Voltando à frase do meu velho professor, os seus conhecimentos de botânica, de farmacologia, foram únicos no seu tempo (escreveu Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia (1563), obra mista de medicina, farmacologia e filosofia natural, que revolucionava os conhecimentos da velha Europa, valendo como reação contra o saber dos Antigos, como afirmação dos valores da experiência e das aquisições científico-naturais), resultado do seu convívio com outras culturas (e civilizações), e de uma procura incessante pelo saber que o levaram à partilha de conhecimento com cientistas árabes e hindus.
Garcia de Orta conviveu com o “outro” num tempo em que o outro era o infiel. Não apenas porque valorizava a ciência, a procura do conhecimento, mas também porque (assim gosto de acreditar) o contacto com outros povos o tornou melhor homem; porque as suas viagens o “educaram” a ver no outro um igual. Alguém com quem partilhar o pão (e a razão).
Pela minha parte, este exemplo de Garcia de Orta levou-me a acreditar que será pelo conhecimento que aumentamos a “possibilidade” de nos tornarmos melhores homens, mais capazes de compreender o mundo e os outros homens. Se tomarmos como ponto de partida o legado do homem do renascimento que foi Garcia de Orta, capaz de pensar o mundo concreto e a capacidade do ser humano em compreendê-lo e assim transformá-lo - em oposição aos valores feudais do misticismo e da religião – podemos almejar tornar perene (pelo legado humanista que deixamos) a nossa breve estadia no mundo.
Resta dizer, porque não de somenos, que Garcia de Orta foi um marginal no seu tempo, devido à sua ascendência judia. A sua família, explulsa de Espanha, sofreu às mãos da inquisição também no Portugal de Quinhentos (nclusive uma irmã, Catarina, foi condenada à fogueira, e efectivamente queimada, pelo crime de judaísmo). Passou dificuldades financeiras extremas e, após a sua morte, em 1580, o Tribunal do Santo Ofício acabou por condená-lo post-mortem, também pelo crime de judaísmo, desenterrando e queimando os seus ossos (juntamente com exemplares do seu livro).
Também pela agressão que sofreu na morte, escolher (lembrando e homenageando) Garcia de Orta como nome simbólico faz todo o sentido. Afinal, devemos ao nosso futuro transportar em vida o legado de aqueles que foram os nossos melhores.
Garcia de Horta, Apr,',


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