Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)

28 de abril de 2026

Quando o Som se Torna Luz: Rituais, Símbolos e Música


GOL, Arte e Maçonaria  no Feminino




No âmbito do 15º Aniversário da N:.R:.L:. , e no âmbito do título acima,  realizámos em 27.Abr. um encontro e jantar (sessão branca) de confraternização. Estiveram presentes o Gr:. Sec:.  (representado o G:.M:.), e o Intend:. Património do GOL, bem como diversos Amigos e Irmãos, além de Irmãs da GLFP / Loj:. Maat , em que a Resp:. V:.M:.nos presenteou com a comunicação que abaixo se transcreve. 



Quando o Som se Torna Luz: Rituais, Símbolos e Música

([MÚSICA – Passacaglia | 0:00–0:35])

A relação entre rituais, símbolos e música atravessa a experiência humana como uma estrutura persistente, ainda que muitas vezes invisível. Mais do que expressões culturais isoladas, estas formas constituem modos de organização do sentido, dispositivos através dos quais o indivíduo interpreta, habita e transforma a sua relação com o mundo.

O ritual não se reduz a uma sequência codificada de gestos. Ele configura-se como uma prática estruturante que organiza o tempo, regula a ação e institui uma diferença face ao quotidiano. Ao delimitar um espaço e um tempo próprios, cria condições para uma experiência marcada pela intensidade e pela possibilidade de transformação.

A repetição, neste contexto, não é redundância, mas condição de eficácia. Ao reiterar-se, o gesto ritual não se esgota; acumula densidade, estabiliza a experiência e produz continuidade.

A reflexão de Catherine Bell introduz aqui uma mudança importante de perspectiva. Em vez de tratar o ritual como uma entidade fixa, propõe pensá-lo como processo — ritualização. O essencial não está no que o ritual é, mas no modo como certas práticas são diferenciadas, organizadas e investidas de significado. A ritualização funciona, assim, como uma estratégia que estrutura a ação e orienta a percepção.

Neste enquadramento, o símbolo emerge não como um elemento decorativo, mas como operador central. Ele não se limita a representar; participa na produção do real. A sua eficácia reside na abertura.

Paul Ricoeur sublinha que o símbolo nunca se esgota numa interpretação única. Há sempre um excedente de sentido que escapa à leitura imediata, convocando uma participação ativa. O símbolo não fecha; mantém em aberto.

É neste ponto que a perspectiva de Nelson Goodman acrescenta uma nuance decisiva. Para Goodman, os sistemas simbólicos não são apenas meios de representação, mas formas de construção de mundos. A arte — e, por extensão, a música — não reproduz a realidade; produz versões dela.

A noção de “worldmaking” permite compreender que os símbolos não apontam para um mundo dado, mas participam na sua configuração. Diferentes sistemas simbólicos organizam a experiência de modos distintos, criando realidades múltiplas, cada uma com a sua coerência interna.

Neste sentido, o ritual pode ser entendido como um dispositivo de worldmaking: através da combinação de gestos, símbolos e sons, constrói um mundo temporário, mas eficaz, no qual o participante se insere.

A música inscreve-se plenamente neste processo. Não opera por referência, mas por apresentação. Susanne Langer descreve-a como uma forma simbólica não discursiva, capaz de estruturar diretamente a experiência emocional.

A música não diz o que sentimos; dá forma ao sentir. Organiza-o no tempo, através de padrões de tensão, expectativa e resolução.

A articulação com Goodman torna-se aqui evidente: a música não representa emoções preexistentes, mas constrói configurações possíveis da experiência. Ao fazê-lo, cria mundos sensíveis onde determinadas formas de sentir se tornam habitáveis.

O ponto de partida continua a ser físico. O som é vibração, propagação, captação. No entanto, esta dimensão material não esgota o fenómeno. O corpo responde ao som de forma imediata.

O ritmo reorganiza a respiração, influencia o batimento cardíaco, induz movimento. O fenómeno de entrainment evidencia essa tendência para a sincronização: o organismo alinha-se com o ambiente sonoro.

([MÚSICA – Autumn Leaves | 15–30s)

A investigação contemporânea, nomeadamente no trabalho de Dimitris Xygalatas, permite aprofundar esta dimensão. Os seus estudos mostram que os rituais intensos, frequentemente acompanhados por música e ritmo, produzem efeitos mensuráveis no corpo e no comportamento.

A sincronização fisiológica e emocional entre participantes não é apenas uma perceção subjetiva; é um fenómeno observável. Rituais coletivos podem aumentar a coesão social, intensificar o sentimento de pertença e reforçar a cooperação.

Xygalatas demonstra que quanto maior a intensidade ritual — incluindo a dimensão sonora — maior tende a ser o impacto na ligação entre os participantes. A música, ao alinhar corpos e emoções, torna-se um dos principais vetores dessa coesão.

Num contexto ritual, esta capacidade adquire um papel central. A música não acompanha apenas a ação simbólica; prepara o corpo, orienta a atenção e facilita a entrada num estado diferenciado de experiência. Antes da compreensão, há envolvimento.

A antropologia clássica descreveu este processo em termos de transição. Arnold van Gennep identificou os ritos de passagem como momentos estruturais. Victor Turner aprofundou esta análise ao introduzir a noção de liminaridade.

O estado liminar caracteriza-se pela suspensão das categorias habituais. O indivíduo encontra-se entre identidades, num espaço de indeterminação.

([MÚSICA – Gnossienne No.1 | 0:00–0:30])

A música sustenta esse espaço. Através da repetição e da continuidade, impede a dispersão. Através da variação, mantém a dinâmica.

A leitura de Catherine Bell permite compreender que esta experiência não é apenas vivida, mas produzida. A ritualização molda a perceção, direciona a atenção e organiza a forma como o participante se relaciona com o que acontece.

A música participa ativamente nessa construção. Ao estruturar o ambiente sensorial, contribui para definir o que é relevante, o que deve ser sentido, o que deve ser ignorado.

O tempo constitui outra dimensão essencial. A música não decorre simplesmente no tempo cronológico; cria um tempo próprio. Um tempo vivido, qualitativo.

Mircea Eliade descreve o tempo ritual como uma rutura com o tempo profano. A música contribui para essa rutura ao reorganizar a perceção temporal. Um momento pode expandir-se, intensificar-se, suspender-se.

([MÚSICA – Quatuor pour la fin du temps | ~início do andamento | 30–40s])

Neste contexto, o silêncio assume uma função estruturante. Não como ausência, mas como condição. Delimita, prepara, abre espaço para a escuta.

([PAUSA – silêncio 2–5s])

A alternância entre som e silêncio cria uma dinâmica que espelha ciclos fundamentais: ação e pausa, presença e recolhimento.

A dimensão coletiva emerge com particular intensidade. A sincronização rítmica e emocional produz um efeito de coesão. Durkheim descreveu esta experiência como uma energia coletiva que transcende o indivíduo.

Os dados empíricos trabalhados por Xygalatas reforçam esta intuição: a participação conjunta em práticas rituais sincronizadas aumenta a confiança, a cooperação e o sentimento de pertença.

No entanto, esta dimensão coletiva não elimina a experiência individual. Cada participante interpreta, sente e integra de forma singular.

A eficácia do ritual reside precisamente nesta articulação. A ritualização estrutura a experiência, mas não a determina por completo. Permite uma partilha sem anular a diferença.

A tradição maçónica oferece um exemplo claro desta articulação complexa. A música integra o ritual não como ornamento, mas como componente funcional.

A obra de Mozart, especialmente A Flauta Mágica, evidencia esta integração. A música estrutura o percurso simbólico, intensifica as transições e participa no processo de transformação.

([MÚSICA – Der Hölle Rache | 1:30s)

No interior das lojas, a música assume formas diversas, variando consoante o rito. Estas variações podem ser compreendidas, à luz de Catherine Bell, como diferentes estratégias de ritualização.

Cada escolha — sonora, espacial, gestual — contribui para a construção de uma determinada forma de experiência.

A perspetiva de Goodman permite acrescentar que estas práticas não apenas organizam a experiência, mas constroem mundos específicos, com regras próprias e formas particulares de sentido.

Mesmo fora de contextos iniciáticos, estas estruturas persistem.

Na música contemporânea, encontramos múltiplas formas de continuidade. No jazz, a improvisação cria experiências únicas e irrepetíveis. No rock, os concertos assumem frequentemente uma dimensão coletiva intensa. 

([MÚSICA – Wind of Change | 2:00)

Em todos estes casos, podemos identificar processos de ritualização. Organizam o tempo, estruturam emoções, criam comunidade.

Num mundo marcado pela aceleração e pela fragmentação, estas experiências mantêm a sua relevância. Respondem a uma necessidade persistente de duração, de pertença e de sentido.

Rituais, símbolos e música continuam, assim, a operar como formas fundamentais de organização da experiência humana.

Através deles, o corpo, a emoção e o pensamento encontram um ponto de convergência. Um espaço onde diferentes níveis de realidade se articulam.

No fundo, é nesse espaço que o som se torna luz: não por deixar de ser som, mas por tornar visível — ou sensível — aquilo que, de outro modo, permaneceria inacessível.

([MÚSICA FINAL – Trova do Vento que Passa | 0:00–até ao fim])

Mas há sempre uma candeia

Dentro da própria desgraça

Há sempre alguém que semeia 

Canções no vento que passa


 Mariana N:. 

GLFP - Loja Maat,  Abril, 2026 -

(15ª Aniversário da RL:. Salvador Allende, GOL, Lisboa)


Referências 

Bell, Catherine. Ritual Theory, Ritual Practice. New York: Oxford University Press, 1992.

van Gennep, Arnold. The Rites of Passage. Chicago: University of Chicago Press, 1960 (orig. 1909).

Turner, Victor. The Ritual Process: Structure and Anti-Structure. Chicago: Aldine Publishing, 1969.

Durkheim, Émile. The Elementary Forms of Religious Life. New York: Free Press, 1995 (orig. 1912).

Eliade, Mircea. The Sacred and the Profane: The Nature of Religion. New York: Harcourt, Brace & World, 1959.

Goodman, Nelson. Ways of Worldmaking. Indianapolis: Hackett Publishing, 1978.

Ricoeur, Paul. The Symbolism of Evil. Boston: Beacon Press, 1967.

Langer, Susanne K. Philosophy in a New Key. Cambridge: Harvard University Press, 1942.

Xygalatas, Dimitris. Ritual: How Seemingly Senseless Acts Make Life Worth Living. New York: Little, Brown Spark, 2022.

Chailley, Jacques. The Magic Flute, Masonic Opera. Rochester: Inner Traditions, 1992.


Referências Musicais

George Frideric Handel. Passacaglia (Suite para cravo em Sol menor, HWV 432), Lola Astanova.

Oscar Peterson. Autumn Leaves. Em Night Train. Verve Records, 1963.

Erik Satie. Gnossienne No. 1. Alexandra Whittingham. 

Olivier Messiaen. Quatuor pour la fin du temps (V. IV interméde).

Wolfgang Amadeus Mozart. “Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen” (Ária da Rainha da Noite), em Die Zauberflöte, K. 620. Farrel Vernon, The Forgotten Saxophone, New Music for the Sopranino.

Scorpions. Wind of Change. Em Come Black. Mercury Records, 1990.

UHF. Trova do Vento que Passa. A Herança do Andarilho.


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