiais das Loj:. Maç:. varia conforme os ritos praticados, existindo contudo um trio dirigente comum a todas, o VM:., o 1º VIG:. e o 2º VIG:.. Em França, o cargo de ORA surgiu entre 1725/30 para libertar o VM:. das funções de análise e resumo dos Trabalhos, verificação da conformidade com os Estatutos e Regulamentos da Ord:. , Declaração de Princípios e conclusão das sessões.
Por essa altura, as lojas inglesas eram compostas únicamente por cinco oficiais: Presidente, dois Vigilantes, SEC e TES. A partir de 1735/6, segundo registos do GOdF, as Loj:. francesas vão sendo progressivamente completadas com um SEC e um TES. Cerca de quatro anos depois (1740), verifica-se que já trabalhavam com 1 ou 2 IIr:. cuja função era garantir a segurança interior e exterior do Templo.
No R.F., os Oficiais que constituem o corpo das Loj:., a partir de 1750, são básicamente os existentes actualmente, salvaguardando ligeiras diferenças (o diácono que circulava na Loj:, deu lugar ao MC).
Quanto ao grau necessário à nomeação para Oficial, verifica-se práticamente nos diversos Ritos uma “norma” quase universal, exigindo-se para tal o grau de M:.M:. (salvo casos de força maior - lojas recentes e/ou períodos de perturbação ou perseguição à A:. Ord:.).
No R.E.A.A. a estrutura mínima da Loja contempla 10 oficiais. Segundo alguns autores este termo não terá a origem militar que lhe é atribuida (essencialmente devido ao papel dos militares na expansão da Maç:., nos Séculos XVIII e XIX), significando a tarefa ou ofício que o M:.M:. desempenha em Loj.'.. Irène Manguy (5) aponta para a sua provável origem militar, não apresentando contudo fundamentação para essa posição.
Explicitando as frases atrás descritas que resumem e traduzem os princípios organizacionais duma Loja, temos:
II.1 – Três a Dirigem:
O V:. M:. e o 1º e 2º Vigilantes têm funções predominantemente "operativas", no sentido de que sua principal responsabilidade consiste na condução dos trabalhos. São eles que dirigem, ordenam e ritmam os trabalhos dos IIr:. e da Oficina. No entanto o seu trabalho extravasa em muito estas funções já que, fora do trabalho do Templo, têm a seu cargo a coordenação e o desenvolvimento da comunidade de IIr:. que constituem a Loja, que subsiste para além dos limites temporais da Sessão e do espaço do templo.
O seu trabalho pode resumir-se do seguinte modo:
.1.1 - O Venerável (1)
Preside e dirige a Assembleia;
Segundo o Regulamento Geral, são competencias do Venerável (10):
a) – Convocar a Oficina, abrir e fechar os trabalhos, manter a disciplina nas sessões e decidir sobre as questões que sejam suscitadas no decorrer das mesmas;
b) – Promover discussões e deliberações sobre os assuntos que possam interessar à Loja, em particular, ou à Ordem, em geral;
c) – Retirar a palavra ao Ir? que se afastar da O.T. ou da questão em discussão;
d) – Convocar extraordináriamente a loja, quando entender conveniente ou lhe seja solicitado por cinco Obreiros do Quadro decorados com o grau de Mestre;
e) – Presidir, por direito próprio a todas as Comissões da Loja;
f) – Iniciar profanos e conferir os graus simbólicos de harmonia com o respectivo ritual e as normas deste Regulamento;
g) – Assinar o traçado das sessões todos os documentos da Loja;
h) – Representar a Oficina na Grande Dieta e nas cerimónias maçónicas, quer da Obedência, quer de outras Oficinas;
i) – receber e abrir toda a correspondencia dirigida à Loja e assinar todas as pranchas oficiais;
j) – Coordenar o trabalho do Secretário e do Tesoureiro, no âmbito da Comissão de Administração, verificar os documentos de receita e despesa e autorizar os pagamentos votados pela Oficina;
k) – Mandar cobrir o Templo ao Ir? que perturbe a ordem ou falte à disciplina e à decência, e suspender os trabalhos quando as suas observações não sejam atendidas. Neste caso a sessão pode ser reaberta por outro membro da Oficina, devendo as deliberações, tomadas na mesma, serem ratificdas na sessão que se realize imediatamente a seguir;
l) – Desempenhar todas as funções que, pela Constituição do Grande Oriente Lusitano e leis em vigor, lhe sejam atribuidas.
Como capitão de um navio, deve manter um olho nos objectivos a alcançar, evitando que a Loja se desvie do caminho da Verdade. É levado a falar e agir em nome da assembleia, devendo efectuar todos os esforços para ignorar as preferências pessoais próprias;
Incarna a Sabedoria que concebe (a Assembleia incarna a força que executa, para realizar conjuntamente a Beleza);
Representa a autoridade suprema da Loja de que é recomendado usar sábiamente;
Utiliza o martelo, símbolo do poder temporal e a espada flamejante, símbolos da autoridade espiritual;
Transporta o esquadro, símbolo da rigorosa equidade, bem como da conciliação constante entre as oposições que são necessárias e frutuosas;
A fonte que lhe dá a necessária energia é o apoio e reconhecimento dos seus IIr:.
.1.2 –Os Vigilantes
Segundo o Regulamento Geral, são competencias dos Vigilantes (10):
a) – A direcção das suas respectivas Colunas, sendo a eles que os IIr?, que nelas têm assento, devem pedir a palavra, podendo retirar a mesma aos IIr? que dela usem sem a ter pedido. Transmitem nas suas Colunas os avisos do Venerável e mantêm a ordem e o silêncio;
b) – Entre sessões, compete, ainda, aos 2º e 1º Vigilantes, acompanharem os IIr? Aprendizes e Companheiros, respectivamente, promovendo a sua formação e o desenvolvimento dos laços de fraternidade e solidariedade
.1.2.1 – 1º Vigilante (2)
Ajuda o V:.M:. de modo mais directo e substitui-o se necessário;
Assegura principalmente a disciplina entre os obreiros, observa a pontualidade e diligência nos trabalhos, ao mesmo tempo que assegura uma vigilância estrita;
Instrui os Companheiros;
Vigia as cerimónias;
Encarna a Força ao serviço da nossa Lei comum, para garantir a boa execução do trabalho. Transporta o nível, símbolo da nossa submissão à Lei que se aplica a todos sem distinções ou execpções e perante a qual todos são iguais;
.1.2.2 – 2º Vigilante (3)
Situa-se (no R.E.A.A) no meio-dia, em plena luz
Monitoriza o decorrer das cerimónias;
Ajuda o V:. M :.;
Supervisiona a instrução maçónica e instrui nomeadamente os Aprendizes, assumindo também o papel de educador, responsável pelos conhecimentos iniciáticos dos IIr? recém-iniciados ou promovidos;
Transporta o fio de prumo, sugerindo-nos que não nos detenhamos no aspecto exterior das coisas e penetremos progressivamente, no sentido oculto das alegorias e símbolos.
.2 - CINCO A ILUMINAM
As cinco luzes são compostas pelos V? M?, 1 º e 2 º Vigilantes, bem como pelo Secretário e pelo Orador.
.2.1 - O Secretário (4)
É de alguma forma a memória do pensamento e dos trabalhos da Loja;
Redige as actas das Sessões e garante a continuidade dos trabalhos da Oficina e a sua perenidade;
Recorda as decisões tomadas e garante a sua aplicação;
Assegura a ligação com a Secretaria do Grande Oriente
(o prumo é o símbolo do seu cargo).
.2.3 - O Orador (5)
Representa a consciência da Loja;
Tem o dever de ser objectivo e de guardião da Tradição e da Palavra;
Deve conhecer a tradição da Ordem, as regras do Grande Oriente e o regulamento específico da Loja. É responsável por recordar e até para exigir o cumprimento do regulamento nas lojas do R? E? A? A?, e resume e formula as conclusões sobre os trabalhos e debates ocorridos na Loja;
Situa-se no Oriente;
Na maioria das vezes é portador do sol radiante como símbolo.
.3 - SETE A FAZEM JUSTA E PERFEITA
.3.1 - O Tesoureiro (6)
É-lhe confiado o Tesouro da Oficina, daí o nome do Tesoureiro;
É o responsável pelas finanças da Oficina;
Recebe as contribuições em dinheiro, evita os atrasos;
Cumpre pontualmente os compromissos assumidos pela Loja e, em particular perante a Secretaria do Grande Oriente.
O seu papel é essencial, já que a prosperidade e mesmo a existência da Oficina dependerá do cuidado que dê na administração das suas finanças;
.3.2 - O Mestre de Cerimónias (7)
Antes da abertura dos trabalhos, garante que nada falte do necessário para o desempenho do ritual;
Ocupa-se da Organização, do funcionamento material e técnico da Loja;
Recebe os IIr:. visitantes na sua entrada em Loja, depois de terem sido «cobertos» ou reconhecidos; anuncia (consoante os Ritos) o seu nome e acompanha-os ao seu lugar;
Está à disposição do 1º Vigilante durante os trabalhos e assiste o Experto no decorrer das cerimónias que se desenrolam em Loja.
.4 - A ESTAS SETE FUNÇÕES MESTRES JUNTAM-SE TRÊS FUNÇÔES PARA CONCLUIR O MODELO DE ORGANIZAÇÃO QUE CONSTITUI A LOJA MAÇÓNICA, segundo o R.E.A.A.:
.4.1 - O Experto (8)
É rigorosamente instruído em tudo o que concerne tradição e simbolismo e tem um grande conhecimento maçónico, e daí a sua qualificação de Experto. É, portanto, capaz de preparar os recipiendários nas Iniciações e aumentos de salário. Estas preparações são muito importantes porque colocam os candidatos com capacidade de compreender o significado das cerimónias e, assim, de tirar partido delas;
Aplica correctamente o ritual;
Executa o que lhe prescreve o V:.M:. ;
Transporta a espada que afasta os profanos e examina os visitantes para garantir a sua qualidade de IIr:.
.4.2 - O Hospitaleiro (9)
É o mensageiro do amor fraterno; deve detectar os problemas, a dor, a dificuldade, a doença, a aflição. Está atento às ausências repetidas que podem esconder infortúnios. Visita os que vivem longe da oficina para evitar a respectiva tristeza, ajuda-os, se necessário e, especialmente, reconforta-os pela presença e carinho;
Tem nas suas mãos o tronco da Viúva e, portanto, recebe a confiança dos seus IIr:.
Entrega-se incansávelmente às instituições de caridade da Loja e em favor dos IIr:. doentes ou em dificuldades e das suas famílias em perigo;
Visita, ajuda e socorre os que estão em sofrimento;
.4.3 - O Guarda Interno (10)
Monitoriza e cobre o Templo, o que quer dizer que que o guarda interiormente; Guarda o templo , abre e fecha a porta.
De acordo com os ritos, esta função por vezes é descrita como um pouco ingrata, sendo atribuída ao past- V:.M:., que passa assim da função mais alta para o mais humilde , dando deste modo aos IIr:. o exemplo da modéstia e da devoção.
.4.4 - O Delegado / Deputado (11)
É, com o Venerável Mestre em cargo, o principal agente de ligação com o Grande Oriente / Dieta;
Como tal, participa da troca de informações e opiniões entre os órgãos dirigentes da Obediência e as Lojas quanto às relações externas, projectos públicos, as grandes questões administrativas e organizacionais;
Garante o cumprimento da constituição do Grande Oriente e suas decisões, estatutos e rituais da sua Loja;
Está comprometido com a manutenção da harmonia e fraternidade no seio da sua Oficina.
Na prática, são adicionados ainda à Coluna da Harmonia, um ou mais MM.'. M.'. dos Banquetes, um Arquivista / Bibliotecário, um M.'. ou Intendente dos Edifícios.
Como regra geral, os Oficiais devem possuir o grau mais elevado que confere a Oficina, neste caso (e para as lojas azuis), o grau de M.'. M.'.. O mesmo não é válido para os seus adjuntos, se existirem.
Como já referimos na introdução, dum rito para outro o número de Oficiais varia. Por exemplo na Inglaterra há muito poucos Oradores, ao mesmo tempo que encontramos mais em França, quer no REAA, quer no RF. Da mesma forma, o lugar dos Oficiais também varia dum rito para outro. Por exemplo, as colunas, e portanto os oficiais que as presidem têm localizações opostas nos ritos escoceses e no Rito Francês.
III - Uma Organização Simbólica
Oswald Wirth (3) ao situar a Loj:., nomeadamente no REAA e no RF, segundo uma orientação “geográfica e sagrada”, estabelece para a localização e significado dos quadros da Loja, um conjunto de analogias "planetárias e astrológicas”, fazendo corresponder a cada oficial um planeta, segundo as seguintes correspondências:
Venerável - Júpiter, o maior planeta do sistema solar, símbolo de prosperidade
1º Vigilante - Marte, símbolo da força, mas também da acção e compromisso
2º Vigilante - Vénus, símbolo da harmonia, relacionamentos e equilíbrio
Orador - Sol, símbolo do espírito, da radiação, da força vital, da energia,
Secretário - Lua, reflexo do sol, simboliza o lado feminino, a memória, o ouvido
Experto - Saturno, símbolo do conhecimento, do trabalho e dos Antigos
Mestre de Cerimônias - Mercúrio, símbolo do movimento, da comunicação e do saber.
Pára nos 7 que tornam a Loja justa e perfeita, como os antigos que conheciam apenas sete planetas formando um sistema ainda hoje perfeito ...
Adicionalmente O. Wirth (3), orienta os Oficiais relativamente às três janelas, instalando-os também sob a Estrela Flamejante, a estrela de seis pontas, mas também sobre o corpo humano, tudo isso para obter uma visão cósmica do Templo. Isso leva-nos directamente para a nossa loja, que é simbólicamente um microcosmo.
Boucher (6) aceita estas correspondências, excepto as duas últimas (Saturno / EXP e a Mercúrio / MC).
Segundo ele, os Oficiais assim definidos situam-se também perfeitamente nos vértices duma estrela de seis pontas ou «selo de Salomão». O VM:. e os 2 Vigilantes que «dirigem» a Loj: formam o triângulo ascendente, o ORA, o SEC e o GI, que a «organizam», formam o triângulo descendente (ver tb/ o EXP – MC – VM).
Em sintese e ainda segundo Boucher (6), podemos adoptar o esquema sefirótico para as Lojas mais importantes, o hexagrama para as que o são menos e o pentagrama para as mais pequenas, que não têm necessidade do G.I.
Quanto a este tema D. Béresniak (1) sustenta que , “...devido ao facto do Templo representar a qualidade de “o meio", no sentido pitagórico do termo, entre o micro e o macrocosmos, já que a sua altura – segundo referem os antigos rituais – é infinita, motivo pelo qual o tecto está decorado com estrelas sugerindo precisamente essa característica, a alocação tradicional retomada por Wirth poderá estar perfeitamente justificada”. (f.c.)
Todavia Wirth (3) e (4) também refere genéricamente que a alocação do quadro duma Loj:.maçónica concorda, no essencial, com a Cabala, considerando interessante, sob este ponto de vista, o estabelecimento duma aproximação entre a àrvore sefirótica e a localização e simbolismo dos oficiais da Loja. A tentação de estabelecer estes relacionamentos é forte, já que no R.E.A.A. e no rito Françês, o número de Oficiais da Loj:. estabilizou em dez, correspondendo precisamente ao número das sefirots, para além do templo Maç:. representar o Cosmos e a àrvore sefirótica o mundo invisível.
Esta interpretação é a seguida por Jules Boucher (6), que estabelece uma relação entre os dez Oficiais do R.E.A.A. e a "árvore sefirótica" da Cabala,, sendo as correspondências como se indica:
1 - Kéter (coroa)--> Venerável ;
8 - Hod (victoria) --> Primeiro Vigilante ;
7 - Netzáh (gloria) --> Segundo Vigilante;
2 - Jojmáh (sabedoría) --> Orador ;
3 - Bináh (inteligência):--> Secretário;
4 - Gueburáh (rigor) --> Tesoureiro;
5 - Jésed (graças) --> Hospitaleiro ;
6 - Tiféret (beleza) --> Mestre de Ceremónias ;
9 - Iesod (fundamento)--> Experto;
10 - Maljut (reino)--> Guarda Interno
Há contudo a necessidade de manter alguma prudência, assegurando alguma distância face às especulações esotéricas e simbolistas, já que segundo Béresniak (1) “.....O simbolismo, do mesmo modo que a linguagem, é ao mesmo tempo a melhor e a pior das coisas. Pode despertar e estimular ou embrutecer. Pode libertar ou alienar” e mais à frente “ .....A Loj:. deveria ser o lugar privilegiado para o estudo do simbolismo. O clima que lá se encontra é o mais propício e estimulante para explorar esta ciência. Lamentávelmente não é assim, já que muitas Loj:. desprezam o simbolismo e outras confundem simbolismo com ocultismo, interpretando à letra as analogias simbólicas, como se fossem verdades eternas em si mesmas.” (f.c.).
IV - Paralelismo com a vida empresarial
Nas estruturas empresariais do mundo profano, o equivalente ao Ven:. é normalmente chamado Presidente. Nem sempre é eleito, embora na maioria dos casos o seja. Mas quando o é, sómente um pequeno círculo de pessoas constitui o “colégio eleitoral”, a Administração (nomeada pelos donos e/ ou accionistas) e não pela empresa inteira (ou num sentido mais lato pelos “stakeholders” – nomeadamente accionistas e trabalhadores, clientes e fornecedores). Não representa pois a unanimidade, para além de que a empresa a que preside está longe de ser uma comunidade de IIr:. que o apoia. A sua nomeação efectua-se, na maioria dos casos e contráriamente à Loj.'. Maç.'., sem um prazo fixo.
No entanto, podemos fácilmente constatar (pela análise diária da secção de “economia” ou “empresas” dos jornais especializados), que a "vida útil" de Presidentes encurta-se cada vez mais, não representando na maioria dos casos, um ciclo que termina naturalmente. São um pouco como os limões que se espremem até dar o sumo pretendido pelos accionistas.... Quando não fornecem o sumo pretendido (entendam-se os lucros e as remunerações) são derrubados, e escolhe-se outro limão. Chegados aqui, cada Ir:. poderá aprofundar as comparações e ir tirando algumas conclusões...
O Presidente duma empresa dirige a assembleia constituida pelos membros do conselho de administração, que não é toda a empresa. Estes dirigem por sua vez as divisões ou as regiões. Se, no passado, era muitas vezes o fundador, o patriarca, o Presidente actual é a maior parte das vezes um gestor de carreira (em todo o caso quase sempre um “carreirista”). Está investido dum poder real e, em geral, faz-se valer dele.
Respeitamo-lo (nem sempre....), mas não é venerado nem venerável. Toma decisões, mas a sabedoria não é sempre o seu primeiro valor. Os seus objectivos são em princípio o lucro e o crescimento da empresa e as mais das vezes o lucro pessoal e o dos que o suportam em primeiro lugar...., ou sejam os accionistas e seus homens de mão. Finalmente, longe de representar sempre a sua empresa, age mais como director e em seguida, imprime a trajectória que pretende à empresa (normalmente a dos accionistas...), muito mais do que se deixa imprimir por ela ou sequer pela dos seus colaboradores e /ou empregados.
Os seus atributos não são o esquadro da rigorosa equidade mas na maior parte das vezes um salário elevado e benefícios em espécie.... Não considera as oposições como necessárias, fecundas e se tenta por vezes a conciliação, a maior parte das vezes esta toma mais a face da confrontação do que da negociação. Ao malhete do poder temporal, quase nunca associa a espada da autoridade espiritual e a sua função é mais relacionada com os direitos do que com os deveres.
Por fim, tem muitas vezes mais tendência para enaltecer a sua função, do que para considerá-la um fardo. É importante ressaltar que longe de descer simplesmente de cargo, após ter percorrido um ciclo, está longe de prosseguir a sua carreira (nem que seja por breve espaço de tempo) como porteiro (o guarda-interno).
O 1º Vigilante é de algum modo o Director ou o Director Geral. Sob o seu punho "dirige os trabalhos", enquanto no Executivo é o porta-voz do presidente. Instrui a equipa de Direcção e impõe a Lei, longe portanto de tratar todos por igual, na empresa.
O 2º Vigilante poderá ser comparado a um Director de Recursos Humanos ou Chefe de Pessoal, que supervisiona e organiza a vida da empresa e se ocupa da introdução dos novos elementos. Também sugere, à sua própria maneira, não ficar pela aparência exterior das coisas, para detectar nos processos da empresa a oportunidade de expansão. Finalmente, é da sua responsabilidade a formação inicial e contínua dos trabalhadores.
O secretário também tem o mesmo nome na vida empresarial. Se o compararmos com o Secretário duma Loja, será talvez o Secretário-Geral, o que passa para acta todas as orientações e decisões das reuniões da empresa e se encarrega de as recordar à equipa dirigente. É também o tutor de uma certa coesão. Ao equiparar o Grande Oriente com as mais altas instâncias dum grupo ou holding, o círculo estará completo.
Poderíamos continuar esta lista com as funções do Orador (Conselheiro, Director-adjunto), do Tesoureiro (Director Financeiro), Experto (Assessor Técnico do Conselho de administração) e Mestre de Cerimónias (Assessor e Comunicação e imprensa).
Se em algumas empresas há um arquivista, em quase todas faltam normalmente um especialista, um Hospitaleiro, uma coluna de Harmonia e um M:. dos Banquetes ...
Contudo a vocação duma empresa não é nem filosófica, nem filantrópica, nem mesmo espiritual ou amigável. Não é um orgão para o progresso individual ou da humanidade. Não forma em primeira linha uma comunidade, mesmo que de facto constitua uma e se insira em uma ou mais, muitas vezes transnacionais.
A sua missão não é cuidar do aperfeiçoamento moral e intelectual dos seus trabalhalhadores (muitas vezes bem pelo contrário...), dos seus pensionistas, viúvas, ou organizar noites musicais e ainda menos banquetes amigáveis. Por último, o Guarda-Interno é colocado tão em baixo na escala, que nem sequer é considerado, certamente não tem o estatuto de oficial (do quadro) e ainda menos é o ex-Presidente ...
V – Paralelo com a vida familiar e a vida social
Na vida familiar, a organização é, certamente, um pouco diferente. Para já a célula é mais pequena. Em todo o caso, actualmente, uma vez que em tempos um pouco mais distantes, as famílias viviam há várias gerações sob o mesmo tecto, especialmente as mais pobres. E paralelamente, as famílias da classe média e as camadas sociais mais elevadas dispunham de funcionárias domésticas. Logo, não eram 2, 3, 4 ou 5 por habitação, mas 7, 8, 9 ou 10 ou até mais mais. Deste modo as famílias eram maiores, mais completas.
Hoje, no pior dos casos, existem as famílias monoparentais. As funções da vida, a de gerir um alojamento, uma casa, uma família permaneceram as mesmas, mas gerem-se menos. Podemos mesmo até geri-las individualmente, mas a que preço.....
E o que é pois a família, se não a base da nossa sociedade, uma espécie de micro-sociedade ela própria.
Quer o modelo de sociedade seja matriarcal ou não, o Presidente raramente é o pai ou a mãe que se assimilam mais aos primeiro e segundo Vigilantes . Para reencontrar o Presidente, é preciso sair da célula-base «pai-mãe» e seus filhos.
Nas culturas antigas ou nas sociedades ditas primitivas, o Presidente é o chefe da aldeia, eventualmente o Rei, o Senhor, às vezes, o líder espiritual, um sacerdote ou um erudito. Em qualquer caso, o papel do presidente é mantido por alguém que coloque o seu poder acima da confusão. Portanto, ele fornece uma espécie de governação e está rodeado por outros líderes para apoiar as principais funções da sociedade estendida a que preside. Este papel solar, quando muito, pelo menos é equiparado aos do pai em estruturas menores.
Na vida social, as micro-sociedades existem sob a forma de associações, empresas, corporações, organizações governamentais, beneficentes ou religiosas. Todas as empresas, pequenas, médias ou grandes, estão estruturadas e organizadas de acordo com a finalidade que prosseguem. São constituidas por unidades dedicadas a funções específicas.
Encontramos as funções de Presidente, Vice-Presidente, Secretário e Tesoureiro, ladeadas por uma série de adjuntos e assistentes. Uma vez mais, essas funções básicas estão ocupadas, mas a dimensão fraterna está ausente, bem como as funções essenciais, tais como as do 2º Vigilante, do Hospitaleiro, Experto, Mestre de Cerimónias e Guarda-Interno, às quais se juntam as da Coluna da Harmonia, Bibliotecário / arquivista, do M:. de Banquetes e M:. Intendente de Edifícios (muitas vezes comparado com o Tesoureiro).
No entanto, entre os modelos apresentados pelos nossos ambientes sociais e económicos, existe um que se me afigurou particularmente curioso e interessante, a de uma organização típica duma aldeia africana. É mais ou menos nestes termos (dependendo contudo os pormenores da zona e da raça).
"Geralmente, o papel do chefe da aldeia (o Presidente) é encorajar e escutar o seu povo.
É muito solidário. Além disso, é também um líder moral: se um homem não se comporta bem com sua esposa, por exemplo, ele vai vê-lo e falar com ele. Chama os homens e mulheres como seus filhos e suas filhas. Na aldeia, são todos irmãos e as crianças chamam aos vizinhos pai / mãe, de esquerda ou de direita, dependendo se vivem num lado ou do outro lado da sua casa. O chefe da aldeia também tem o papel de mediador entre a aldeia e os espíritos dos antepassados, mas o Chefe não trabalha sózinho. Tem os seus conselheiros, que chama em função dos assuntos a tratar. Além disso, há por vezes os homens influentes aos quais se dirige, já que as pessoas são mais sensíveis às suas recomendações do que às suas próprias.
A vida da aldeia também é marcada por ritos, festas, casamentos, funerais, mas também recepções a pessoas importantes. Não há nenhum secretário, mas existem formas de tesoureiros.
Mesmo antes da existência do dinheiro , eram organizadas colectas para ocasiões específicas. Há também responsáveis pela formação que se ocupam, entre outros assuntos, das iniciações (um homem para os homens, uma mulher para as mulheres). Estas iniciações têm também as suas passagens de graus, especialmente quando alguém é especialmente distinguido.
O feiticeiro é um caso especial entre os animistas, já que é consultado para fazer mal a alguém.
O mal coexiste muito bem e parece, aliás, ter o estatuto de algo "natural". O médico tradicional cuida das plantas e usa uma farmacopeia muito natural, bem como massagens, encantamentos e solicita a ajuda dos espíritos.
Os anciãos também desempenham um papel importante. O chefe e seus conselheiros consultam-nos para necessidades específicas. E o chefe mantém-os também informados de tudo o que acontece”.
Neste modelo muito antigo e eficaz - pelo menos antes da chegada do catolicismo - mais de 90% das funções, tais como as conhecemos na Loja, estão abrangidas.
O presidente e seus dois ministros estão lá como chefe da aldeia com a sua força executiva e os seus conselheiros directos. O Orador é muitas vezes o que detem o saber, mas o secretário está ausente.
O Experto assume a forma dum ancião e o Mestre de Cerimónias existe. Finalmente o Guarda-Interno e o Hospitaleiro estão ausentes e assim por diante. Poderiamos multiplicar os modelos em detalhe, mas creio que o essencial está dito.
VI - Conclusões
No modelo maçónico existem duas dimensões que se complementam: uma horizontal (os membros são irmãos e portanto iguais, unidos por um vínculo profundo - o juramento – e selados pelo segredo maçónico); a outra mais vertical (funções ou melhor, deveres, portanto nenhum poder nesse sentido). Sobrepõe-se a esta uma distribuição bem simbólica das funções principais da Oficina (Sete a tornam justa e perfeita).
Isto é suficiente, em nossa opinião, para tornar este modelo diferente daqueles que conhecemos no mundo dos negócios e no nosso mundo social. Para testemunhá-lo está a análise sumária atrás efectuada. Com a excepção de tribos africanas, todos estes modelos são muito diferentes do nosso e vemos (histórica e diáriamente...) onde pode levá-los ....
Acrescentemos a isso o modo cíclico de gerir os diversos patamares, inscrito como todo o nosso trabalho num ideal de progresso no sentido humanista e progressista e obtemos um modelo que nos é próprio e que perdura. As escolhas, decisões, o trabalho e as acções neste modelo não são feitas à custa do homem, mas contráriamemte contribuem para sua evolução e tudo conflui ao mesmo tempo para a edificação do templo da humanidade.
A observância e o respeito, também se devem ao facto que a Maç:. perpetuar os rituais e regras transmitidas de entre as mais antigas da humanidade. A Maç:. aprende com o silêncio, observação , estudo e aconselhamento, para primeiro entender e para depois implementar. A observação e o respeito fraternal constituem um cimento essencial na organização da vida maçónica.
Podemos portanto, perguntar: Porquê sete a tornam justa e perfeita? Que cada um medite neste aspecto.
O que valem os nossos actuais modelos familiares, sociais e económicos? Onde estavam há 20, 50 ou 200 anos atrás? Onde estarão ou o que serão daqui a 20 anos, 50 ou 100 anos?
Salvador Allen.'. M.'.M.'.
Novembro.2014
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Bibiografia:
1) – “ Los Oficios y Los Oficiales de La Logia” - Daniel Berésniak
2) – “La Franc-Maçonnerie Rendue Intelligible à Ses Adepts – Le Maître” - Oswald Wirth - Ed. Dervy (2001)
3) – “La Symbolique Maçonnique du Troisiéme Millenaire” - Irène Mainguy- Ed. Dervy (2006)
4) - “@”L’édifice - La Bibliothèque Maçonnique du Net”
5) - “Les Origines de la Maçonnerie Spéculative” – Roger Dachez, revista “Renaissance”
6) - Blog da Loj:. Ocidente –– http://a2ocidente.blogspot.pt
7) - “El Nacimiento del Escocismo” - Louis Trébuchet (www.masoniclib.com)
8) - “La Pensée Maçonnique –Une Sagesse pour l´Occident” – Jean Mourges – Éditions P.U.F.- 1998
9) - “La Symbolique Maçonnique” - Jules Boucher
10) - Regulamento Geral da N:A:.O:.
11) – “A Sociedde Pós-Capitalista” – Peter Drucker – Publicações D. Quixote (1998)
12) – “O Experto e Loja – Origens, Funções e simbolismo” – Salvador Allende , R. L. Ocidente,


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