Propus-me tratar aqui uma pequena reflexão sobre qual o papel e eficácia da N:.A:.O:. num Mundo muito diferente daquele em que os nossos antepassados criaram esta congregação de esforços com o objectivo de lutar pelo bem comum.
Muitos dos saltos civilizacionais dos últimos 300 Anos tiveram na sua origem IIr:. Maçons. O contexto em que se moviam era o de um Mundo Novo, em que o equilíbrio de poderes fora totalmente alterado graças à evolução da Tecnologia e ao estabelecimento do livre pensamento, após muitos Séculos de imposição de todo o tipo de dogmas castrantes.
Não valerá a pena detalhar demasiado, mas se tomarmos como exemplo a Bíblia, um livro que bem conhecemos e cujas histórias que revela, em muitos casos, nos enquadram ritos e alegorias, era proibida a sua leitura até ao início do Século XVII, em Portugal, se não se tratasse da Vulgata Católica, tradução da Bíblia Grega para Latim, feita por S. Gerónimo no século IV. Inclusive, a partir do Século XV, quem cometesse essa heresia, estaria entregue aos poderes do Santo Ofício.
Este exemplo, e muitos outros que poderiam ser aqui descritos, são o contexto em que tudo terá começado por acção de homens livres e pensadores influentes. A História da Humanidade mudou radicalmente com este grito de revolta construtiva, que assentou a sua acção em princípios e valores que ainda hoje nos são caros e sustentam o nosso comportamento. Mas retomemos o exemplo da Bíblia e a obrigatoriedade de a consultar apenas na tradução censurada de S.Gerónimo. Esta imposição, tinha como objectivo não deixar ao livre arbítrio, interpretações perturbadoras dos textos Bíblicos, que afectassem toda uma lógica de poder alicerçada em verdades que não o eram. A riqueza interpretativa, possível, de textos tão belos, feita numa perspectiva de rigor e livre apreciação, pode levar-nos a conclusões, ou estabelecer dúvidas, que muito poderiam lesar a consistência da verdade estabelecida.Ou seja, opiniões que não se coadunassem com a Ordem estabelecida, pura e simplesmente, eram banidas.E tudo isto era dirigido por Homens que acreditavam ter o direito de decidir o que é bom, e o que é mau, para a maioria dos outros Homens.

Percebemos o contexto, e entendemos toda a mecânica desta decisão, porque somos humanos, e julgamos conseguir perceber o que está por trás destes comportamentos tão lesivos para a liberdade e felicidade de muitos.
Felizmente que hoje tudo é diferente, dizemos o que pensamos, embora por vezes não pensemos suficientemente o que dizemos, e até escrevemos e publicamos de forma compulsiva todos os passos que damos, no trabalho, em família, com os amigos. Hoje temos a felicidade de ficar tudo registado, já ninguém nos limita e podemos partilhar com os nossos amigos, milhões de amigos, tudo aquilo que fazemos, como vivemos, onde estamos em cada momento, no fundo, como agimos e pensamos, no contexto do dia a dia das nossas vidas. E como já não há Santo Ofício já não temos que temer dizer tudo aquilo que nos vai na alma. Fazemos comentários sarcásticos, falamos do melhor que há em nós, do pior que há em nós, falamos de banalidades, falamos de coisas importantes e outras nada importantes.
Fantástico, nunca a Humanidade teve tantas condições de Liberdade e de esperança de felicidade como hoje e, sendo assim, talvez a nossa intervenção em prol das Liberdades de acção e pensamento não faça tanto sentido como nos fins do Sec. XVII e inícios do Sec. XVIII. Só que há um pequeno problema que nos poderá estar a escapar nesta voragem da comunicação Global e da interligação permanente. E não é a nossa sonhada comunidade de homens livres em todos os Continentes, como foi pensada por aqueles com quem partilhamos a nossa Cad:. de Un:. que nos une com o passado e nos leva para o futuro.
É que, infelizmente, pode acontecer que o futuro, e o contexto em que nos moveremos, seja muito diferente daquele que congregava os perigos do dogma e a sua obrigatória aceitação. A luta que se avizinha vai ser mais difícil, porque aqueles com os quais nos confrontamos poderão vir a ser mais capazes e inteligentes do que nós.
Vencer pela convicção, pela imposição da verdade e pela inteligência é muito mais fácil quando combatemos a ignorância, a arrogância e a estupidez. Será que os próximos alvos das nossas preocupações serão tão estúpidos assim?! Infelizmente não, poderão ser mais inteligentes e não sofrerem enfermidades humanas.