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20 de março de 2026

Séc. XXI - Actualização da Maçonaria face à Sociedade - o caminho da Incerteza ? (I)



Séc. XXI - Actualização da Maçonaria face à  Sociedade - o caminho da Incerteza ? (I)


                   


I - Introdução

A Maçonaria,  credenciada como uma das mais antigas e discretas instituições fraternais do mundo, carrega consigo séculos de tradição, conjuntamente com uma forte ligação a valores como a Liberdade, Igualdade, Fraternidade e aperfeiçoamento individual   da pessoa humana. Tem procurado,  ao longo da sua história, adaptar-se às sucessivas mudanças sociais e culturais, ao mesmo tempo que tenta preservar os princípios e valores que a definem. No século XXI, a modernidade dos novos costumes, hábitos e ideias sociais, aliada ao impacto das novas tecnologias, representam um novo e enorme desafio  para a instituição. Importa pois analisar e perspectivar, face ao papel que a Maçonaria desempenhou até hoje, qual o que poderá vir a desempenhar  na sociedade e no país e até globalmente, no novo mundo «digital» que entrelaça o planeta em que nos inserimos. 

Referimo-nos essencialmente à corrente «liberal / adogmática» a que estamos adstritos e que entre nós leva já mais de 2 séculos de existência ininterrupta. 

A Maçonaria sempre  promoveu a convivência fraternal num ambiente restrito, de seres humanos (na altura só homens) livres e de bons costumes devidamente selecionados, em que o Simbolismo e o Rito desempenham um papel fundamental na formação dos membros. O uso de ferramentas tradicionais como o compasso, o esquadro, a régua, o malhete e o cinzel, herdados da maçonaria operativa,  simbolizam o aperfeiçoamento contínuo do ser humano, algo que, à primeira vista, pode parecer distante das inovações tecnológicas actuais, mas é através das distintas simbologias e orientações apresentadas que encaminhamos os nossos passos rumo ao aperfeiçoamento humano individual, para melhoria de toda a Humanidade. Todavia, o mundo moderno não para, avançando a um ritmo  cada vez mais frenético, e a Maçonaria, com o seu histórico de adaptação e evolução, enfrentará também o desafio de integrar as inúmeras e novas oportunidades, sem contudo perder a tradição que a distingue e caracteriza.  

Recorde-se que, curiosamente, um dos primeiros pontos de contacto da Maçonaria com as novas tecnologias foi a digitalização dos seus processos internos. Históricamente, a comunicação entre as lojas maçónicas era feita por correspondência física (papel ou cartão), com um alto grau de confidencialidade e protocolo. Hoje, com a expansão das plataformas digitais, muitas dessas práticas passaram a ser realizadas por meios electrónicos, como «e-mails» e até sistemas e plataformas de SW de gestão aplicacional e de base de dados. Tal facilita e agiliza quer a gestão interna das organizações, quer  a comunicação entre os membros, economizando tempo e reduzindo custos operacionais. 

Contudo, esta transição também traz enormes desafios e preocupações, que devem ser (e foram) tidos em conta desde o início das respectivas implementações,  tais como a necessidade de manter a segurança das informações e garantir que os valores de confidencialidade e discrição da Maçonaria sejam preservados no ambiente digital, já que, como costuma dizer-se, «uma vez no digital, no digital para sempre». Ferramentas de criptografia e sistemas de autenticação avançados têm sido adoptados, no entanto dada a proliferação constante de SW maligno de intrusão,  utilizados pelos «hackers» e pirataria,  não é possível garantir que os dados sensíveis permaneçam sempre protegidos a 100%. Este é um dos principais pontos a ter em atenção, quer para as organizações actuais, quer  ainda mais, para as futuras.

Neste já longo percurso, devemos ter um imenso orgulho no facto do N:.A:.O:. ser a 2ª obediência mais antiga da Europa em funcionamento ininterrupto (logo a seguir ao GOdF).  Por certo poderíamos ter feito mais e melhor, mas também somos consequência quer de vários problemas, a nível interno e externo, decorrentes da envolvente politico-geográfica regional e internacional, que nos tem condicionado ao longo da história e a que não podemos ser alheios, antes e depois da liberdade de Abril.

II – Maçonaria versus Democracia 

Permitam-me que partilhe convosco,  algumas breves reflexões que sobre este tema tenho vindo a efectuar,  com o  intuito de tentar correlacionar estas duas forças que mutuamente se alimentam (Maçonaria e Democracia). Responsáveis pelo avanço civilizacional e humanista dos três últimos séculos, apesar das terríveis barreiras dos poderes autocráticos dos séculos XVIII a XX, e das duas terríveis guerras mundiais deste último. 

Como reação à geral incapacidade (ou falta de vontade)  politica em inverter a situação de crise das democracias ocidentais, conjuntamente com os problemas decorrentes da integração na UE (perda de autonomia, dirigismo supra-nacional não escrutinado, incompetência, inconsistência, manipulação manifestada por vários actores politico-económicos e até alguns casos de corrupção), movimentos populistas e extremistas começaram a ressurgir nas últimas três décadas. Tendo obtido crescente apoio nos últimos anos (com as eleições de Trump,  Victor Orban,  e agora novamente Trump, entre outros,  e já bem representados no nosso país, após as duas últimas eleições), procuram ansiosamente destruir as democracias ocidentais, substituindo-as por regimes musculados, disfarçados de democracias «iliberais».  

Adicionalmente já temos estes regimes autodenominados «iliberais», instalados na Hungria e na Chéquia e Eslováquia, e em risco de instalação na Roménia e Bulgária, isto para referir só a Europa. Serão sómente saudades do ex-partido único de passado recente???.... Se nada for concretizado para lhes retirar argumentos e os combater com mais eficácia, é muito possível que Espanha, Alemanha (onde a extrema-direita  ficou em 2º lugar, nas últimas eleições)  Aústria,  até mesmo o nosso país, sejam os próximos candidatos. Recorde-se também que nos últimos anos, no que apelidávamos paraíso nórdico europeu, têm também existido governos de coligação da direita com a extrema-direita, (face à grande subida dos extremistas, consequência dos  problemas relativos à emigração e à perda de valor de subsídios e reformas dos naturais). 

Platão escreveu que a democracia inevitavelmente tem a tirania como sua sucessora, por causa dos excessos de liberdade. Lembremo-nos porém de Winston Churchill, numa das suas frases mais divulgadas: “A democracia é  a pior forma de governo, com a excepção de todas as demais” ou:  “A democracia é  o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor do que ela!”.. Contudo não nos podemos esquecer que bestas imundas (como Hitler, e outros)  chegaram ao poder, por via democrática, sendo esta uma das fragilidades das democracias, podendo (sem o pretender) através do voto e em situações de crise, dar o poder aos seus piores inimigos.


III – No futuro, que desafios?

Com a Globalização e o suporte à sociedade planetária digital, desenvolveram-se a robótica, a nanociência, a realidade virtual, a mecatrónica, as neurociências,  a IA - Inteligência Artificial e outras tecnologias. O  mundo mudou e está a mudar a uma velocidade acelerada e a maior parte de nós só agora começa a perceber que já entrámos numa nova era, suportada numa evolução tecnológica dificilmente imaginada,  há cinquenta anos atrás.

No passado a Maçonaria, de forma mais ou menos estruturada, foi-se expandindo pelo mundo, quase sempre em coincidência com alguma agitação política contra o dogmatismo e o totalitarismo, sempre  em prol dos seus valores e princípios democráticos,  que de certa forma alavancou  a organização da Ordem, provocando por vezes cisões, rivalidades  e guerrilhas internas diversas, originadas quer pelo pernicioso conflito com a auto-denominada «regularidade», ou pela  prevalência dos valores profanos na mentalidade de alguns Irmãos (vaidade,  carreirismo, ganância de poder, ambição desmedida, mentira, etc).  

Contudo a grande maioria dos Irmãos, felizmente, ainda persistem em assimilar os antigos e sólidos ensinamentos de auto-aperfeiçoamento e evolução espiritual, construindo-se como verdadeiros Maçons. Por outro lado a Ordem também é, de modo geral,  conservadora. Parece ainda não contarem muito para ela, em alguns casos,  os actuais avanços da ciência e os novos valores sociais, atrasando normalmente  a sua aplicação até não poder evitá-lo (vidé o acesso das mulheres). Reconheçamos contudo que não é fácil juntar Modernidade com Tradição.

Como bem questiona o Ir:. H. Spoladore [9]: “Qual a função do Maçom no futuro? Social, cientifica, política, cidadão do universo? Ou será apenas de estudos e auto-aprendizagem e conhecimento? Qual será o conceito de fraternidade entre os maçons do futuro? Haverá potências como as conhecemos hoje e qual será o conceito avançado do G.A.D.U.? “

Acreditamos que talvez daqui a pelo menos 50 anos a Maçonaria continuará a existir, mas quase por certo em moldes diferentes dos actuais. Poderão existir  talvez menos potências, eventualmente suportadas em potentes e inteligentes redes e sistemas computacionais, utilizando versões específicas de SW, integrando plenamente os últimos desenvolvimentos da Inteligência Artificial (IA) e permitindo a virtualização   de parte significativa das Sessões normais. Tudo poderá ocorrer de  forma  diferente da actual ou até do que a nossa imaginação possa alcançar. Surge no entanto um obstáculo primordial, já que como sempre nos ensinaram, a Maçonaria só se aprende e pratica nas Lojas. Como «desmaterializar» este requisito  essencial? Será que poderemos ter um robot  a ler--nos pranchas de simbolismo e ritualística, ou até de ordem geral, ensinando-nos temas pré-selecionados ??? (aqui a IA já praticamente o faz actualmente…).

Os genes humanos continuarão a transmitir as mesmas características programadas de há duzentos mil anos atrás, apesar da evolução [9]. As guerras, cada vez com armas mais sofisticadas, com armamentos de destruição em massa, justamente por causa da ambição, vaidade, inveja, mentira e outras qualidades «bestiais» que nos foram legadas através deles (genes), deverão perdurar, a não ser que sejam modificados pela ciência, como já alguns aventureiros pretendem. Estes perspectivam apagar neles algumas ou todas as qualidades deploráveis (enquadramento que poderá contribuir, levado ao extremo,  para o auto-extermínio da raça humana, na luta pelo ser humano «ideal»…). 

O Homem, atendendo à sua natureza intrínseca e ao poder que poderá ser dado a dirigentes sem escrúpulos e radicais,  poderá usar a máquina para ter mais poder sobre os seus semelhantes, mas a máquina (de per si) não deverá ser capaz de fazer isso. 

O software irá continuar a desactivar a maioria das atividades tradicionais nos próximos cinco ou dez anos. Através da capacidade e potência quase ilimitada da Inteligência Artificial, os computadores estão a tornar-se exponencialmente melhores no entendimento do mundo. 

Nos Estados Unidos desde há pelo menos 6 a 8 anos, os advogados jovens (entre outros) estão a perder o emprego, já que com o Watson (supercomputador da IBM) é possível conseguir aconselhamento legal dentro de segundos, com mais de 90% de exatidão quando comparado com  os actuais 70% obtidos pelos advogados, utilizando métodos convencionais. [9]

Com a significativa queda do preço das impressoras 3D nos últimos 10 anos, aliada ao enorme aumento de velocidade  (cerca de 120 vezes mais rápida), muitas fábricas de sapatos começaram a imprimir sapatos em 3D e várias peças de reposição de aviões já são impressas em 3D em aeroportos remotos. Imagina-se que até o ano 2030, 15% de tudo será impresso em 3D [7] (podendo até vir a  incluir novas casas e blocos de apartamentos de pequena/média dimensão, se os custos das impressoras e materiais específicos, diminuírem significativamente). 

A partir de  2020/5,  a indústria automobilística tradicional começou a ser «demolida».  No futuro não haverá provavelmente  necessidade de carta de condução ou de ser dono de um carro. Isso mudará para melhor as cidades (muito menos carros), além de que cerca de 90% dos carros actuais estarão completamente desatualizados, sendo até proibidos de circular pela poluição que provocam.

As fábricas automobilísticas tradicionais foram obrigadas a  adoptar uma técnica evolucionista e fabricam carros cada vez melhores, híbridos e agora já 100% eléctricos, para conseguirem cumprir as metas de descarbonização e resistir ao enorme confronto, com as marcas chinesas e a Tesla. Os fabricantes japoneses e europeus,  tentam adaptar-se pela tecnologia do «híbrido»,  na perspectiva do hidrogénio e de novo tipo de baterias, de forma a manter a vantagem, pela adaptação evolutiva da sua estrutura base tecnológica analógica, combatendo o domínio chinês no mercado eléctrico e nas baterias, diminuindo a dependência de matérias primas e metais raros que lhe estão inerentes (e em que a China é o 1º produtor mundial). 

Por outro lado, a eletricidade tornar-se-á mais barata, especialmente via componentes complementares solar e eólica, que se juntam à hídrica tradicional. Teremos adicionalmente água potável abundante e a baixo custo, através da  dessalinização da água do mar.

Quanto à Longevidade humana, possivelmente dentro de 40 anos a sobrevivência média estará à volta dos  100 anos. Na Educação, com os tablets e smartphones cada vez mais baratos, cada ser humano,  poderá ter o mesmo acesso à educação e à informação, em qualquer lugar e a nível mundial (via redes de satélites). 

Face ao  poder económico necessário ao brutal investimento em tantas inovações tecnológicas,  a riqueza tem vindo a concentrar-se em cada vez menos, e a democracia corre o risco de se ir desfigurando em autocracias crescentes, ao mesmo tempo que o capitalismo poderá estar a derivar para o «tecno-feudalismo» (termo cunhado por Varoufakis versus Elon Musk).  Parte significativa dos políticos são cada vez mais «telecomandados» pelo poder económico. Os cidadãos, em geral,  via da eficaz «anestesia» que os grandes meios de (des)informação fornecem, foram transformados em receptores passivos, sem que disso se apercebam, constituindo-se como uma massa humana  complacente e acrítica. 

Como incentivar os cidadãos a redescobrir o espírito cívico e os meios para aceder plenamente à Liberdade, Igualdade e Fraternidade, através duma democracia consistente e actuante? Como voltar a fortalecer as Democracias?

Em nossa opinião deverá surgir e afirmar-se uma nova geração de políticos cultos, competentes  e éticamente determinados (substancialmente diferentes de parte da maioria actual), o que passará pela inevitável regeneração dos aparelhos partidários actuais e/ou surgimento de novos partidos com ideias democráticas mais  «clean»  (limpas),  abrangentes e sustentadas e em cuja formação a Maçonaria poderá / deverá ter um papel fundamental, pela «inoculação» dos seus valores universais e eventual  mobilização e formação de cidadãos mais cultos, conscientes e activos, nunca abdicando da qualidade em detrimento da quantidade.   



                                                                                      CONTINUA     ( ir p/ Nº II )



Bibliografia

1 - “Dicionário da Antiga e Moderna Maçonaria” – Manuel Pinto dos Santos, Lisboa 2012
2 – “Democratie et Franc-Maçonnerie”  – L´Edifice.net@ledifice.net»”  – s/ autor expresso («X.M.»)
3 – “La Symbolique Maçonnique du Troisième Millénaire” - Mainguy,  Irène -– Éditions Dervy, 2006, Paris
4 – “Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” – Daniel Ligou,  Éditions PUF, 2015 (3ªÉdition), Paris
5 – “L’Apprentissage Maçonnique - Une École de L’éveil» - Béresniak, Daniel, Éditions Detrad – 2009, Paris
6 – “Le Petit Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie” -  Guy Chassagnard – Éditions Alphée, 2005
7 – “O Mundo de Amanhã – Geopolítica contemporânea” – Carlos Gaspar – Fundação FMS
8 –  “Avanços Tecnológicos e o Futuro da Maçonaria“ – Hercule Spoladore - Revista digital “ACML News” nr.3,      20.Ago.2017
9 – “Grand Orient.- las vérités do G.M. do GOdF” - ALain Bauer – Éditions Denoel, 2002.
10 – Salvador Allende M:.M:.  - “A Maçonaria no Século XXI - algumas Interrogações” – (Blog “Compasso  & Esquadro”)
11 – Salvador Allende M:.M:. - “A  integração nas Obediências  «Liberais» e a questão da «inclusão Feminina»  – (RL:. Salvador Allende - GOL) - Set.2022
12 – Salvador Allende M:.M:.  - “Para uma nova Ética Social em Pleno Século XXI” – (Blog ““Compasso  & Esquadro””) – Ago.2022
13 – Salvador Allende M:.M:. - “A Maçonaria no Século XXI - algumas Interrogações” – (blog ““Compasso  & Esquadro””)
14 – Salvador Allende M:.M:. - “Desafios que se colocam à Maçonaria e à NAO:. No Século XXI M:. (blog “Compasso  & Esquadro”)    Abril.2025
15–  GOL – Regulamento Geral 
16 – Fernando,  Marques da Costa - A Virtude da Diversidade e o porquê da sua  Inevitabilidade”  – in «Revista de Maçonaria» Nº 5 – Nov.2022 - Lisboa

 


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