Com a devida vénia se transcreve esta opinião de Gilmar Marcílio na Revista Arte Real, nº102 de Outubro 2018:

Confúcio, o grande pensador chinês do século cinco antes de Cristo, sonhou com um governo ideal. De todos os ensinamentos presentes nos “Analectos”, sua obra mais conhecida, destacam-se os que dão ênfase à questão política. Não como a temos hoje em dia, em que tudo se reduz ao fisiologismo e a alianças espúrias para a aprovação de medidas que interessam, somente, a quem está no poder. Uma triste e patética realidade que deformou os princípios presentes nos grandes tratados, que se debruçam sobre o tema. Direcione a conversa para este assunto e a esmagadora maioria lhe dirá da repulsa que sente diante dos incontáveis escândalos envolvendo os que deveriam nos servir de modelo. Resta-nos louvar, neste tempo espúrio, a possibilidade de se fazer críticas contundentes, transformando a palavra censura, apenas, num eco distante. Embora alguns sonhem em diminuir esse espaço de liberdade tão duramente conquistado.
Confúcio tentou implantar um governo, na província que administrou, baseado em princípios que soariam aos nossos parlamentares, como a mais ingênua das utopias. E, no entanto, a despeito da descrença que, atualmente, grassa em quase todas as pessoas, esse homem conseguiu colocar em prática muitas ideias que, ainda, reverberam hoje em dia. E que todos nós gostaríamos de ver plasmadas como a mais perfeita forma de conduzir um povo.
Ele acreditava que a coerência, a integridade e a honestidade só poderiam ser implantadas numa esfera mais ampla, se tivessem primeiro sido forjadas no âmbito doméstico. Ninguém é capaz de conduzir mil homens se não consegue fazer-se respeitar em sua própria casa. Para ele, o espaço familiar era uma espécie de laboratório, onde os dramas e as pequenas vitórias haveriam de servir como experiência para administrar uma cidade, um estado, uma nação.
Quem não conseguisse dominar a si mesmo e ser admirado pelos que estão mais próximos, jamais, teria a capacidade ou mesmo a autoridade para determinar o caminho justo e reto a ser seguido. Estamos muito longe desse ideal. Basta ver o quanto a educação passou por um processo de terceirização, desobrigando os pais de suas responsabilidades mais elementares. Na medida em que se deixa de lado a condução moral e ética de um filho, pouco se pode esperar de uma pessoa que detenha um cargo de chefia. É tão elementar isso. Tornamo-nos pragmáticos e obsessivos, vendo no outro um empecilho para alcançar rapidamente os nossos propósitos. Que outra palavra poderia definir isso senão egoísmo? O verdadeiro governante, segundo o pensador que nos serve como orientador para essas reflexões, está preocupado, acima de tudo, com o bem comum.







Qual estrela reinventado a imanência da sua luz no cosmos da imortalidade, onde a mítica constelação da vida se traduzia e renovava num fulgor eterno, Anúbis (Anupu em egípcio) iluminava a noite do panteão egípcio enquanto pilar que sustinha o templo de um mito intemporal que prometia às almas a eternidade.
A lenda de Osíris comprova que Ísis foi coroada de sucesso, uma vez que, após o desmembramento do corpo de seu esposo, Anúbis voluntariou-se prontamente para auxiliar a deusa a reunir os inúmeros fragmentos do defunto. Posteriormente, Anúbis participa com igual dedicação nos rituais executados com o fim de restituir a Osíris o sopro de vida e que lhe facultaram a concepção da primeira múmia, facto que legitimou a sua conversão no venerado deus do embalsamamento, eterno guia do defunto no Além. A sua crescente influência garantiu-lhe um posto relevante no tribunal composto por quarenta e dois juizes que julgava os recém- inumados. De facto, é ele quem conduz o morto até Osíris, apresentando-o ao tribunal por ele presidido, para de seguida proceder à pesagem do coração. Se porventura o morto desejar mais tarde regressar à terra, é Anúbis quem ele tem a obrigação de notificar previamente, dado que esta surtida só será exequível com o seu consentimento expresso, formalmente consignado sob a forma de um decreto.

























