Desafios que se colocam à Maçonaria e à N:.A:.O:. no Século XXI
I – Introdução
O que mais criticamente nos terá afectado, com as inevitáveis consequências internas (decorrentes da perseguição política vigente) terá sido provávelmente o forte bloqueio imposto às nossas influências internacionais mais próximas (até pelo peso da emigração, nomeadamente GOdF, GLDF e GOB), a que não serão alheias as dificuldades que se nos têm deparado, sobretudo depois da liberdade de Abril.
A posterior cisão da futura GLLP/GLRP foi únivocamente provocada pelos defensores da ligação ao «dogmatismo» anglo-saxão, não sómente por uma questão de opção ritualística, mas também devido à futura possibilidade de acesso aos enormes interesses estratégicos e capacidade financeiras, resultantes da larga influência do modelo «dogmático / anglo-saxónico» da Inglaterra (GLUI), nas ex-potências coloniais que lhes estavam adstritas (p.ex. Àfrica do Sul, Austrália, Índia), para além da difusão e influência organizacional já estabelecida nos maiores países americanos, partindo dos EUA (antes e depois da indepêndencia), estendendo-se depois para o México, Brasil e restantes países sul-americanos (onde também já estava no terreno a maçonaria liberal/adogmática)
Será que daqui a pelo menos 30 a 50 anos a Maçonaria ainda existirá, como tal? Poderão (ou não) existir eventualmente menos Obediências e Potências (dada a «forçada e eventualmente destrutiva» dispersão actual), podendo até mesmo apresentar as mais novas, também ou inovadoramente, eventual suporte em potentes e inteligentes computadores, com novas versões de SW, integrando os últimos desenvolvimentos relacionados com a Inteligência Artificial (IA), o que deverá permitir aligeirar as burocracias internas e realizar quase "Sessões virtuais," acompanhadas pelo Ritual (agora em modo eventualmente mais seguro), mas óbviamente digital… .
II – O retorno à Loja, deverá ser a dinâmica de toda a mudança na Maçonaria:
Em consonância com a redução progressiva da aceitação dos ideais maçónicos nas Sociedades ocidentais (sobretudo nas de âmbito de influência dos «dogmáticos», sendo que aqui alguns dos principais motivos são já conhecidos – rigidez ritualística, falta de participação, reduzida periodicidade das Sessões, açcão voltada essencialmente para a beneficência e muito menos para o estudo, monotonia e falta de inovação, marcadamente tradicionalistas face à sociedade actual, médias etárias elevadas, etc,), iremos também provávelmente assistir a uma maior retracção dos efectivos das maiores Obediências, eventualmente a par da proliferação de novas, mais reduzidas, flexíveis, dinâmicas e sobretudo menos burocratizadas.
Outras tenderão ao eventual enquistamento em micro-seitas, estáticamente voltadas para o passado, cada vez mais «esotéricas», agregadas eventualmente um líder autoritário (não será só na política… ), que se irão desligando da sociedade real, vítimas da sua limitação e ineficácia, até gradualmente desaparecerem. Algumas tendências «clericais» do REAA (felizmente em minoria), não estarão já, sem se aperceberem, a caminho da personificação desta faceta???
A Loja, além do inesgotável espaço de liberdade que representa, é também um lugar onde se transmite uma Tradição, e onde se espera que os Irmãos mais antigos e/ou experientes, a continuem a manter, preservar e representar, interpretando-a e comunicando-a aos mais novos, não esquecendo o «velho» ritual, eventualmente em novos moldes.
Como alerta o Ir:. Marques da Costa [13]:“Precisamos de um diálogo sobre a Universalidade da Maçonaria, um regresso aos seus fundamentos, um Ecumenismo. E o primeiro passo para o ecumenismo é ouvir o outro, pequeno ou grande, antigo ou recente, místico ou racionalista, monogénero ou misto. Um diálogo sem Papas, - porque na Maçonaria também há organizações com vocação para Vaticano e outras com vontade de ter assento no conclave dos cardeais – um diálogo apenas entre maçons que se querem apenas conhecer e reconhecer como tais”.
III – Propostas de Medidas de Reforço e Desenvolvimento, face às Ameaças:
Reconhecemos que não é fácil juntar Modernidade com Tradição, mas já decorreu tempo mais do que suficiente para tal, pois existiram lojas femininas, no inicio da República. Não esqueçamos as distintas e pioneiras mulheres portuguesas (Adelaide Cabete, Ana de Castro Osório, Beatriz Ângelo, etc,), que há mais de um século deram o exemplo e apontaram o caminho do futuro, ficando para a História como relevantes e incontestáveis ícones do património maçónico nacional e internacional. Tudo tentaram e fizeram em prol da sua legalização / Iniciação (efectivamente concretizada, mas posteriormente anulada, pela N:.A:.O:..).
Tenhamos esperança (conhecida contudo a forte resistência de parte do núcleo de controlo «clerical» do REAA…) que algo comece finalmente a mudar, no sentido da aplicação real do «liberalismo» e «adogmatismo» que oficialmente defendemos, mas que na prática só marginalmente aplicamos, ao permitir (em algumas Lojas, normalmente mais no âmbito do Rito Francês), apenas a visita de Irmãs, em determinadas Sessões de carácter comemorativo mais geral. Se não efectuarmos rapidamente as mudanças internas conducentes à participação integral da mulher, seremos (como já começámos a ser) ultrapassados pela nova concorrência (leia-se, entre outras, «Grande Loja Simbólica de Portugal»…). e alvo de descrédito crescente, quer a nível nacional, quer internacional. Idênticamente ao que acontece nas associações e empresas da sociedade profana, quem não se adapta, estagna, decresce e acaba por enfraquecer sucessivamente, até à eventual desagregação….
Consideramos que esta multiplicação de «obediências» (em França já são perto de 150 e em Portugal 21…), só nos enfraquece, em vez de diversificar e consolidar opções de escolha, como defendem Roger Dachez & outros [4],[10]. Desacreditam as Obediências Maçónicas mais antigas, históricas e credíveis e, mais grave, ao dificultar a sua urgente renovação e simplificação executiva, processual e funcional, contribuem eficazmente para confundir os cidadãos que eventualmente possam vir a aproximar-se de nós, pois lhes poderá sugerir que nos estaremos a transformar em núcleos tipo «evangélicos», com cada vez menor, reduzida, discreta, ou até nula intervenção nacional.
Por outro lado, temos de estar atentos a este fenómeno, pois pode eventualmente representar uma «reação natural» de muitos maçons, ao cada vez maior «monolitismo» das Obediências tradicionais, demasiado bloqueadas pelos seus pesados processos internos e, na prática, impedindo ou dificultando a necessária e alargada dinâmica funcional, social e motora das Lojas que, convem não esquecer, são as verdadeiras obreiras das estruturas Obedienciais e não o contrário….. Um ponto pertinente a acompanhar com cada vez mais atenção.
Só a plena Liberdade, coadjuvada pela Igualdade e pela Fraternidade, permite a efectiva construção dum Estado Social, que os Maçons sempre defenderam. Possuindo perfeita consciência de que não somos nem partido politico, nem sindicato, ou clube de intervenção, temos contudo firmes princípios éticos e republicanos (democráticos, liberais, progressistas, humanistas, filosóficos, sociais e anti-dogmáticos) que, no seu cumprimento, nos obrigam a alertar a Sociedade e o País, se genéricamente (ou pontualmente) forem desrespeitados os compromissos (ainda) estabelecidos na Constituição da República, quanto a estes pontos (recordemos a mensagem do Grão-Mestre aos Cidadãos em Dez.2022). Esta continuará a ser uma obrigação de vigilância primordial a manter.
O almejado ideal da constituição duma «Universidade Livre» (a exemplo de Bruxelas), onde teríamos ampla liberdade de formar os alunos, através dum ensino actualizado, científico, progressista, filosófico e laico, plenamente aderente aos nossos princípios enquadradores de mentes livres em sociedades abertas, humanistas e democráticas, afigura-se-nos cada vez mais distante, pelo meios económicos e físicos envolvidos, mas talvez atingível por outras vias das quais possamos fazer parte..
Como os nossos parcos meios financeiros disponíveis são incomportáveis para tal, devemos apontar para constituir eventuais acordos e participações com organizações e associações congéneres europeias (belgas, francesas e espanholas, por exemplo), onde existem numerosos quadros maçónicos de renome e prestígio internacional, que muito nos poderão ajudar nesta eventual caminhada. Deverá ser uma prioridade MAIOR a este objectivo. Ao menos aprendamos, pela positiva (mas em radical oposição), com o «Opus Dei» , a fazer o trabalho de base ( passe a provocação…) .
Como correctamente salienta Marques da Costa [13]: “É tempo de deixar de olhar para o passado. É tempo de sair da clandestinidade em que todos no confinamos há demasiado tempo sem o que a Sociedade saiba o que somos, nas nossas diversas vertentes, na rica diversidade que nos caracteriza”. É pertinente tentar encontrar o ponto de equilíbrio para tal, o mais que nos seja possível, sem contudo nos descaracterizarmos.
Cada Maçom, para além de ter um comportamento ético e moral, em profunda consonância com os valores que integramos e defendemos, quer no mundo profano, quer a nível interno, tem de ser um divulgador activo dos mesmos junto à Família, amigos, espaço de trabalho (aqui de forma eventualmente um pouco mais cuidadosa, atendendo a eventuais perseguições / incompreensões histórico-sociais sempre presentes, resultantes do longo passado de «demonização» da Maçonaria), associações a que pertença, e ajudando a desmistificar o modo de vida que a omnipresente sociedade de consumo individualista nos tem imposto pela globalização sem regras, desde os anos 80 do Séc. passado.
Não temos conhecimento que tenha existido, em devido tempo, solicitação às LLoj:. de constituição de pelo menos 1 a 2 LLoj:. mais dedicadas à investigação maçónica, por Rito, facto que achamos incompreensível na mais antiga Obediência portuguesa. Poderíamos ter chamado ao trabalho mais Irmãos que estivessem interessados, (como há muito, têm feito as mais importantes Obediências).
Face ao passado dos últimos decénios, decorrentes da fraqueza com que chegámos à liberdade de Abril, defendemos que se deverá analisar crítica mas construtivamente, o muito que se fez, os erros cometidos e o muito que temos de modificar, construindo as novas bases, decidindo cuidadosamente, mas sem perda de tempo.
Será que não poderiam ou deveriam existir mais um ou outro Rito (pois uma ou outra patente já nos foi, ou poderia ter sido concedida, se em tempo estivéssemos, interessados em tal). É a diversidade e não o monolitismo que faz a riqueza das Organizações, e este princípio é de aplicação geral, independentemente da natureza específica de cada Organização (e do «mercado» a que se destine).
O facto de poderem vir existir mais do que 2 Ritos, pesem embora as dificuldades (em sentidos opostos, dos dois existentes…..) poderia vir a potenciar a criação duma eventual Câmara de Ritos (coordenada por um Irmão de prestígio inabalável e inquestionável, e nomeado por consenso), à semelhança do que acontece no GOdF por exemplo (mas não só), mas com o devido cuidado funcional de não criar mais um eventual nó de disfunção organizacional, mas adaptado cuidadosamente à dinâmica e à realidade nacional.
Evitando eventuais acréscimos de conflitualidade de gestão entre Odediência / Potências (urge precisamente o contrário), tal poderia possibilitar uma gestão mais eficaz e coordenada da Organização Maçónica global, no sentido dum maior e melhor entrosamento relacional, simplificando e uniformizando processos, maior ligeireza funcional e sobretudo antecipar e evitar bloqueios decorrentes das sempre presentes tentativas de poderes pessoais indevidos (e por vezes mesquinhos), que são o verdadeiro «nó górdio» do bloqueio das Organizações tradicionais.
Óbviamente não está em causa a independência da gestão das Potências, face à gestão das Lojas Azuis, mas simplesmente o tentar reduzir e acabar com quintas, quintinhas, afilhados e protegidos, cujo resultado prático tem bloqueado funcional e evolutivamente a Organização, mesmo que não tenha sido esse o objectivo concreto.
“Quer isto dizer que as grandes organizações históricas estão condenadas? Não, mas têm de compreender os sinais do mundo em que se inserem e adaptar-se. Adaptarem-se não é passarem a ser aquilo que os outros são. Não é desidentificarem-se. É apenas perceber que a sua relação com alteridade tem de mudar. Reconhecer o «Outro» é aceitar a sua diferença e dialogar com ela para enriquecimento recíproco. Para isso é preciso mudar o paradigma funcional e dar às Lojas e ao Maçons a liberdade de conhecer a diferença e com ela dialogar livremente. De mudar até de linguagem.[13].
Os homens verdadeiramente «livres e de bons costumes», não podem trabalhar acorrentados de espírito individualista, seguidista, carreirista, ou de outros interesses mais ou menos dependentes de eventuais «oportunidades» (confundindo a política profana com eventual âmbito dos metais, mistos ou outros). A N:.A:.O:. tem de exigir mais e melhor !!!! (apesar de eventuais desvios serem inerentes à espécie humana..., como é usual ouvirmos, sempre que se manifestam)
Há que «tocar a reunir» as melhores forças disponíveis (exemplo que desde o início, o actual Grão-Mestrado se tem esforçado por transmitir) e ter a coragem e vontade de trabalhar afincadamente para o conseguir , caso contrário a estrada que nos reservará o futuro, dependendo de nós, ficará cada vez mais reduzida a uma via estreita. Provávelmente poderá haver alguns que esperam ganhar com isso, mas não será por certo a Maçonaria «liberal e adogmática».
Termino, regressando novamente à já tão discutida (e actualmente em análise pelo GM, após recepção das respostas solicitadas às Lojas) «questão feminina», empurrada com a barriga durante vários mandatos, por motivos que muitos sabem e que alguns responsáveis sempre pretenderam calar mais eficazmente pelo silêncio, ou com argumentos contraditórios, sem sentido ou perfeitamente desajustados face à época actual.
Defendemos que nenhuma Loja deverá ser obrigada superiormente a aceitar ou rejeitar Irmãs. Aquelas que maioritáriamente aprovarem concretizá-lo, não poderão ser bloqueadas ou suspensas, isto sem prejuízo do cumprimento integral dos normativos legais e procedimentais a serem necessária e eventualmente redefinidos, para a sua implementação. Tal exigirá de toda Ordem, do C:.O:., de todos nós (e sobretudo da Grande Dieta), um enorme e intenso trabalho. Por último e com a experiência adquirida, estatutária e organizacionalmente estabilizada, algumas LLoj:. poderão, eventualmente mais tarde, decidir tornar-se unicamente femininas, a par das que entenderem continuar sómente masculinas (mantendo o «status quo» actual).
Caminharemos assim para o futuro, no Século XXI, em plena sintonia com o enquadramento maçónico «Liberal e adogmático» que perfilhamos e defendemos, com vigor e rigor, trilhando finalmente os caminhos dignos duma Maçonaria aberta a toda a Humanidade, de que nos possamos orgulhar. Fraternalmente pretendemos contribuir para a transformar num estado mais avançado, em todas as áreas, de acordo com os desafios que este Séc.XXI nos obrigará a enfrentar, para sobrevier e tentar recuperar a influência do passado, honrando quem nos antecedeu (em pelo menos 100 anos), ao mesmo tempo que fortaleceremos condigna e apropriadamente a Cadeia de União actual, sobretudo numa perspectiva de futuro ….
Salvador Allende M:. M:.
(Maio.2023, e:.v:.)
(publicado com a devida vénia e agradecimento ao Blog «Comp&Esq»)
Bibliografia
2 – “Democratie et Franc-Maçonnerie” – L´Edifice.net@ledifice.net»” – s/ autor expresso («X.M.»)
3 – “La Symbolique Maçonnique du Troisième Millénaire” - Mainguy, Irène -– Éditions Dervy, 2006, Paris
4 – “Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” – Daniel Ligou, Éditions PUF, 2015 (3ªÉdition), Paris
5 – “L’Apprentissage Maçonnique - Une École de L’éveil» - Béresniak, Daniel, Éditions Detrad – 2009, Paris
6 – “Le Petit Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” - Guy Chassagnard – Éditions Alphée, 2005
7 – “O Mundo de Amanhã – Geopolítica contemporânea” – Carlos Gaspar – Fundação FMS
8 – “Avanços Tecnológicos e o Futuro da Maçonaria“ – Hercule Spoladore - Revista digital “ACML News” nr.3, 20.Ago.2017
9 – “Grand Orient.- las vérités do G.M. do GOdF” - ALain Bauer – Éditions Denoel, 2002.
10 – Salvador Allende M:.M:. - “A Maçonaria no Século XXI - algumas Interrogações” – (Blog “Jakim & Boaz”)
14 – “Pour retrouver la Parole - le retour des Frères” - Roger Dachez, Alain Bauer, Bruno Étienne, Michel Maffesoli – Paris 2006











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