Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

3 de setembro de 2025

Desafios que se colocam à Maçonaria e à N:.A:.O:. no Século XXI

 




Desafios que se colocam à Maçonaria e à N:.A:.O:. no Século XXI

(versão original, publicada neste Blog em 18.Mai.23)  

As Linhas Gerais do trabalho que se apresenta, sempre na perspectiva de um permanente Aprendiz, estão alicerçadas no objectivo do superior interesse naquilo que nos possa unir, e nunca dividir. Afiguram-se necessárias e urgentes  para  fomentar a discussão relativa à realidade actual e sobretudo futura, da Maçonaria, tendo em perspectiva sobretudo o que nos pode aguardar, neste agitado Séc. XXI. Julgamos imperioso que o preparemos, a nível individual e da NAO:.,apesar de vários  pontos críticos, que julgamos pertinentes, poderem proporcionar alguns ou até fortes questionamentos e saudáveis discordâncias, mas o objectivo é precisamente esse.  Adicionalmente ( e esse era o segundo ponto de motivação), constituíram também, na maior parte,  o  alvo prioritário dos  past-Veneralatos da RL:., em que  nos inserimos, daí a  sintonização  com as àreas temáticas propostas. 
Sendo temas demasiado importantes, face ao tempo que decorre, bem como ao futuro a curto e médio-prazo, teremos de os perceber conceptual e filosóficamente, para os desenvolver   e resolver, se queremos continuar e fazer progredir  a Maçonaria «adogmática e liberal», tal com sempre a entendemos e defendemos,  face a este enorme desafio que se nos coloca -  a dificil transição para esta sociedade digital e fortemente disruptiva, que nos vem sendo imposta - imediatista, consumista, individualista, agressiva para com os mais fracos, e pouco atreita  a respeitar os seres humanos «livres e de bons costumes». 

Perante as enormes ameaças e as nuvens negras que pairam já sobre nós, teremos de trabalhar cada vez mais,  transformando as nossas LLoj:. no púlpito da defesa permanente dos valores democráticos, humanistas, sociais e progressistas, que sempre nos caracterizaram e uniram,  constituindo o essencial  do nossos pilares referenciais.  Necessitamos com urgência de defender de novo, com vigor e activamente, a Liberdade,  o Humanismo, a Tolerância e a Democracia, contra a guerra,  o globalismo financeiro sem regras, as gritantes desigualdades económico-sociais e o diferencial cada vez maior entre os poucos muito ricos e as cada vez mais empobrecidas classes média, média-baixa e os cada vez mais pobres.,.  face ao cerco demagógico,  crescentemente intenso e perigoso, que os novos populismos extremistas de direita nos vêm organizadamente impondo, a nivel mundial, europeu e agora também nacional.  Contudo para concretizá-lo, teremos simultâneamente também de abrir mais as nossas portas à sociedade, sem contudo  nos descaracterizar (objectivo já correctamente definido desde o início do Século. mas ainda não alcançado com a plenitude desejada....),  permitindo  que a renovação, evolução e crescimento dos nossos princípios fundamentais da L:. I:. F:. ecoem de novo na sociedade e no país.   -  (Salvador Allende M:.M:.)

I – Introdução

A corrente «liberal / adogmática» a que estamos ligados, leva já mais de 2 Séculos  (220 anos) de existência ininterrupta entre nós,  que orgulhosa mas responsávelmente, comemorámos no dia 22 de Abril de 2023.  Solidária e fraternalmente estiveram presentes  várias delegações estrangeiras, nomeadamente do GOdF, GOB, GSE, GOI,  da Turquia, da Roménia, da Sérvia e do SC do Gr.33 do REAA, para Portugal e sua Jurisdição, o que muito nos sensibilizou e obviamente orgulhou. Comemorar 220 anos de ação ininterrupta, é notável,  apesar das muitas perseguições, divisões, querelas, novas junções e posteriores separações, temporalmente enquadradas por distintas repressões ditatoriais. 

Todos estes anos só comprovam que os princípios fundamentais da Maçonaria e a sua adaptabilidade ao longo do tempo, tiveram ao seu serviço excelentes, vigorosos, irredutíveis e notáveis defensores, ao longo de várias gerações, que não cederam, traficaram ou venderam, no essencial, os nossos valores e princípios identitários.

Neste intervalo de tempo registaram-se  muitos avanços e adversidades, ainda com a Inquisição (apesar de, na altura,  já em morte lenta), os golpes do absolutismo miguelista, as disputas constitucionalistas, até à implantação da República (onde posteriormente muito se deteriorou e agitou, ao misturar  indevidamente Política partidária e Maçonaria), terminando com a proibição,  a violência e a duração da ditadura salazarista.  Por certo poderíamos ter feito mais e melhor, mas além disso também sofremos de várias insuficiências / faltas de apoio externo. 

A título de exemplo,  referimos a lamentável posição dos «dogmáticos» ingleses, durante o salazarismo, justificando não nos poderem apoiar por não sermos reconhecidos pelo Governo da altura (ditatorial….), enquanto tal…. , mesmo apesar das poucas Lojas existentes, sob proposta do executivo em exercício, terem efectuado um esforço e mudado a constituição para verterem nela os célebres «landmarks» e  a obrigatoriedade da crença num «Deus revelado»,  impostas pela «dogmática» ortodoxia anglo-saxónica [13].

O que mais criticamente nos terá afectado, com as inevitáveis  consequências internas (decorrentes da perseguição política vigente) terá sido provávelmente o forte bloqueio imposto às nossas influências internacionais mais próximas (até pelo peso da emigração, nomeadamente GOdF,  GLDF e GOB),  a que não serão alheias as dificuldades que se nos têm deparado, sobretudo depois da liberdade de Abril. 

 Ressaltam provavelmente daqui vários dos entraves,   aparentemente incompreensíveis, impostos posteriormente     por  parte significativa do único Rito praticado à altura (pelas   dificuldades objectivas durante a resistência), propensas a   bloquear a entrada de novos Ritos, como aconteceu com as   primeiras e sucessivas tentativas de  admissão do Rito   Francês. Terá sido   provávelmente o resultado directo da   perda de contacto com   outros Ritos (durante tantos anos de repressão), aliado à   defesa maioritária de Obediências tipo «mono Rito» (exemplo da GLDF com o REAA), que nos apoiou e com quem tínhamos ( e temos) excelentes relações.  

A posterior cisão da futura GLLP/GLRP foi únivocamente provocada pelos defensores da ligação ao «dogmatismo» anglo-saxão, não sómente por uma questão de opção ritualística,  mas também devido à futura possibilidade de acesso aos  enormes interesses estratégicos e capacidade financeiras,  resultantes da larga influência do modelo «dogmático / anglo-saxónico» da Inglaterra (GLUI), nas ex-potências coloniais que lhes estavam adstritas (p.ex. Àfrica do Sul,  Austrália, Índia), para além da difusão e influência organizacional já estabelecida nos maiores países americanos, partindo dos  EUA (antes e depois da indepêndencia), estendendo-se depois para o México, Brasil e  restantes países sul-americanos (onde também já estava no terreno a maçonaria liberal/adogmática)

Partindo duma análise aberta e sem preconceitos  do que como Maçonaria «liberal e adogmática» conseguimos até aquipretendemos perspectivar as dificuldades e/ou oportunidades  que se nos colocam actualmente,  não se irão provávelmente agravar,  ao não nos mantermos atentos e vigilantes, com o rápido desenrolar, a todos os níveis, deste Séc.XXI.
Não será tarefa fácil, mas temos imperativamente de nos adaptar às novas realidades culturais, individuais e sociais que surgiram e se irão acentuar e moldar o futuro. 

Será que daqui a pelo menos 30 a 50 anos a Maçonaria ainda existirá, como tal?   Poderão (ou não) existir eventualmente menos Obediências e Potências (dada a «forçada e eventualmente destrutiva» dispersão actual), podendo até mesmo apresentar as mais novas, também ou inovadoramente, eventual suporte   em potentes e inteligentes computadores, com novas versões de SW, integrando os últimos desenvolvimentos relacionados com a Inteligência Artificial (IA), o que deverá permitir  aligeirar as burocracias internas e realizar quase "Sessões virtuais," acompanhadas pelo Ritual (agora em modo eventualmente mais seguro), mas óbviamente digital… .

II – O retorno à Loja, deverá ser a dinâmica de toda a mudança na Maçonaria:

A Loja tem que se reforçar como o verdadeiro motor das Obediências, obrigando estas a aligeirar os seus cargos e sistemas de controlo ao mínimo necessário, fomentando e simplificando os processos, não complicando e bloqueando, via dos muitos controlos processuais a diversos níveis de poder interno. Provávelmente não será por acaso, que nos últimos anos terão surgido tantas e novas organizações [13] (embora entre estas, existam algumas de carácter pouco recomendável).

Tal como sempre aprendemos com os textos clássicos e também na prática,  a Maçonaria só se pratica, vivencia e entranha  nas Lojas.  Para «desmaterializar» este requisito  essencial já foi produzido, embora não suficientemente provado,  «SW» para o replicar.  Será que conseguiremos virtualizar o ambiente e praticar o ritual como estando numa Loja real? Provávelmente só daqui a 5 ou 10 anos tenhamos respostas mais consistentes. 
Nesse caso,  para nos encontramos fisicamente (essencial na nossa aprendizagem ritualista), restariam pouco mais do que algumas Sessões especiais ou solenes e Congressos ou ágapes ritualizados ou brancos. Será este o futuro que nos espera? Como actualizar os rituais,  mantendo-os como o cimento unificador da aprendizagem e das Sessões, transmitindo e preservando o essencial,  na Maçonaria do futuro? .

Em consonância com a redução progressiva da aceitação dos ideais maçónicos  nas Sociedades ocidentais (sobretudo nas de âmbito de influência dos «dogmáticos», sendo que aqui alguns dos principais motivos são já conhecidos – rigidez ritualística, falta de participação, reduzida periodicidade das Sessões, açcão  voltada essencialmente para a beneficência e muito menos para o estudo, monotonia e falta de inovação, marcadamente tradicionalistas face à sociedade actual, médias etárias elevadas, etc,) iremos também provávelmente assistir  a uma maior retracção dos efectivos das maiores Obediências, eventualmente a par da proliferação de novas, mais reduzidas, flexíveis, dinâmicas e sobretudo menos burocratizadas. 

Outras tenderão ao eventual  enquistamento em micro-seitas,  estáticamente voltadas para o passado, cada vez mais «esotéricas», agregadas eventualmente um líder autoritário (não será só na política… ), que se irão desligando da sociedade real,  vítimas da sua limitação e ineficácia,  até gradualmente desaparecerem.  Algumas tendências «clericais»  do REAA (felizmente em minoria),  não estarão já, sem se aperceberem,  a caminho da  personificação desta faceta??? 

A Loja, além do inesgotável espaço de liberdade que representa, é também um lugar onde se transmite uma Tradição, e onde se espera que os Irmãos mais antigos e/ou  experientes, a continuem a manter, preservar  e representar, interpretando-a e comunicando-a aos mais novos, não esquecendo o «velho» ritual, eventualmente em novos moldes.

Como alerta o Ir:. Marques da Costa [13]:“Precisamos de um diálogo sobre a Universalidade da Maçonaria, um regresso aos seus fundamentos, um Ecumenismo. E o primeiro passo para o ecumenismo é ouvir o outro, pequeno ou grande, antigo ou recente, místico ou racionalista, monogénero ou misto. Um diálogo sem Papas, - porque na Maçonaria também há organizações com vocação para Vaticano e outras com vontade de ter assento no conclave dos cardeais – um diálogo apenas entre maçons que se querem apenas conhecer e reconhecer como tais”.

III – Propostas de Medidas de Reforço e Desenvolvimento, face às Ameaças:

I) - Não podemos continuar a  arrastar o velho «problema» do acesso «feminino»: 
Finalmente o Grão-Mestrado actual teve a coragem de abordar este ponto frontalmente, apesar da NAO:. ser de um modo geral, fortemente conservadora, neste aspecto. As maiores Obediências europeias «adogmáticas» e «liberais» (GOdF e GOB), com que emparelhamos no CLIPSAS ou na UMM, entre outras,   já o resolveram (embora só a partir do segundo decénio do Séc.XXI....). 

Reconhecemos que não é fácil juntar Modernidade com Tradição,  mas já decorreu tempo mais do que suficiente para tal, pois existiram lojas femininas, no inicio da República.  Não esqueçamos  as distintas e pioneiras mulheres portuguesas (Adelaide Cabete, Ana de Castro Osório, Beatriz Ângelo, etc,),  que há mais de um século deram o exemplo e apontaram o caminho do futuro, ficando  para a História como relevantes e incontestáveis  ícones do património maçónico nacional e internacional. Tudo tentaram e fizeram em prol da sua legalização / Iniciação (efectivamente concretizada, mas posteriormente anulada,  pela N:.A:.O:..).

Tenhamos esperança (conhecida contudo a forte resistência de parte do núcleo de controlo «clerical» do REAA…que algo comece finalmente a mudar,  no sentido da aplicação real do «liberalismo» e «adogmatismo» que oficialmente defendemos, mas que na prática só marginalmente aplicamos, ao permitir (em algumas Lojas, normalmente mais no âmbito do Rito Francês),  apenas a visita de Irmãs, em determinadas Sessões de carácter comemorativo mais geral. Se não efectuarmos rapidamente as mudanças internas conducentes à participação integral da mulher, seremos (como já começámos a ser) ultrapassados pela nova concorrência (leia-se, entre outras, «Grande Loja Simbólica  de Portugal»…). e alvo de descrédito crescente, quer a nível nacional, quer internacional. Idênticamente ao que acontece nas associações e empresas da sociedade profana, quem não se adapta, estagna,  decresce e acaba por enfraquecer sucessivamente, até à eventual desagregação….

II) – Cada vez maior número de pequenas «obediências» têm surgido, nas duas  ou três últimas décadas:
Em nosso entendimento,  actualmente este tema configura a ameaça prioritária que se coloca à sobrevivência da Maçonaria de matriz «continental»/ «liberal», enquanto um todo (algumas nascem de origem, outras fruto de cisões, muitas vezes mais artificiais que reais, normalmente para satisfazer as vaidades e ambições, mais profanas que maçónicas,  de alguns candidatos a «caciques» e de vários dos seus apoiantes).   

Consideramos que esta multiplicação de «obediências» (em França já são perto de 150 e em Portugal 21…),  só nos enfraquece, em vez de diversificar e consolidar opções de escolha, como defendem  Roger Dachez & outros [4],[10].  Desacreditam as Obediências Maçónicas mais antigas, históricas  e credíveis e, mais grave,  ao dificultar  a sua urgente renovação e simplificação executiva, processual e funcional, contribuem eficazmente para confundir os cidadãos que eventualmente possam vir a aproximar-se de nós,  pois lhes poderá sugerir  que nos estaremos a transformar em núcleos tipo «evangélicos», com cada vez menor, reduzida, discreta, ou até nula intervenção nacional.

Por outro lado, temos de estar atentos a este fenómeno, pois pode eventualmente representar uma «reação natural» de muitos maçons, ao  cada vez maior «monolitismo» das Obediências tradicionais, demasiado bloqueadas pelos seus pesados processos internos e, na prática, impedindo ou dificultando a necessária e alargada dinâmica funcional, social e motora das Lojas que, convem não esquecer, são as verdadeiras obreiras  das estruturas Obedienciais e não o contrário.. Um ponto pertinente a acompanhar com cada vez mais atenção.

III) – Destruição progressiva e sustentada dos três pilares essenciais do Estado Social - SNS, Escola Publica e Segurança Social:
Apesar de ser esencialmente político, consideramos que este ponto é crucial, , pois  entronca directamente com os nossos princípios da L:.I:.F:., ou seja da construção dum Estado Social. Os grandes lobies privados (mais ou menos apoiados pelos sucessivos governos), tudo têm feito para destruir progressivamente este pilar fundamental de Abril,  já que são as áreas em que o Estado, retirando-se ou actuando em menor escala, como dramática e «liberalmente» acenam, lhes irá proporcionar abundantes lucros. Têm-se especializado na infiltração nos aparelhos partidários governantes, cargos na administração pública em àreas que lhes interessam, tráfico de influências, compadrios, golpes e complots, à custa do erário público, aproveitando a forte especulação e as crises financeiras,  resultando  num crescente aumento das desigualdades sociais.  

Urge renovar e reforçar as correntes humanistas, a luta por um Estado Social e uma Escola Pública dignas desse nome e, no fundo, ajudar a isolar os novos arautos do velho fascismo, agora travestidos nos maiores defensores dos interesses das camadas populares. No entanto o verniz cai-lhes imediatamente, pois logo resvalam para o discurso xenófobo, racista, provocador e sobretudo intolerante, como o dos seus «avós». Uma vez chegados ao poder, tudo farão ao contrário do que apregoam, perseguindo e até prendendo os democratas, destruindo o Estado Social e a Escola Pública,  só lhes interessando as  polícias, as Forças Armadas e a Justiça (porque será???), eliminando a maior parte do aparelho do Estado (em nome duma falsa reduçao de custos...), reduzidindo-o aos grandes interesses, que no fundo lhes estão por trás e não deixarão de apresentar os correspondentes recibos….

Só a plena Liberdade, coadjuvada pela Igualdade e pela Fraternidade,  permite a efectiva construção dum Estado Social, que os Maçons sempre  defenderam. Possuindo perfeita consciência de que não somos nem partido politico,  nem sindicato, ou clube de intervenção, temos contudo firmes princípios éticos e republicanos (democráticos, liberais, progressistas, humanistas, filosóficos, sociais e anti-dogmáticos) que, no seu cumprimento, nos obrigam a alertar a Sociedade e o País, se genéricamente (ou pontualmente) forem desrespeitados os compromissos (ainda) estabelecidos na Constituição da República, quanto a estes pontos (recordemos a mensagem do Grão-Mestre aos Cidadãos em Dez.2022). Esta continuará a ser  uma obrigação de vigilância primordial a manter. 

IV) - Continuar a empregar mais esforço no recrutamento de quadros mais novos:
A partir das Universidades (ou outros Institutos Superiores),  como já efectuado em anos anteriores, é preciso alagar o número de Cursos de História, Mestrado ou Doutoramento em Maçonaria que possamos patrocinar, mas reforçando-os (como também preconiza o programa do actual Grão-Mestrado). Além dos alunos normais das Faculdades que os pretendam frequentar, devemos ter também como base quadros da função pública ou de distintas profissões liberais, desde que a sua admissão seja devidamente cuidada (curriculum, interesses pessoais,  eventuais proponentes). 

O almejado ideal  da constituição duma «Universidade Livre» (a exemplo de Bruxelas), onde teríamos ampla liberdade de formar os alunos, através dum ensino actualizado, científico, progressista, filosófico e laico,  plenamente aderente aos nossos princípios enquadradores de mentes livres em sociedades abertas, humanistas e democráticas, afigura-se-nos cada vez mais distante, pelo meios económicos e físicos envolvidos, mas talvez atingível por outras vias das quais possamos fazer parte.. 

Como os nossos parcos meios financeiros disponíveis são incomportáveis para tal, devemos apontar para  constituir eventuais acordos e participações com organizações e associações congéneres europeias (belgas, francesas e espanholas, por exemplo), onde existem numerosos quadros maçónicos de renome e prestígio internacional, que muito nos poderão ajudar nesta eventual caminhada. Deverá  ser uma prioridade MAIOR a este objectivo. Ao menos aprendamos, pela positiva (mas em radical oposição),  com o «Opus Dei» , a fazer o trabalho de base ( passe a provocação…)  . 

V) – Abertura à Sociedade – sucessivamente pouco desenvolvida ou adiada desde o início do Século: 
 Propomos (em sintonia com o programa da actual Gestão),   a realização de Sessões e Fórums  abertos, quer a nível das   nossas instalações, quer nas mais diversas instituições   culturais  ou sociais,  com  participação de autores,   investigadores,  quadros e personalidades de referência nas     respectivas áreas. Deverá ser dada a possibilidade de   integração de Maçons, abrindo a nossa experiência e     conhecimento de duzentos e vinte anos ao país e aos cidadãos, contribuindo para desmistificar os enigmas da dita «sociedade secreta», com que sempre nos tentam brindar. 

Como correctamente salienta Marques da Costa [13]: “É tempo de deixar de olhar para o passado. É tempo de sair da clandestinidade em que todos no confinamos há demasiado tempo sem o que a Sociedade saiba o que somos, nas nossas diversas vertentes, na rica diversidade que nos caracteriza”. É pertinente tentar encontrar o ponto de equilíbrio para tal, o mais que nos seja possível, sem contudo nos descaracterizarmos.   

Cada Maçom, para além de ter um comportamento ético e moral,  em profunda consonância com os valores que integramos e defendemos, quer no mundo profano, quer a nível interno, tem de ser um divulgador activo dos mesmos junto à Família, amigos, espaço de trabalho (aqui de forma eventualmente um pouco mais cuidadosa, atendendo a eventuais perseguições / incompreensões histórico-sociais sempre presentes, resultantes do longo passado de «demonização» da Maçonaria), associações a que pertença, e ajudando a desmistificar  o modo de vida que a omnipresente sociedade de consumo individualista nos tem imposto pela globalização sem regras, desde os anos 80 do Séc. passado.

VI) – Existência de Lojas de Investigação internas  - ligação ao Instituto Português de Estudos Maçónicos (IPEM): 
Sempre considerámos (talvez incorrectamente) que a criação do IPEM, apesar de estratégicamente importante,    constituiu uma obra que talvez  tenha começado pelo telhado, sem que interna e antecipadamente se tenham  desenvolvido eventuais estruturas de suporte, que lhe pudessem alargar o âmbito e propósitos iniciais. 

Não temos conhecimento que tenha existido, em devido tempo,  solicitação  às  LLoj:. de constituição de pelo menos 1 a 2  LLoj:. mais dedicadas à investigação maçónica, por Rito, facto que achamos incompreensível na mais antiga Obediência portuguesa. Poderíamos ter chamado ao  trabalho mais Irmãos que estivessem interessados, (como há muito, têm feito as mais importantes Obediências). 

Entendendo que o estudo das origens, opções ritualísticas e seus conteúdos, a história, evolução e implantação nacional ou regional da Maçonaria é um dever de qualquer Maçom coerente, poderíamos ter alargado e simultaneamente beneficiado do apoio dos Irmãos de efectiva e provada qualidade, que internamente existem e nos brindam regularmente  com  trabalho de investigação de excelente qualidade, e que em parte, estão na base do IPEM. Assim o universo produtivo de investigação poderia ter sido  maior,  com mais autores da nossa «casa»,  a par dos imprescindíveis internacionais, que nos permitem sempre um alargar de perspectivas mais abrangentes e consistentes, potenciadoras de maiores dinâmicas editoriais. 

Aproveitamos este ponto para saudar com toda  a fraternidade e entusiasmo a vinda a público do  Nº 5 da «Revista de Maçonaria», que não sendo um produto estritamente interno, tem a prestigiada direcção, edição e colaboração de dois dos nossos mais cultos, experientes  e graduados Irmãos, a par de outros que vão surgindo, além de credenciados especialistas estrangeiros, já amplamente reconhecidos. Face a um certo imobilismo reinante nesta área (quer interna, quer externamente), o surgimento desta nova e já prestigiada Revista, representou uma lufada de ar fresco de que tão necessitados estávamos (de louvar «em pé e à Ordem»!!!).  

VII) – Uma Nova Organização para a Maçonaria mais Antiga de Portugal ?:
Para nós, que nunca apoiámos tacticismos estanques ou dilatórios como eventuais impedimentos de alterações estruturais necessárias ou urgentes (nem na vivência profana, quanto mais na maçónica),  é importante questionar  se a inter-organização global actual não estará já ultrapassada, o que poderá contribuir fortemente para as deficiências das interligações da  organização  interna com as Potências,   a par das ligações externas a outras Obediências (reconhecidas por tratados, ou a reconhecer). 

Face ao passado dos últimos decénios, decorrentes da fraqueza com que chegámos à liberdade de Abril, defendemos que se deverá analisar crítica mas construtivamente, o muito que se fez, os erros cometidos e o muito que temos de modificar, construindo  as novas bases, decidindo cuidadosamente, mas sem perda de tempo. 

Será que não poderiam ou deveriam existir mais um ou outro Rito (pois uma ou outra patente já nos foi, ou  poderia ter sido concedida, se em tempo estivéssemos, interessados em tal). É a diversidade e não o monolitismo que faz a riqueza das Organizações, e este princípio é de aplicação geral, independentemente da natureza específica de cada Organização (e do «mercado» a que se destine). 

O facto de poderem vir  existir mais do que 2 Ritos, pesem embora as dificuldades (em sentidos opostos,  dos dois existentes…..) poderia vir a potenciar a criação duma eventual Câmara de Ritos (coordenada por um Irmão de prestígio inabalável e inquestionável,  e nomeado por consenso), à semelhança do que acontece no GOdF  por exemplo  (mas não só), mas com o devido cuidado funcional de não criar mais um eventual nó de disfunção organizacional, mas adaptado cuidadosamente à dinâmica e à realidade nacional. 

Evitando eventuais acréscimos de conflitualidade de gestão entre Odediência / Potências (urge precisamente o contrário), tal poderia possibilitar uma gestão mais eficaz e coordenada da Organização Maçónica global, no sentido dum maior e melhor entrosamento relacional, simplificando e uniformizando processos, maior ligeireza funcional e sobretudo antecipar e evitar bloqueios decorrentes das sempre presentes tentativas de poderes pessoais indevidos (e por vezes mesquinhos), que são  o verdadeiro «nó górdio» do bloqueio das Organizações tradicionais.  

Pela experiência passada e análise histórica do período democrático, somos levados a  acreditar que poderiam assim, terem-se atenuado os permanentes enquistamentos paralisantes dum Rito, que por ser largamente maioritário, se tem arrogado a um controlo e bloqueio obsessivos da maior parte das  mudanças fundamentais que se têm colocado. Ao mesmo tempo, também talvez já estivessem ultrapassadas as inexplicáveis questiúnculas e rivalidades da conflitualidade «espúria» entre os corpos superiores do Rito Francês, que há muito deveriam estar resolvidas, com a imprescindível e fraterna Unidade (o que, de forma alguma, deve ser entendido por sinónimo de unanimismo). 

A  injustificável situação actual, prejudica fortemente quem pretende evoluir no Rito e a imagem e consistência do mesmo, precisamente o que provávelmente (na nossa modesta perspectiva),  mais fácilmente se adequarà à vivência do Séc. XXI  e aos princípios «adogmáticos, liberais e laicos» que defendemos.  

Óbviamente não está em causa a independência da gestão das Potências, face à gestão das  Lojas Azuis, mas simplesmente o tentar reduzir e acabar com quintas, quintinhas, afilhados e  protegidos, cujo resultado prático tem bloqueado funcional e evolutivamente a Organização, mesmo que não tenha sido esse o objectivo concreto. 

Quer isto dizer que as grandes organizações históricas estão  condenadas? Não, mas têm de compreender os sinais do mundo em que se  inserem e adaptar-se. Adaptarem-se não é passarem a ser aquilo que os outros são. Não é desidentificarem-se. É apenas perceber que a sua relação com  alteridade tem de mudar. Reconhecer o «Outro» é aceitar a sua diferença e dialogar com ela para enriquecimento recíproco.  Para isso é preciso mudar o paradigma funcional e dar às Lojas e ao Maçons a liberdade de conhecer a diferença e com ela dialogar livremente. De mudar até de linguagem.[13].

Os homens verdadeiramente «livres e de bons costumes», não podem trabalhar  acorrentados de espírito individualista,  seguidista, carreirista, ou de outros interesses mais ou menos dependentes de eventuais «oportunidades» (confundindo a política profana com eventual âmbito dos metais, mistos ou outros).   A  N:.A:.O:. tem de exigir mais e melhor !!!! (apesar de eventuais desvios serem inerentes à espécie humana..., como é usual ouvirmos, sempre que se manifestam

Há que «tocar a reunir» as melhores forças disponíveis (exemplo que desde o início, o actual Grão-Mestrado se tem esforçado por transmitir) e  ter a coragem e vontade de trabalhar afincadamente para o conseguir , caso contrário a estrada que nos reservará o futuro, dependendo de nós,  ficará cada vez mais reduzida a uma via estreita. Provávelmente poderá haver alguns que esperam ganhar com isso, mas não será por certo a Maçonaria «liberal e adogmática».  

Como oportunamente diagnostica Marques da Costa [13]: “O modelo obediencial das grandes organizações históricas é um dos desafios que está colocado à Maçonaria contemporânea. Modelo pesado, dispendioso e excessivamente normativo. O seu peso organizacional é limitativo e território fértil para querelas e quezílias internas mesquinhas, lutas pelo controlo do seu poder, de ambições  por pequenos poderes, sem qualquer poder, nem significado maçónico, ou, pior ainda, solo onde germinam poderes fáticos, penumbras onde se exerce uma autoridade sem legitimidade democrática. Não defendemos o desaparecimento das Organizações. Defendemos sim, que para elas sobreviverem e vencerem através da atractividade e flexibilidade, devem ser reduzidas a uma expressão minimalista, de mero elo de ligação administrativa, perdendo a ambição de tudo querer legislar e decretar”.

E reafirma ainda que: “É contra este modelo organizacional  pesado e monolítico, hiper-regulamentado e algo dogmático em que a sua gestão, ou intriga sobre a sua gestão, ocupa tanto tempo a maçons e lojas, que muitos maçons hoje se revoltam, não se reconhecendo já na sua majestática utilidade, ansiando antes, por estruturas mais flexíveis, em que o centro tenha funções  minimalistas e sirva apenas como elo de ligação; que seja acessório e não central no trabalho maçónico.
É a esta realidade organizacional que a  sociedade contemporânea coloca desafios que não podemos ignorar” [13].

Termino, regressando novamente à já tão discutida (e actualmente em análise pelo GM, após recepção das  respostas solicitadas às Lojas)  «questão feminina», empurrada com a barriga durante vários mandatos, por motivos que muitos  sabem e que alguns responsáveis sempre pretenderam calar mais eficazmente pelo silêncio, ou com argumentos contraditórios, sem sentido ou perfeitamente desajustados face à época actual.  

Defendemos que nenhuma Loja deverá ser obrigada superiormente a aceitar ou rejeitar Irmãs. Aquelas que maioritáriamente aprovarem  concretizá-lo, não poderão ser bloqueadas ou suspensas,  isto sem prejuízo do cumprimento integral dos normativos legais e procedimentais a serem necessária e eventualmente redefinidos,  para a sua implementação. Tal  exigirá de toda Ordem,  do C:.O:., de todos nós (e sobretudo da Grande Dieta), um enorme e intenso trabalho.  Por último e com a experiência adquirida, estatutária e organizacionalmente estabilizada, algumas LLoj:. poderão, eventualmente  mais tarde,  decidir tornar-se unicamente femininas, a par das que entenderem continuar sómente masculinas (mantendo o «status quo» actual). 

Caminharemos assim para o futuro, no  Século XXI,   em plena sintonia com o enquadramento maçónico «Liberal e adogmático» que perfilhamos e defendemos,  com vigor e rigor, trilhando finalmente os caminhos dignos duma Maçonaria  aberta a toda a Humanidade,  de que nos possamos orgulhar. Fraternalmente pretendemos contribuir para a transformar num estado mais avançado, em todas as áreas, de acordo com os desafios que este Séc.XXI nos obrigará a enfrentar, para sobrevier e tentar recuperar a influência do passado,  honrando quem nos antecedeu (em pelo menos 100 anos),  ao mesmo tempo que fortaleceremos condigna e apropriadamente  a Cadeia de União actual, sobretudo numa perspectiva de futuro ….  

Salvador Allende  M:. M:.

(Maio.2023,  e:.v:.)

(publicado com a devida vénia e agradecimento  ao Blog «Comp&Esq»)


Bibliografia

1 - “Dicionário da Antiga e Moderna Maçonaria” – Manuel Pinto dos Santos, Lisboa 2012
2 – “Democratie et Franc-Maçonnerie”  – L´Edifice.net@ledifice.net»”  – s/ autor expresso («X.M.»)
3 – “La Symbolique Maçonnique du Troisième Millénaire” - Mainguy,  Irène -– Éditions Dervy, 2006, Paris
4 – “Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” – Daniel Ligou,  Éditions PUF, 2015 (3ªÉdition), Paris
5 – “L’Apprentissage Maçonnique - Une École de L’éveil» - Béresniak, Daniel, Éditions Detrad – 2009, Paris
6 – “Le Petit Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” -  Guy Chassagnard – Éditions Alphée, 2005
7 – “O Mundo de Amanhã – Geopolítica contemporânea” – Carlos Gaspar – Fundação FMS
8 –  “Avanços Tecnológicos e o Futuro da Maçonaria“ – Hercule Spoladore - Revista digital “ACML News” nr.3,      20.Ago.2017
9 – “Grand Orient.- las vérités do G.M. do GOdF” - ALain Bauer – Éditions Denoel, 2002.
10 –  
Salvador Allende M:.M:. - “A Maçonaria no Século XXI - algumas Interrogações” –  (Blog “Jakim & Boaz”)
11 –  Salvador Allende M:.M: - “A  integração nas Obediências  «Liberais» e a questão da «inclusão Feminina»  – (RL:. Salvador Allende - GOL) - Set.2022
12 –  Salvador Allende M:.M:. - “Para uma nova Ética Social em Pleno Século XXI” –  (Blog “Jakim & Boaz”) – Ago.2022
13 – “A Virtude da Diversidade e o porquê da sua  Inevitabilidade” – Fernando Marques da Costa  – in «Revista de Maçonaria» Nº 5 – Nov.2022 - Lisboa
14 – “Pour retrouver la Parole - le retour des Frères”  - Roger Dachez, Alain Bauer, Bruno Étienne, Michel Maffesoli – Paris 2006


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