Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

(Últimas declarações de Salvador Allende ao povo chileno a 11 de Setembro de 1973, quando os aviões dos generais fascistas já bombardeavam o Palácio de La Moneda)
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30 de outubro de 2018

ESTADO SOCIAL, CARACTERÍSTICA DA HUMANIDADE?


ESTADO SOCIAL, CARACTERÍSTICA DA HUMANIDADE?

O Estado constitucional surgiu nos séculos XVIII e XIX, como Estado liberal, assente na ideia de liberdade e, em nome dela, empenhado em conter o poder político tanto internamente, pela sua divisão, quanto, externamente, pela redução ao mínimo das suas funções perante a sociedade. “Il faut que le pouvoir arrête le pouvoir”, ensinava MONTESQUIEU.
Quando instaurado, coincidiu com o triunfo da burguesia. Daí o realce da liberdade contratual, a absolutização da propriedade, a recusa, durante muito tempo, do direito de associação (dizendo-se que ela diminuiria a liberdade individual), a restrição do direito de voto aos possuidores de certo montante de bens ou de rendimentos, únicos que, tendo responsabilidades sociais, deveriam assumir responsabilidades políticas. Contudo, a liberdade reclamada pela burguesia, no seu interesse de classe, só pelo facto de ter sido reclamada sob a veste do direito, veio a aproveitar aos trabalhadores e a redundar em prejuízo dos próprios interesses da burguesia sob a forma do direito de associação.
Seria, assim, menos em resultado das críticas doutrinais ao liberalismo, nas suas vertentes filosófica e económica do que, por efeito da progressiva organização dos trabalhadores em sindicatos e em partidos, que, no exercício da liberdade, seriam reivindicados direitos económicos para garantia da dignidade do trabalho, direitos sociais para segurança na necessidade e direitos culturais como exigência do acesso à educação e à cultura e, em último caso, de transformação da condição operária.
Estes direitos apenas lograriam ser consagrados constitucionalmente aquando das convulsões decorrentes ou subsequentes à primeira guerra mundial, em que foram mobilizados milhões de soldados e com a qual ocorreria uma larga mudança de mentalidades.

 De qualquer forma, a industrialização, a urbanização e a erradicação do analfabetismo torná-los-iam inevitáveis. E, como se sabe, os primeiros textos constitucionais que os consagrariam seriam a Constituição mexicana de 1917, a Declaração de Direitos do Povo Trabalhador e Explorado, da Rússia, de 1918, e a Constituição alemã de 1919 (a Constituição de Weimar). Vem a ser a partir desta altura que começa a falar-se em Estado social como Estado contraposto ao liberalismo económico, embora, em “era de ideologias e de revoluções”, sejam intransponíveis as distâncias entre as concepções e os tipos históricos que conseguem impor-se.

4 de outubro de 2018

Impressões da iniciação.


 
 

(Editado pela Comissão Editorial do Blogue) foi proposto que eu me pronunciasse sobre a
“Primeira Impressão da Iniciação” o que farei seguidamente.

Os primeiros passos


A característica dos primeiros passos foi de expectativa e de algum mistério, face aos diversos movimentos em redor de um espaço, de olhos vendados. E foi também um momento de algum sofrimento por ter que estar algum tempo de joelhos sobre um tipo de material duro e irregular, que julgo terem sido várias (Editado pela Comissão Editorial do Blogue) colocadas num degrau de forma sobreposta. Depois, por não me sentir previamente preparado, no decurso das diversas sessões em que participei seguidamente fiquei avassalado com os rituais levados a efeito, designadamente pela sua especificidade, linguagem própria e abreviada, e por isso impercetível, e extensão. E senti-me perdido, deixando de ir às (Editado pela Comissão Editorial do Blogue).
A insuficiência funcional, a incompletude. No (Editado pela Comissão Editorial do Blogue), após um seu contacto pessoal, tenho participado com regularidade nas sessões da Loja, sentindo enorme apreço pelo evidenciado grau de conhecimentos e pela destacada formação cívica e moral dos seus membros, o que muito me agrada e que, de resto, corresponde à minha expectativa de iniciado. De todo o modo, interrogo-me sobre o nosso papel social. Isto é, grosso modo, as nossas sessões em Loja são caraterizadas pela prática do ritual, pelo tratamento de assuntos de expediente funcional (Editado pela Comissão Editorial do Blogue), pela introdução e debate de temas específicos (pranchas), e pelo encerramento dos trabalhos. E neste contexto afigurase-me existir uma insuficiência funcional, uma incompletude na nossa forma de intervenção social. Explanando melhor o que penso, socorrer-me-ei dos artºs (Editado pela Comissão Editorial do Blogue) da Constituição Maçónica, cujo teor do artº (Editado pela Comissão Editorial do Blogue) é o seguinte:


A Maçonaria tem por fim o aperfeiçoamento da Humanidade através da elevação moral e espiritual do indivíduo. Não aceita dogmas e combate todas as formas de opressão sobre o
Homem, luta contra o terror, a miséria, o sectarismo e a ignorância, combate a corrupção e enaltece o mérito” (Ibidem).

2 de outubro de 2018

PAINEL DE LOJA – Grau 1 – IMPLICAÇÕES


PAINEL DE LOJA – Grau 1 – IMPLICAÇÕES


Com base no traçado de Diógenes de Sinope, “Simbolismo na Franco-Maçonaria” de Outubro de 2013 e inspirado no livro de Joules Boucher cujo título original é “La Symbolique Maçonnique”, entre outras fontes que estão registadas na bibliografia deste traçado, segue-se uma interpretação resumida sobre o painel do aprendiz cuja fundamentação simbólica radica nas colunas do templo de Salomão. Com efeito, eram colunas semelhantes diferenciando-se pelo posicionamento no seio do templo e pela designação que lhes foi atribuída como veremos mais à frente.  Verificaremos ainda que as duas colunas no traçado da loja do aprendiz são coroadas por três romãs entreabertas, sendo que esta formulação se distancia da descrição original registada na bíblia sobre a finalidade das colunas no templo de Salomão. Neste contexto, interessa compreender a simbologia associada aos lírios e o enquadramento simbólico das correntes no capitel das colunas. Há, também, a considerar no painel do aprendiz, o significado dos três degraus e a configuração do piso em xadrez com mosaicos pretos e brancos alternados entre si. Por fim, tencionamos, entre outros aspetos relevantes, abordar o papel simbólico das pedras, bruta, cúbica e cubica pontiaguda, assim como o das duas Luzes e, não menos importante, o significado e as implicações da Porta do Templo.

O PAINEL DO APRENDIZ
No contexto original da Maçonaria Operativa, as sessões eram realizadas em locais improvisados e os símbolos eram desenhados no piso do local escolhido, sendo apagados no final de cada sessão.
Posteriormente, passou a utilizar-se uma tela previamente desenhada e pintada com todos os símbolos do painel. Essa tela era desenrolada no início das sessões e representava o templo.
Depois, os templos passaram a ser edificados em construções estruturadas que permitem, entre outros aspetos importantes, a reserva e continuidade que se pede a todos os que integram as sessões maçónicas.
Tal como referido na introdução deste traçado, o painel integra, entre outros elementos importantes, duas colunas coroadas por três romãs entreabertas, a configuração do piso em xadrez com mosaicos pretos e brancos alternados entre si,  a pedra bruta, a pedra cúbica e a pedra cubica pontiaguda, assim como as duas luzes (o sol e a lua) e, como não podia deixar de ser, a Porta do Templo.
No grau de Aprendiz, os Símbolos, Gestos e Rituais têm especial importância pois remetem para um comportamento que impõe uma disciplina de aprendizagem e que constitui um compromisso, simultaneamente, individual e coletivo.
Por exemplo, a disciplina do Silêncio induz o aprendiz a encontrar o Caminho da Luz num processo consequente de escuta ativa e de aprendizagem intensiva. Por outro lado, neste contexto iniciático o Aprendiz deve começar por compreender o significado simbólico das Joias Móveis, das Joias Fixas e dos Ornamentos, entre outros símbolos.

Joias Móveis
Com efeito, as Joias Móveis mereceram essa designação por serem as insígnias dos Irmãos que exercem os Cargos da Direção da Loja, designadamente o Esquadro, o Nível e o Prumo.
O Esquadro representa a matéria e remete para os conceitos de Equidade e a Rectidão, estando a cargo do Venerável Mestre.

21 de setembro de 2018

O Ritual na Maçonaria, o que é e para que serve


O Ritual na Maçonaria, o que é e para que serve

I – O que é o Ritual
Em qualquer Obediência ou Organização iniciática, o(s) Rito(s) praticado(s) consiste(m), desde a Iniciação,  num conjunto de Graus (ou «patamares»), de complexidade e conhecimento crescentes, constituindo cada um deles um conjunto coerente de instruções e procedimentos específicos, suportados num Ritual, que levam à sua aprendizagem, compreensão/conhecimento, correspondendo ao sistema e objectivos específicos do Rito, a nível desse Grau.
Portanto numa Obediência, cada um dos graus que compõem um Rito, apresenta um Ritual específico, desejavelmente uniforme.
 O conhecimento global do Rito só será atingível na sua plenitude, ao conseguir-se progredir consistentemente até ao topo, e mesmo assim o estudo e a pesquisa não terão fim, já que  a procura do conhecimento,, a caminho da Luz,  não tem limite (“somos sempre eternos Aprendizes”), e só terminará com a passagem ao Oriente Eterno. 
A primeira conclusão a tirar é pois que Rito e Ritual não são a mesma coisa, mas estão interligados, podendo considerar-se genéricamente cada Ritual como um sub-conjunto específico dos actos e cerimoniais completos do Rito, respeitante a cada Grau que o constitui, e o seu vector de  transmissão iniciática, por excelência. 
Utilizando uma comparação em termos de transmissão informática, em que a informação que segue ao longo de uma Rede digital é compactada em «pacotes»,  cada um deles com um número pré-definido de «fatias» de informação  (ou time-slot»). Ao simplificarmos,  fazendo equivaler o total do «pacote» de informação ao Rito, podemos facilmente equiparar um determinado Grau a uma «fatia» /«time-slots»)  desse  Rito , ou seja da totalidade do «pacote» transmitido. Ainda comparativamente, para se ter acesso à informação /conhecimento global contido no  «pacote» (Rito), é necessário ter conhecimento específico e sequencial de cada uma das respectivas fatias («time-slots») ou seja, de cada  Grau e do seu Ritual específico.
Independentemente do Grau em que decorre a Sessão, e focando-nos essencialmente no Grau de Apr:..,o Ritual com seus passos, procedimentos e instruções, a chamada ritualística, contêm em si um conjunto de ensinamentos específicos e simbólicos, que unívocamente o caracterizam, orientando e dando significado às acções e descrições orais no decorrer da Sessão, essencialmente da responsabilidade das Luzes da Loja (V:.M:. e VVig:.) sincronizadas com as actuações dos outros quadros.

18 de setembro de 2018

Porquê «Salvador Allende» ?


Porquê «Salvador Allende» ?

Explicar porque escolhi o nome simbólico «Salvador Allende» numa Loja com o seu nome, parece tarefa redundante e desnecessária.  Apesar de ter em conta os vários e excelentes textos de diversos IIr:., nomeadamente do Ir. José Marti,   lidos e publicados no Blog da N:. R:. Loja (ou fora dele), aceitei de bom grado o desafio (Editado pela Comissão Editorial do Blogue), porque representa uma promessa (e um dever) ainda não cumprido.  Apesar do nome simbólico que escolhi ter antecedido a Formação desta R:.L:. cada um de nós tem «razões específicas e pessoais» que fundamentam as escolhas efectuadas, pelo que gostaria de partilhar convosco, as que me dizem respeito, numa perspectiva de reforço do conhecimento mútuo e solidário,  que deve orientar sempre a nossa actuação em Loja (e fora dela).
Dir-vos-ei desde já, que a vitória eleitoral e o prestígio de Salvador Allende, enquanto Presidente e líder do povo chileno, teve um enorme impacto (entre outros) na formação politica de muitos jovens da minha geração, e da minha em particular, enquanto opositores idealistas e inexperientes ao Estado Novo (que como estudantes recém chegados à Universidade, grande parte éramos). Esse impacto foi-se progressivamente consolidando, com o avanço do processo de libertação que a «Unidade Popular» preconizava e desenvolvia, a par do combate aos contragolpes sucessivos da direita e extrema-direita, culminando no golpe fascista de que foi vitima. A partir daí, Salvador Allende constituirá sempre uma referência inabalável para todos aqueles que perfilhavam (e perfilham) os ideais da liberdade,  da democracia, do progresso social, do humanismo, da igualdade de oportunidades e da luta anti-monopolista, como essenciais no caminho para uma sociedade mais justa.

Como  Presidente,  Político,  Socialista (na correcta acepção do termo), dirigente respeitado, constituiu para muitos de nós,  naquela altura, um referencial de integridade e coerência, que jamais esqueceremos.  Para os mais novos (o relógio do tempo não pára e os anos vão rolando … ) recordo que estávamos ainda nos tempos cinzentos e sombrios da ditadura salazarenta, que a chamada «primavera marcelista» não tinha conseguido iludir,  continuando a oprimir, torturar e a expulsar da Universidade e do País (a todos os níveis sociais), os melhores que se lhe opunham.
Em 1970, o facto de ter sido possível a vitória eleitoral da «Unidade Popular» no Chile, país sob a tradicional área de influência do imperialismo americano, foi para nós uma chama que fez renascer a esperança. Fortaleceu-nos moral e politicamente a prosseguir a oposição ao decrépito regime do Estado Novo, que apesar de tudo só viria a sucumbir quatro anos depois,  graças ao golpe libertador de Abril. Foram também 3 anos intensos  de debate e discussão ideológica, no campo da Esquerda, ao mesmo tempo que se ampliava a oposição à ditadura a um numero crescente de sectores.
Lembro-me perfeitamente da avidez com que ouvíamos e líamos as rádios e a imprensa «não autorizadas» sobre a evolução da situação chilena. Contudo alguns de nós, já na altura,  tínhamos algumas dúvidas quanto à possibilidade de implementação do socialismo, por via eleitoral, sobretudo naquela época e na América do Sul, polvilhada por ditaduras fantoches e terroristas de inspiração americana, onde Cuba era a excepção, de que os EUA tinham jurado não permitir a repetição.

4 de setembro de 2018

Disciplina entre Colunas



Venho hoje apresentar-vos, Editado pela comissão Editorial do Blogue, uma prancha sobre o tema da “Disciplina entre Colunas”.
Tomando como referencia base alguns grandes escritos maçónicos e ainda as nossas leis e regulamentos, sugiro-vos que olhemos este tema sob três ângulos diferentes mas complementares.
O primeiro, uma perspectiva filosófica, recordando as tradições da Maçonaria Operativa no tocante ao bom funcionamento das Oficinas.
Vale a pena recordar que já no Século XVIII, na 2ª parte das Constituições de Anderson, relativas às “Obrigações de um Pedreiro-Livre”, se manifesta a preocupação de garantir a disciplina na conduta dos Irmãos, com normas que assegurassem o respeito pelos trabalhos em Loja  (“não vos comportareis jocosamente nem apalhaçadamente enquanto a Loja estiver ocupada em assuntos sérios e solenes”, ou  “não organizareis comissões privadas nem conversações separadas sem permissão do mestre”, ou “não se tragam para dentro da loja questões nem rancores”).
Também Albert Mackey,  citando os Landmarks conhecidos, realça que “É inquestionável a igualdade entre todos os maçons”, e que “Todos os Maçons estão sujeitos às leis e aos regulamentos da jurisdição maçónica em que residem”.
O segundo, numa perspectiva regulamentar, procurando traduzir nos nossos comportamentos as normas estabelecidas pela Editado pela comissão Editorial do Blogue, o qual define várias regras especificas no plano da “disciplina Maçónica”.

Assim sucede com Editado pela comissão Editorial do Blogue, que atribui aos vigilantes a competência de “direção das respetivas Colunas, sendo a eles que os Irmãos que nelas têm assento devem pedir a palavra, podendo retirar a mesma aos irmãos que dela usem sem a terem pedido. [Os Vigilantes] Transmitem nas suas Colunas os avisos do Venerável e mantêm a ordem e o silêncio”.
Ou Editado pela comissão Editorial do Blogue, com um conjunto de regras de conduta durante as sessões, em especial as relativas ao uso da palavra pelos diferentes Irmãos, definindo designadamente que nenhum pode usar da palavra mais de três vezes sobre o mesmo assunto, nem mais de dez minutos da primeira vez e cinco nas restantes.

23 de maio de 2018

O Tesoureiro e a Tesouraria


...Editado pela Comissão Editorial do Blogue.., decidi apresentar-vos uma prancha sobre o cargo com que me honrastes neste último ano. O cargo de Tesoureiro da RLSA.
O Tesouro da Loja é o conjunto dos seus recursos financeiros, considerados independentemente do Tronco da Viúva e das obras de Solidariedade.
O cargo de Tesoureiro é frequentemente encarado como tendo um cunho essencialmente profano e administrativo, longe de considerações filosóficas ou de abordagens esotéricas.
No entanto, uma leitura atenta da nossa... Editado pela Comissão Editorial do Blogue..., permitem-nos compreender que a atividade do Tesoureiro está intimamente ligada à garantia da própria existência das Oficinas e, com elas, da nossa Augusta Ordem.
De facto,... Editado pela Comissão Editorial do Blogue... é uma das obrigações da Loja “Pagar as contribuições ordinárias e extraordinárias estabelecidas por lei” e, Editado pela Comissão Editorial do Blogue, como uma das obrigações dos obreiros “Satisfazer pontualmente todos os encargos materiais a que forem obrigados por lei e aqueles que assumirem voluntariamente”.
Por seu turno,... Editado pela Comissão Editorial do Blogue... estabelece que “os obreiros são responsáveis pelo pagamento de todas as contribuições aprovadas” e que “as capitações mensais [...] são devidas no primeiro dia do mês a que disserem respeito”, e define Editado pela Comissão Editorial do Blogue que são funções do Tesoureiro:
a) o recebimento das quantias devidas a qualquer título e a guarda dos fundos, valores e títulos pertencentes à Oficina;
b) o pagamento das despesas da Oficina;
c) o registo atualizado da contabilidade da Oficina e o pagamento em dia ao Grande Tesouro das contribuições por esta devidas.

Ao Tesoureiro cabe pois garantir que a Loja de que faz parte se mantém viva e atuante, mediante o zelo pela arrecadação dos recursos devidos pelos Irmãos à Loja e pelo pagamento das contribuições a que a Loja está sujeita, de forma que sejam atendidas as obrigações maçónicas e profanas da Loja.
É por esse motivo que muitos definem o Tesoureiro como sendo ‘o guardador dos metais da Loja’, ou seja, aquele que dispõe dos recursos e dos meios necessários para o cumprimento das obrigações financeiras desta.
Assim procedendo, o Tesoureiro cumpre com suas funções para com a Loja, contribuindo para que os trabalhos decorram de modo justo e perfeito.

16 de maio de 2018

RITUAL E TRADIÇÃO


A Kabbalah não é judaísmo e não é religião, mas também não é um culto de new age. A Kabbalah emergiu na cultura judaica como um conjunto de técnicas ligadas à filosofia especulativa, à cosmogonia e à alquimia. Porém, a Kabbalah, não sendo em si uma religião, acabou por formar o esqueleto da religião judaica.
A N:.A:.O:. e o nosso Rito Escocês Antigo e Aceito é de tradição cabalística, o que significa que a tradição iniciática que seguimos e praticamos, parte do conhecimento da Kabbalah enquanto filosofia e não como religião.
A nossa tradição é cabalista porque nasceu no seio da cultura mediterrânica, partilhada por três grandes tradições com mais de dois mil anos de convívio: a tradição judaica, a cristã e a islâmica. Em todas as três podemos encontrar marcas profundas da mesma Kabbalah.
Mas o que é verdadeiramente a Kabbalah? Como ela se encontrar enraizada na Maçonaria? Como os nossos rituais se ligam à matriz cabalística? Qual o fim da Kabbalah na aprendizagem dos maçons?
Estas questões, que são verdadeiramente importantes e fundadoras do perfil da Maçonaria, e da ética do Maçon, devem ser respondidas e aprendidas por todos, desde o Aprendiz ao Mestre. A Kabbalah sempre foi um conhecimento reservado e discreto, e na antiguidade foi exclusivo do sacerdócio e auxiliar da ciência (astronomia/astrologia), da filosofia, da dialética, da lógica, da matemática e da linguística. Desde a sua formação que a Kabbalah sempre foi uma súmula de conhecimento universal, constituindo-se como instrumento hábil do saber e da investigação da vida e do universo.

Eis as razões porque a Kabbalah está na origem de várias ordens iniciáticas, de várias escolas filosóficas e científicas. Desde a antiguidade clássica até hoje podemos encontrar vários pensadores e cientistas que foram cabalistas, e que por terem aprendido o método cabalístico, poderam desenvolver e avançar nos seus estudos. Não só na tradição rabínica, como fora da comunidade judaica, grandes intelectuais e cientistas usufruíram do método cabalístico para resolver vários problemas e questões que de outra forma teriam demorado muito mais tempo ou teriam ficado insolúveis.

11 de maio de 2018

O Ritual do Grau de Aprendiz e a Questão Vertente da Possibilidade da Construção do Homem Novo


Esta prancha, pretende refletir e tentar sistematizar, um pouco mais, sobre se será possível construir o homem novo tendo por base o ritual de aprendiz e a filosofia que preside à N:. A:. O:.
Contextualizando, conforme refletia numa anterior prancha de arquitetura uma questão levantada era a de que uma das grandes simbologias maçónicas era a construção do templo interior de cada maçon. E questionava: Mas afinal o que representam estas palavras? E escrevia que talvez o que está por detrás seja algo em construção que nunca nós saberemos o meio mas sim a sua finalidade.
Aquando da feitura da anterior prancha socorri-me do livro de Norberto Bobbio, Teoria Geral da Política, organizado por Michelangelo Bovero, na qual se tentava refletir sobre o seguinte: o ritual de aprendiz leva-nos, falando genericamente, a repensarmo-nos enquanto pessoa, e a prepararmo-nos para algo que gradualmente nos vamos apercebendo noutros graus. Neste contexto, todos nós procuraríamos a ideologia do novo homem. Ora utilizando conceitos do Norberto Bobbio sobre a ideologia do novo homem, utilizei dois conceitos por este autor enumerados: o religioso e o revolucionário.
No primeiro caso porque visa a renovação da sociedade através da renovação do homem. No segundo, pela renovação do homem através da renovação a sociedade. Ou seja, duas formas diferentes de conceber a transformação. Segundo este esquema de pensamento interrogava ainda se não era o que nós procuramos em loja? Isto é, renovarmo-nos enquanto seres humanos para intervir no mundo profano e simultaneamente renovarmo-nos através da renovação da sociedade. Colocava ainda a interrogação se esta não seria uma questão inextricável?
Assim, se forem comparáveis, o religioso e o revolucionário, ambos experimentavam uma insatisfação com tudo o que nos rodeia e talvez ambos creiam, futuramente, num mundo diferente, na qual os homens viverão como irmãos, livres e iguais.
Em suma, poderíamos inferir que tanto o religioso como o revolucionário têm em comum a aspiração de um novo homem. E interrogava ainda: Mas não é o que a maçonaria em geral procura e que em cada loja se trabalha neste sentido?
Ora, tentando dar uma resposta opinava que é nesta busca incessante do aperfeiçoamento biunívoco que, não pretendendo uma interpretação muito abusiva, podíamos interpretar num determinado sentido o princípio ritualístico de que os maços se reúnem em loja para cavar masmorras ao vício, combatendo a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, e elevar templos à Virtude, glorificando a Justiça, a Verdade e a Razão, ou seja, faz-se trabalho em loja no sentido de nos aperfeiçoarmos interiormente, mas que, este trabalho permita igualmente intervir cada vez melhor no mundo profano.

Também me referia ao filósofo Kant no seu livro “Paz Perpétua e outros Opúsculos”, que identificou a problemática da passagem do ser humano à maioridade, como algo muito difícil, visto que correspondia ao indivíduo começar a pensar por ele mesmo, sendo que, neste processo, surgiam forças contrárias para que este não o fizesse. Em termos heurísticos podíamos cotejar com o que se passa em loja. Nós vimos procurar o aperfeiçoamento interior para aplicar de uma forma frutífera no exterior o nosso labor.
Conforme escreveu Daniel Béresniak no seu livro Judeus e Franco-Maçons – Os Construtores de Templos, o devir é aquilo que os maçons desejam, sendo a “viagem” o que constitui o princípio da iniciação. “Para ver, para saber, para se tornar «melhor e mais esclarecido», para se transformar num «homem livre», ele tem que «talhar a pedra», «ir mais longe», «reunir o que se encontra disperso»”. Desta forma a enunciação destas fórmulas julgámos que permitia pôr em evidência a invenção, a criação, o possível, o imprevisível e não a verdade já dita.

10 de maio de 2018

A Minha Iniciação


Pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco. Necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá- Charles Chaplin
A minha iniciação integrou muitas sensações, emoções e dúvidas. Fui confrontado com um conjunto de símbolos, de cenários e de situações que me estimularam a curiosidade, contribuindo para aprofundar o desejo de saber “tudo” acerca da maçonaria e dos seus mistérios.
No princípio na (editado pela Comissão Editorial do Blogue), na caverna, experienciei um tempo de tensão crescente e senti o meu coração a palpitar energicamente, enquanto que, no meu cérebro, múltiplas sinapses se sucediam a uma velocidade estonteante. Tive algumas dúvidas no preenchimento do questionário e, sobretudo, muitas interrogações acerca do que haveria de escrever (editado pela Comissão Editorial do Blogue).
Estava perante uma situação inédita e, talvez por isso, senti-me momentaneamente apático, sendo que reagi de imediato para me concentrar no que iria acontecer a seguir. A tensão teve novo pico quando fui levado para um local onde ouvi, pela primeira vez, uma voz humana que me colocou algumas questões inquietantes. Nesse momento, procurei adotar, tanto quanto me foi possível, uma atitude forte, decidida e coerente.
De facto, respondi com convicção às questões que me foram colocadas, apesar da agressividade (seguramente intencional) que me chegava através da tal voz. Curiosamente, seguiu-se um dos momentos mais tranquilos que tive neste processo iniciático. De seguida, regressou novamente um turbilhão de sensações fortes resultante das sucessivas viagens, dos sons, dos obstáculos e, enfim, de toda esta acção a que fui sujeito e que me remeteu para uma estranha combinação entre um estado emocional de forte intensidade e uma dinâmica racional de especial lucidez.
A maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar-
Fernando Pessoa

O momento sublime desta experiência iniciática revelou-se quando me destaparam os olhos, dando por mim refletido num espelho.
Nesse momento, invadiu-me uma sensação estranha, de medo, de receio acerca de mim próprio, talvez por ter estado com os olhos vendados durante todo este processo. Ao meu lado estavam pessoas, com espadas apontadas mas, também, com sorrisos tranquilizadores que sugeriam uma atmosfera ambivalente e agridoce. Eis uma imagem que retenho na memória com muita intensidade.
Depois, talvez devido ao facto de terem tirado a venda e de conseguir, finalmente, ver o que se passava à minha volta, fiquei mais tranquilo, seguindo viagem confiante, sendo que, apos estas tempestades emocionais por que passei, senti uma força renovada para continuar em frente.
Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito-William Shakespeare

António Damásio, Apr.'.

26 de abril de 2018

Da História e do Conceito da Eutanásia

 
como afirmou SIMONE DE BEAUVOIR,

“…todos os Homens são mortais, mas para cada Homem a sua morte é um acidente e,  mesmo que ele a conheça e consinta, uma violência indevida  (1)
nunca esqueçamos que ante a insinuação dum assassínio piedoso, em nenhuma circunstância, e sob nenhuma pressão, devem os Médicosdar drogas venenosas a alguém, nem jamais sugerir tal conselho” … reza o Juramento de HIPÓCRATES(2)

Vida Biológica não se identifica com Vida Humana. Pode haver Vida Vegetativa depois de ter desaparecido, de todo, o rastro de Vida Humana... (3)

Comecemos pela “Declaração de GENEBRA da Associação Médica Mundialrevista em Outubro de 2017  na passada 68ª Assembleia - CHICAGO (EUA) .
Aí se afirma, entre outros compromissos, que o MÉDICO se obriga

“… - a considerar a SAÚDE e o BEM-ESTAR do seu DOENTE como as primeiras preocupações;

… - a RESPEITAR a Autonomia e a Dignidade do seu DOENTE;

… - a GUARDAR o máximo respeito pela Vida Humana;

… - a EXERCER a profissão com Consciência e Dignidade e de acordo com as boas práticas médicas;

… - a PARTILHAR os seus conhecimentos médicos em benefício dos Doentes e da melhoria dos Cuidados de Saúde…” (4).
#  Definições

LUCÍLIA NUNES recorda-nos o “…significado GREGO de “EUTHANASIA” (morte serena, agradável)…”  (5) também chamada de boa morte como nos explica DIEGO GRACIA: “…há situações de tal deterioração, por exemplo física, que o atingimento desse ideal…” o “…da felicidade ou da plenitude vital  (a “eudaimonia” de ARISTÓTELES)…” (6) se torna impossível “…pelo que os filósofos antigos, sobretudo os Estóicos, consideraram que nesses casos o dever moral era o de não morrer indignamente…e que o correto era buscar a boa morte (e isso significa “eutanásia”)…” (7).

Mas LUCÍLIA NUNES lembra-nos que “…hoje se define eutanásia como a ação iniciada por um Profissional de Saúde para pôr termo à Vida de uma Pessoa, a seu pedido…” (8) e que”… a Morte é deliberadamente provocada, sendo que a Pessoa solicita a Morte e um Médico a realiza, cumprindo um conjunto de requisitos e procedimentos…” (9). Mais nos lembra que “…suicídio assistido...define o processo em que  uma Pessoa quer pôr termo à         <sua> Vida e outra Pessoa põe os meios à <sua>  disposição, sendo que <é> o próprio que realiza o ato...” (10).
#  História antiga

Sabemos que “…ESPARTA se “libertava” dos débeis, que os BRÂMANES abandonavam as Crianças na selva e <que> vários Povos da Polinésia …”davam a morte” aos anciãos e praticavam infanticídio por hábito quando os filhos excediam um certo número…” (11). Fica, assim, claro o desprezo pelo Ser Humano quer pela velhice e consequente falta de produtividade, quer pelo excesso de filhos e consequente falta de capacidade para o seu sustento.  Da mesma forma o uso eugénico da eutanásia “… para “acabar” com os monstros, os Doentes incuráveis e crónicos, os delinquentes graves e os loucos … e ainda os inúteis e pouco produtivos…” (12) foi  prática por este Mundo fora. Sê-lo-á ainda hoje? Há , também, que ter  em conta o conceito de “…assassínio piedoso…” (13), isto é, o outrora  efetuado em contexto de grande sofrimento do Doente sem que a Medicina ou a logística da época (técnica e outra) permitissem o seu controle, designadamente em PORTUGAL tal como  a descrição do “…ato de “homicídio ritual”  praticado por cristãos-novos nos agonizantes…“ (14). Noutras culturas, como a dos CELTAS e a da BIRMÂNIA, “…enforcavam os Doentes sem salvação…” (15) e na dos “…Povos ESCANDINAVOS, ESLAVOS ou das Ilhas FIDGI … se “punha termo”,  além dos anciãos, … aos Doentes que os sobrecarregavam…” (16). Tudo isto nos leva à Moral e à Ética com o preceito de que “…não matarás (evocado por MOISÉS no “Decálogo”)…” (17) ou ainda com a prática dos Princípios da Beneficência e da não-Maleficência,  sistematizados nos primórdios da Ética principialista dos anos 70 do século XX.

7 de março de 2018

O SOL E A LUA DO MEIO-DIA À MEIA-NOITE



O Sol é a estrela central do sistema solar. Todos os outros corpos giram ao seu redor. A Lua é o único satélite natural da Terra e o quinto maior do Sistema Solar, e é o astro mais brilhante no céu, embora a sua superfície seja na realidade escura, com uma refletância pouco acima da do asfalto (só brilha em função da luz solar refletida na sua superfície). Outros planetas do sistema solar também têm satélites naturais. Netuno e Urano também são circundados por luas. O planeta que possui mais luas é Júpiter, são 64 ao todo.
Encontramos referência ao Sol e à Lua logo no início da criação (Gênesis, capítulo 1, versículo 16 (1:16.) do Velho Testamento/Bíblia - “Deus, pois, fez dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia, e o menor para presidir à noite; fez também as estrelas”), na tradição judaica em que a Lua simboliza o povo judaico, no Budismo (Buda meditou durante 28 dias, mês lunar, antes de alcançar o Nirvana. O Nirvana é a meta máxima da prática espiritual dos seguidores do budismo. É um estado de paz e tranquilidade alcançado através da sabedoria).
As religiões primitivas divinizavam o Sol, o mesmo se tendo verificado no Egito, na Suméria e noutras regiões das civilizações da Idade do Bronze e subsequentes, prévias às mais elaboradas crenças greco-romanas e ao Monoteísmo. 
A Lua e o Sol são associados com o yin-yang, onde a Lua representa "yin" e o Sol representa "yang", conceitos do taoismo que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. Descrevem as duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas: o yin é o princípio feminino, noite, Lua, a passividade, absorção. O yang é o princípio masculino, Sol, dia, a luz e atividade.
 O Sol é o lado ativo, o vitalizador essencial, o pai da fecundidade. Glorifica e fortalece, é o princípio ativo, autónomo. É o animador sexual da mulher.
O Sol corresponde ao fogo, por oposição à Lua, que corresponde à água.
Apesar destes dois elementos serem opostos, é o fogo que aquece a água, que a faz ferver, que a transforma do seu estado sólido para o líquido. Sem a força do Sol, o gelo nunca seria água.
 A Lua privada de Luz – é apenas um reflexo do Sol, muda constantemente de forma, e por isso, simboliza a dependência, o princípio feminino, a periodicidade e a renovação. É o símbolo dos ritmos biológicos e do tempo que passa.
A Lua é um símbolo do conhecimento indireto, teórico, conceptual, racional.

25 de janeiro de 2018

O Calendário e a Luz-Uma reflexão


 “O presente poderia ser entendido como o ponto de acumulação de todo o passado, e que estaria grávido de todo o futuro-“
 “O Tempo Filosófico” – Philippe Deschamps
in: “O Tempo” – Obra coletiva
 O tempo sempre foi para o Homem um grande mistério.
 Somos nós que passamos por ele? Ou é ele que passa por nós, connosco no eterno presente?
 De acordo com Gaston Bachelard o tempo é o tema da predileção dos filósofos e metafísicos. Ele expressou isso mesmo quando afirmou: “ A reflexão sobre o tempo é a tarefa preliminar de toda a metafísica.“ Acrescento, a começar pela Cosmogénese, pelo princípio, naturalmente quando o tempo começou a poder ser contado.
 Para o entendimento do tempo Aristóteles deu uma importante contribuição quando o definiu: “o tempo, se não é o próprio movimento, é o seu número calculado, isto é, o resultado da sua medição“. Dizia ele que há uma permanente troca entre os dois princípios, movimento e tempo, porque um é medido pelo outro. Uma vez que todo o movimento se opera no espaço, também a dicotomia espaço – tempo estaria presente na sua concepção do problema.
 Ganhamos consciência do tempo pelo facto do movimento representar uma sucessão contínua, definida como um antes e um depois. Aristóteles fornece a seguinte definição: “O tempo é o número do movimento conforme o antes e o depois.”
 A história da humanidade e do tempo são inseparáveis. Sem ele não haveria história nem futuro. O tempo impõe-nos os ritmos da vida diária e é através dele que vemos chegar os dias e as noites, os ciclos naturais, o tempo de semear e de colher, enfim…
 Através da observação da natureza e do movimento dos astros, o homem concluiu que há um retorno natural das coisas ao seu ponto de origem. Esse facto levou a que os antigos tivessem um raciocínio muito linear e que pensassem que, uma vez que os movimentos celestes se repetiam, então o universo e mundo seriam eternos. Por outro lado, como todos os astros voltam à sua posição inicial, então todos passam de novo pelo mesmo estado, estando assim justificada a “Lei do Eterno Retorno”. Lei que aplicada ao ser humano levaria a que, ao nascimento se seguisse a morte e, a esta, alguma forma de renascimento.

Há no entanto um tempo que podemos definir como estacionário, o presente absoluto, o tempo fora de tempo e por isso atributo de Deus. Aliás este tempo presente, o eterno presente, é considerado tão sagrado que os próprios hebreus não fazem uso dele: na língua hebraica os verbos não se conjugam no presente (A forma base para os verbos é a terceira pessoa do pretérito imperfeito, no masculino do singular). Numa aceção mais profana, podemos dizer que as grandes nações são aquelas que conseguiram dominar o tempo, porque o domínio do tempo é poder. Relembre-se a grande ruptura social que foi a Revolução Francesa e como então se modificaram as bases do calendário usado em França. Não terá sido também por acaso que a França e a Inglaterra decidiram fundar o Instituto das Longitudes. A longitude é a diferença de tempo entre o tempo local e um tempo tomado como origem (padrão), donde surgiu a ideia de construir os “guarda-tempos” a que chamamos relógios.

14 de janeiro de 2018

"AS CINCO GRANDES COLUNAS DO TEMPLO QUE AMEAÇAM RUIR"


Resumo da Peça de Arquitectura apresentada em Loja em Janeiro de 2018

INTRODUÇÃO
Como instituição Iniciática, em Maçonaria só os seus princípios e valores são imortais, sendo eles que informam e conformam, portanto, a Ordem. O resto é arrastado pelos acidentes da Natureza e do Acaso e pelas construções instáveis e falíveis do Homem e da História, por conseguinte, do domínio das Obediências.
A Ordem é, pois, infalível. As Obediências são contingentes.

PRIMEIRA COLUNA
 A falta de fortaleza nos alicerces de natureza iniciática da Obediência
SEGUNDA COLUNA
O actual universo limitado de alianças com outras Obediências e Potências
TERCEIRA COLUNA
As lacunas na integridade orgânica e funcional da nossa Obediência
QUARTA COLUNA
A relação de desigualdade comunicacional com o mundo profano
QUINTA COLUNA
As más práticas de administração da Obediência e das Instituições Para-maçónicas

José João, M:.M:.

23 de dezembro de 2017

Procura Iniciática, Transmissão e Ritual - reflexões


I – Introdução

O caminho que nos é proposto no dia da nossa Iniciação tem por fim  fazer-nos passar  dum estado considerado "inferior" a um estado "superior “ de consciência, lançando a ponte para o contínuo aperfeiçoamento interior, a caminho do Conhecimento e da Luz,  que deve guiar todos os Maçons. Isto é verdade para todos os Ritos, por forma a  admitir e elevar os seus adeptos a um grau de conhecimento de certos  mistérios, pela entrega das chaves que dão acesso aos  dados fundamentais,  traçando o caminho a seguir para alcançar as  etapas   progressivas  desse mesmo  conhecimento.
Este  percurso exige um caminho  que desce  até o fundo de nós mesmos,   via do Conhecimento,  indo de " nós mesmos para nós mesmos”.  Daí a importância dos Ritos  de Iniciação e dos Mitos, que representam  os perigos,  as armadilhas  a evitar para alcançar a visão salvadora do Ser, mas não a do Ter.   Daí os perigos dum caminho iniciático, de cariz marcadamente pessoal , caracterizado pelo acesso individual e único, aliado à  compreensão dos símbolos,  fora  de todo o método ou "escolas" tradicionais…
Segundo D. Béresniak (7) : “Enfrentar o medo é uma constante de todos os Ritos Iniciáticos de todos os tempos sendo a sua abolição a primeira etapa para o Despertar. Moral, conhecimento e amor são indissociáveis deste processo”…. “A reflexão sobre os símbolos é o trabalho mais importante que se efectua na Maçonaria não esquecendo que a leitura e a escrita são formas superficiais de uma conversação”.
No desenvolvimento da procura iniciática, o Ritual desempenha um papel primordial,  mas apesar da sua inquestionável importância, não será o único vector a ter em conta, já que apesar de representar o guia e o fio condutor do trabalho maçónico em Loja, o objectivo da procura iniciática não se restringe estritamente a ele.
O trabalho que procurámos estruturar é um tributo a dois reconhecidos autores e estudiosos maçónicos, I. Mainguy e Victor Guerra (felizmente ainda vivos) para além do (para nós) sempre presente D. Béresniak, (conforme indicado na bibliografia). Representa uma ligação entre perspetivas independentes, mas que se complementam, construindo o fio condutor do caminho que perspectivamos. Deste modo os erros ou inconsistências que possam existir, serão por certo da nossa inteira responsabilidade.

Atenda-se (e entenda-se) que o Simbolismo maçónico é o elemento  fundamental do pensamento  iniciático,   de que não se pode fazer  uma intelectualização redutora.  Deve ser acima de tudo um processo de conhecimento e o instrumento da transformação interior do homem.   Enquanto que a linguagem da razão é necessáriamente limitada, "o Simbolismo,  enquanto suporte da  intuição transcendente, abre possibilidades verdadeiramente ilimitadas" (René Guénon, «Perspectivas sobre a Iniciação») (2).
Face ao papel primordial do simbolismo maçónico, recordamos (de novo)  D. Béresniak (5), ao afirmar : “A Iniciação ao pensamento simbólico não é mais que um utensílio intelectual que ajuda a indagar por que razão tais representações gráficas podem estar associadas a determinadas reflexões. 
Os símbolos que o Maçom usa fazem parte de um fundo comum à humanidade mas a maneira particular de os combinar, essa, é específica da Maçonaria” (“L’Apprentissage Maçonnique - Une École de L’éveil»).

3 de novembro de 2017

A Vida Comunitária em Loja e o Simbolismo das suas Funções


Este será mais um traçado que não poderá ser considerado de Instrução, pois apenas pretende percorrer pistas que necessitarão de ser aprofundadas com um rigor reflexivo para nos guindar à Luz, Luz esta, que tem uma tripla pronúncia: amor, conhecimento e trabalho que, como escreveu Daniel Béresniak, …são indispensáveis sem que nenhum deles possa ser privilegiado ou posto de lado para se não correr o risco de se tornarem paródias
Assim, e sabendo nós que uma Loja designa uma comunidade de francos-maçons que se reúnem à volta do Templo numa perspectiva simbólica, podemos começar, usando a analogia como procedimento essencial do pensamento simbólico, por imaginar que o ser humano é um microcosmos e o universo o macrocosmos representando o Templo a intimidade entre estes dois opostos, ou seja, comecemos por tentar racionalizar e compreender a obra humana (nas vertentes racional, imaginativa e intuitiva) para a situar no universo. Esta relação entre sonho e realidade é feita decifrando os símbolos de modo a proporcionar a verdadeira libertação da dicotomia objectividade/subjectividade.
Para que se …reúna o que está esparso…,é necessário que esta vida comunitária, aqui expressa na Loja/Templo, tenha regras surgindo assim a funcionalidade bem visível nos Ofícios e Oficiais que a compõem. É desta funcionalidade e suas implicações que vos quero falar.
Convém recordar que as viagens são um dos princípios essenciais do ensino iniciático e se as cito é para remarcar que nenhuma pessoa deve permanecer numa função durante demasiado tempo para se não correr o risco de esquecermos as três facetas de uma função: fazer, proteger e ensinar. As funções de uma vida comunitária foram-se buscar às das sociedades humanas, tanto no plano material como espiritual com a particularidade de, na F-M serem fraternas, quer dizer, sem primazia de nenhuma delas sendo todas importantes, como na construção de um edifício em que uma pedra sustenta a outra sem nenhuma delas, isoladamente, ser superior à outra. É claro que há uma hierarquia, nunca no sentido profano em que as diferenças geram conflitos. Aqui, o V.’.M.’. cessante passa a G.’.Int.’. numa demonstração de grande humildade e igualdade, ou seja, cada um cumpre o seu papel numa ordem programada e útil ao funcionamento onde a cada um dos Oficiais cabe uma função específica que se for correctamente cumprida toda a Loja fica beneficiada.

Independentemente dos Ritos (em que o número de Oficiais varia consideravelmente) há em todos uma tríade fundamental: V.’.M.’.,1º e 2º VVig.’. (as chamadas Luzes da Loja) e uma grande variabilidade nas restantes funções podendo ir desde os dez Ofícios no R.’.E.’.A.’.A.’. e Francês aos oito nos de Menphis-Misrain ou ainda como nos Ritos anglo-saxónicos (Emulação e York) que tem 8 obrigatórios e sete não obrigatórios. Quanto à denominação dos Ofícios a mesma variabilidade se mantém (por exemplo nos ritos anglo-saxónicos não há Ir.’. Orad.’.) mas o que interessa saber é que todos os Rituais são discutíveis por serem baseados em rituais mais antigos que foram sendo descontextualizados e adaptados às realidades do espaço e tempo de cada época. Remarco que as diferenças entre eles são apenas superficiais mas o ensino é o mesmo, ou seja, aprender a separar o trigo do joio que é captar a unidade fundamental do espírito humano para se abrirem as portas do saber e do progresso, e isto sem prepotências (um conjunto de Lojas constitui uma Obediência e não uma Potência), quer espirituais quer materiais.

19 de outubro de 2017

Medicinas Naturais/Terapêuticas Não Convencionais(TNC).



A Lei de Bases das TNC foi aprovada em 2003 por unanimidade (algo muito pouco frequente) na Assembleia da República, que também aprovou em 2013, sem qualquer voto contra, a sua regulamentação.
Há duas fronteiras que delimitam o âmbito das medicinas naturais. A primeira é com Hipócrates, que há cerca de 2 400 anos afirmou claramente que todas as doenças têm causas naturais, contrariando assim a medicina mágico-religiosa, sob cuja visão tanto as causas como o tratamento das doenças seriam sobrenaturais. A segunda dá-se no século XIX, com a estruturação do espírito científico, partilhado pelas TNC, sendo que esse século é também o do nascimento da indústria química e farmacêutica. Nessa época portanto a saúde natural demarca-se da medicina convencional, optando pelo não uso de fármacos químicos. As suas terapias são portanto baseadas em produtos, elementos e métodos naturais: água, plantas alimentares e medicinais, massagens e manipulações, estilo de vida saudável inclusivamente actividade física aeróbica, exercícios respiratórios, contacto com a natureza e crítica do alcoolismo, do tabagismo e das drogas. Tem uma atitude preventiva e só secundariamente terapêutica.
É assim que no século XIX se estruturam no Ocidente a Homeopatia, a Osteopatia, a Quiroprática e a Naturopatia, com a divulgação de práticas como a hidroterapia e a alimentação natural, nomeadamente os vegetarianismos e no Japão a macrobiótica. A Acupunctura e a Medicina Tradicional Chinesa, milenares na Ásia, só se tornarão disponíveis ao Ocidente na segunda metade do século XX.
Actualmente milhões de portugueses e muitos milhões de europeus e cidadãos de todo o mundo recorrem a estas opções terapêuticas, cujo posicionamento não inclui nem deve incluir de forma nenhuma guerras a quaisquer outras, nomeadamente à Medicina Convencional. O que se verifica é que os cidadãos do mundo actual exercem a sua liberdade de escolha para gerir as suas opções terapêuticas que entendem como mais convenientes para o seu bem-estar e a sua saúde.

O século XXI é de cooperação, intercâmbio, complementaridade e autonomia adulta da população cada vez mais informada e educada. Por isso é também o século da liberdade e da capacitação da autonomia do cidadão. É neste quadro que o crescimento da saúde natural se verifica em todo o mundo desde a década de 1960.

Carlos Ventura M.´. M.´.

13 de julho de 2017

Duarte Pacheco


Tendo sido incumbido de apresentar uma peça de arquitetura sobre a escolha do nome simbólico Duarte Pacheco, ...Editado pela Comissão Editorial do Blogue..., vejamos então, porque razão foi esta a forma que encontrei de pessoalmente homenagear este Grande Engenheiro e Estadista português, de enorme importância para mim.
 Tendo nós campos e braços da Engenharia diferentes, Duarte Pacheco como Engenheiro Eletrotécnico, e eu como Engenheiro Geólogo, tornei-me grande admirador da sua obra, desde a minha adolescência, pelo exemplo que deixou às gerações vindouras, e pelas suas extraordinárias qualidades.
Duarte Pacheco foi um visionário para a sua época, e lutou contra todas as dificuldades do regime que em Portugal se vivia nessa altura.
Duarte Pacheco foi alguém que nasceu na época errada, tendo todas as suas obras sido idealizadas, e os seus padrões transportados para realidade atual, as quais ainda hoje podemos ver e admirar na cidade de Lisboa e no resto país.
Duarte Pacheco nasceu em Loulé, em 19 de abril de 1900, e ao longo dos seus estudos demonstrou sempre um elevado nível de intelectualidade. Em 1917, ingressou no recém-criado Instituto Superior Técnico (IST), e seis anos mais tarde terminou o curso de Engenharia Eletrotécnica, com a classificação de 19 valores.
Pouco tempo depois, foi convidado para Professor de Matemáticas Gerais, nesse mesmo Instituto Superior Técnico, e em 1927 foi nomeado Diretor do mesmo.
Em 1928, com apenas 29 anos, ocupou o seu primeiro um cargo político, tendo sido nomeado para Ministro da Instrução Pública, exercendo estas funções apenas durante uns curtos meses.
Em 1932, com apenas 32 anos, foi convidado para Ministro das Obras Públicas mas, abandona o Governo em 1936, voltando à vida politica em 1938, para aceitar o cargo de presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Poucos meses depois regressa ao Ministério das Obras Públicas, permanecendo no cargo até à data da sua morte, no dia 16 de novembro de 1943, vitima de um acidente de viação, com apenas 44 anos de idade.

Duarte Pacheco com as suas extraordinárias qualidades, inteligência, competência, espírito de grande iniciativa e energia, operou uma importante transformação no nosso País. Durante os anos que presidiu o Ministério das Obras Públicas e Comunicações, e na Câmara Municipal de Lisboa, planificou e executou as obras que trouxeram Lisboa e a Portugal para a realidade do século XX.
Foi o impulsionador do salto qualitativo da engenharia portuguesa. O Aeroporto de Lisboa, a renovação do IST e o Parque de Monsanto, também fazem dele uma referência obrigatória. O Parque é hoje o pulmão da cidade de Lisboa, e a sua conceção e execução, demonstra a paixão de Duarte Pacheco.                       
O seu nome ficará eternamente ligado a muitas obras emblemáticas como os bairros sociais de Alvalade, Encarnação, Madredeus e Ajuda, em Lisboa, as autoestradas Lisboa-Vila Franca de Xira e Lisboa-Estádio Nacional, a marginal Lisboa-Cascais, a Estação Marítima de Alcântara, o aeroporto de Lisboa, o Estádio Nacional, a Fonte Monumental da Alameda, o Instituto Nacional de Estatística, a Casa da Moeda e a organização da Exposição do Mundo Português.

12 de julho de 2017

Avental



Permitam que vos fale sobre um símbolo relacionado com a instrução de um iniciado.
Talvez o avental com a abeta levantada possa ajudar-nos a recordar a supremacia do triângulo sobre o rectângulo, porque embora o iniciado não consiga ainda distinguir a parte espiritual da parte material, este triângulo, além de o proteger no acto de desbastar a pedra bruta, ele representa a vertente espiritual e sobrepõe-se ao rectângulo do avental que ilustra a vertente material.
E essa peça do ritual, e paramento da actividade maçónica não representa apenas a prontidão para o trabalho, esta peça é o reflexo do corpo que a alma cria. O iniciado tem um avental branco porque é puro, e dependerá dos seus pensamentos e acções o avental, ou corpo, que a sua alma criará.
É claramente um símbolo que nos terá sido legado pela Maçonaria operativa, mas o Templo, ou Templos, que agora construímos são mais complicados de erguer.
O iniciado tem que ceder nos seus vícios e buscar permanentemente a virtude. É uma construção muito complexa quando constatamos que tantos da nossa espécie praticam sem grandes escrúpulos uma vida centrada na ganância e no egoísmo.

Erigir um templo à virtude partindo de nível tão desestruturado e conflituante, como são os vícios que transportamos do Mundo Profano, e que são muito distintos dos princípios que defendemos e que, quase todos, tentamos praticar, é uma construção lenta, difícil e a carecer de muito empenho e solidariedade do grupo.
A L:., o respeito pelo ritual, a disponibilidade e a solidariedade têm que ter um papel pedagógico e agregador perante todos os iniciados e aprendizes.
Desde sempre, os valores aceites por comunidades foram um cimento do seu desenvolvimento. Na antiga China, o ritual e a influência de Kongzi, ou Confúcio como o conhecemos aqui no Ocidente, ilustram-se nos Analectos com a resposta que um seu discípulo dá, perante a afirmação da importância do Ritual. Ele diz, e reflictamos:
Como coisa recortada, Como coisa preenchida, Como coisa gravada, Como coisa polida.
E para clarificar podemos acrescentar palavras da escritora Karen Anderson citadas e complementadas por Andrew Marr no seu Livro História do Mundo.

4 de abril de 2017

O Nome que Escolhi para Integrar o Universo da Maçonaria



Inspirado em alguém com quem tive o privilégio de conviver até aos meus 23 anos de idade e que foi determinante na forma como vejo e interpreto o mundo em geral, designadamente, os meandros do poder, da política e da economia dominantes, em oposição à ideia de sustentabilidade e de responsabilidade social que tenho procurado incorporar no meu comportamento quotidiano e reflectir nos meus artigos e trabalhos académicos.
Com efeito, refiro-me ao meu avô, (editado pela comissão editorial do blogue) que nasceu no Funchal, filho de (editado pela comissão editorial do blogue), de seu nome solteira, e de, (editado pela comissão editorial do blogue) família burguesa de ascendência nobre, pelo lado da mãe, que remonta a um tal (editado pela comissão editorial do blogue), cobrador de rendas da Ordem de Cristo no século XV, e que por aquelas ilhas possuía terras e deixou família.
O ambiente familiar era, no entanto, de tradição liberal, tendo o seu irmão mais velho, meu tio-avô, (editado pela comissão editorial do blogue), sido um conhecido como republicano radical e advogado de nomeada no foro lisboeta.
O meu avô, (editado pela comissão editorial do blogue) que veio a adoptar o pseudónimo de Meridional, nome com que ficou conhecido no movimento libertário, mudou-se para Lisboa em 1912 e foi no continente que fez toda a sua vida adulta. Terá tido o seu primeiro contacto com o anarquismo com quinze anos, quando, em casa seu pai trouxe um dia um panfleto de propaganda e o assunto foi comentado.